Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Como a impossibilidade matemática vira derrota, fuga e um vexame mundial
Publicado em 01/11/2026 às 08:31
Alterado em 01/11/2026 às 08:40
Flávio Bolsonaro e a patética proclamação do 'Napoleão Foto feita do IA
Com a credencial de ter sido um bom aluno de matemática no Instituto Militar de Engenharia (IME), o governador reeleito de São Paulo pelo Republicanos (o partido da Iurd, de Edir Macedo), capitão Tarcísio de Freitas (sua patente quando deixou o IME, em 2008), se investiu da condição de "professor de matemática e de estatística" para, usando o método "Monte Carlo", projetar, ainda no domingo, 25 de outubro, enquanto os eleitores votavam nas urnas, a vitória de Flávio Bolsonaro por cerca de 53% dos votos válidos, contra 47% atribuíveis a Lula. Com 6 milhões de dianteira.
O método usado pelo capitão-governador, que já se lançou para 2030, partia de pressupostos que não se confirmaram: Lula venceu por 51,79% (64.256 milhões) contra 48,21% dos votos válidos de Flávio (59,826 milhões), ou mais precisamente 4,430 milhões de votos de vantagem para Lula no segundo turno, invertendo a dianteira de 47,03% de votos válidos de Flávio no primeiro turno contra (56,104 milhões) 45,16% de Lula (53,879 milhões), com ganho de 2.224.965 votos do senador em 4 de outubro.
O 'já ganhou' e a reação geracional
A campanha de Flávio, inebriada pelo "já ganhou" que levou ao salto alto e à precoce montagem do ministério entre os turnos, avaliou mal a reação da juventude universitária em defesa da democracia (educação e jovens sempre são perseguidos quando falta Democracia) e a mobilização geracional de netos e avós para reduzir a abstenção e votos brancos e nulos em 25 de outubro, garantindo direitos sociais, sobretudo após as grosserias e ofensas no último debate da Globo, em 23 de outubro.
A reação dos estudantes de Direito da Universidade Federal Fluminense, de Niterói, em 5 de outubro, foi o estopim de uma ação geral da juventude universitária, que reagiu unida quando o laboratório da Universidade Federal de Pernambuco foi incendiado e a UnB (Brasília, criada por Darcy Ribeiro) sofreu ameaças. Como escreveu Johnny Alf, em 1965, o "inesperado fez uma surpresa". Não foi obra do acaso, como diria o jornalista Otávio Guedes. Foi "a chama da juventude", como clamava Milton Nascimento, em "Coração de Estudante". Foi algo muito além de uma vitória de Lula (maior líder do país) e do PT (sempre menor que Lula). Foi a vitória da Democracia ante a barbárie dos cortes.
A diferença dos votos
A diferença veio do aumento dos votos válidos repartidos entre ambos no primeiro turno (109.984.041) para 124.082.273 no segundo turno (14.098.232 a mais), sendo que os votos de Lula aumentaram em 10.376.694 e os de Flávio só em 3.721.538 votos.
E os motivos (não considerados na planilha de Tarcísio de Freitas) para Lula conquistar boa parte dos 9.316.747 votos destinados aos demais candidatos no primeiro turno fluíram da maior transferência dos demais eleitores a Lula, assim como do aumento líquido de 2.960.239 votos do maior comparecimento no segundo turno, com a redução histórica da abstenção e os 1.821.246 votos provenientes da diminuição dos brancos e nulos, que não se bandearam maciçamente para Flávio, como supôs o "professor Tarcísio".
Isso explica por que não houve a “fraude” alegada na primeira hora pelo senador derrotado, e que arrastou os presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump, a fazer coro e ajudar na fuga.
A patética proclamação do 'Napoleão'
Mas Flávio Bolsonaro, que, em matéria de matemática, era mais atento às contas de dividir (os salários dos apaniguados em seus gabinetes na Alerj nas “rachadinhas”), não entendeu o movimento dos eleitores e, inconformado por ter dançado comemorando vitória antes da hora, não reconheceu a derrota e partiu para acusação de fraudes, com o “sumiço” de dois milhões de votos (a diferença de sua vantagem de 2,224 milhões no primeiro turno para a dianteira final de 4,430 milhões de votos de Lula).
Pior é que seu irmão Eduardo Bolsonaro, foragido nos Estados Unidos, em companhia do economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João Figueiredo, embaralhou os números e as ideias na proclamação – em três versões, tais os disparates em cada proclamação, do “presidente eleito” do Brasil, em papel com o brasão dos “Estados Unidos do Brazil”, com Z, abandonado em 1967.
Estava escancarada a subserviência de Flávio Bolsonaro ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quem sabe com a candidatura do "Brazil" à condição de 51º estado dos “Estados Unidos" da América do Norte.
'Imbroglio' diplomático
Mas as graves consequências diplomáticas de aceitar o asilo, mesmo temporário num primeiro momento, a quem se declarava o “legítimo presidente eleito”, levaram o Departamento de Estado, por meio de auxiliares do secretário Marco Rubio, a fazer chegar ao irmão Eduardo e ao parceiro Paulo Figueiredo a ordem de correção de rumo.
Na terceira versão, lida por Flávio Bolsonaro, já em solo americano, voltou o brasão da República Federativa do Brasil e o rebaixamento da condição do senador derrotado e sem mandato a partir de 1º de fevereiro de 2028 à mera suposição de “verdadeiro líder do Brasil”. Mais duas inverdades com o uso abusivo do brasão da República.
O resultado das urnas mostrou que o presidente verdadeiro e líder do Brasil é Luís Inácio Lula da Silva. A legítima reeleição de Lula foi reconhecida pelo PL e pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, responsável, em parte, por induzir o raciocínio errático e sempre equivocado do senador.
A fuga intempestiva para tentar salvar seu patrimônio e eventual liberdade se os inquéritos a que vier a ser submetido (seja no Supremo Tribunal Federal, por terem sido os eventuais crimes cometidos enquanto senador, ou na justiça comum), compromete sua legitimidade como líder da oposição. Que já foi posta em dúvida pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que condenou a fuga e a carta, e pelo coordenador da campanha, senador Rogério Marinho, que também renunciou à reeleição para ajudar o filho 01.
Caso diplomático
O envolvimento logístico dos governos Milei, da vizinha Argentina, e Trump (apesar do presidente americano reiterar ter sido neutro na campanha) na fuga de Flávio Bolsonaro e família, a partir de Puerto Iguazu, com destino à Flórida, com escala para reabastecimento em Quito (Equador), pode aumentar as complicações diplomáticas entre Brasília e Buenos Aires e entre Brasília e Washington, impactando na vacância da embaixada brasileira em Buenos Aires e o “agrément” do embaixador americano em Brasília.
Como escreveu, sexta-feira, 30 de outubro, o embaixador Rubens Barbosa no “Relatório Reservado”, o apoio logístico do governo Milei a Flávio Bolsonaro “recebeu críticas da oposição local e agravou as relações diplomáticas com o Brasil, que deve manter a embaixada em Buenos Aires indefinidamente sem titular e a relação bilateral rebaixada”.
Escudo das Américas
Com a experiência de ter sido embaixador em Washington entre 1999 e 2004, Rubens Barbosa pondera que a situação é mais grave, no “tocante aos EUA, pois Washington não só deu apoio logístico para a família Bolsonaro até Miami, mas também autorizou a permanência deles em Miami".
A crise política e diplomática com os EUA poderá ser agravada por essas medidas, somando-se ao contencioso comercial a questão do combate ao narcoterrorismo com o apoio ao Escudo das Américas, a questão das terras raras e, como mencionou Lula no domingo, no discurso de vitória, de oposição à Estratégia de Segurança Nacional dos EUA no tocante à área de influência e dominação na América Latina (“o Brasil não vai ser quintal de ninguém”), a interferência das plataformas digitais na eleição (atuação da Meta) e a "regulamentação e taxação das big techs”.
Para o embaixador, “o governo brasileiro aparentemente não vai conceder o “agrément” ao novo embaixador norte-americano antes do ano que vem, ao contrário do que havia sido anunciado. Não parece provável que o governo Trump vá se preocupar neste momento com o adiamento do ‘agrément’ ou com Flávio Bolsonaro”.
Lembra o embaixador que “durante a campanha eleitoral no Brasil e mesmo agora com o senador em solo norte-americano, Trump evitou tomar lado e apoiar Flávio, a pedido de Lula, segundo declaração do presidente dos EUA. Essa atitude cautelosa da Casa Branca, preocupada com as eleições para o Congresso, deve continuar. Resta aguardar o que Marco Rubio, no Departamento de Estado, pode fazer contra o governo eleito”.
“O governo brasileiro agiria com pragmatismo e serenidade se não passasse recibo em relação aos apoios dos EUA e da Argentina ao senador Flávio e família. Ignorar a atitude ideológica dos dois países seria a reação correta de Brasília”.
“Nas próximas semanas, Lula e Mauro Vieira vão se encontrar com Trump e Rubio nas reuniões do G20, podendo surgir algum tipo de contato entre eles. É possível esperar uma atuação política ativa de Flávio junto a seus aliados em Washington, com possíveis medidas negativas nas relações bilaterais, inclusive com eventuais restrições do Departamento de Estado a autoridades brasileiras”.
O risco das apostas eleitorais no mercado
O tombo das ações das “big techs” nos EUA, face aos fracos resultados do terceiro trimestre que revelam serem custosos os investimentos em IA, mas com baixo retorno até aqui, e o megarroubo cibernético de “hackers” da Coreia do Norte que invadiram os sistemas da Binance e capturaram US$ 6,3 bilhões, em 20 minutos, da maior corretora de criptomoedas do mundo, gelaram os investidores que davam como certa a vitória de Flávio Bolsonaro e trouxeram bilhões de dólares para apostar na B3.
Logo após a vitória do primeiro turno, o ingresso de dólares reduziu o câmbio em mais de 5%, e o Ibovespa subiu quase 10%. Mas a inesperada derrota fez o jacaré fechar a boca nas duas pontas (dólar subindo e Ibovespa caindo) e engolir o especulador que não fez “hedge” para se prevenir de eventos reversos. O caso Binance mostra que o mundo virtual das criptomoedas, no qual muitas empresas e investidores acreditavam estar imune às garras do Fisco, também é perigoso, pelo ataque dos “hackers”. O mercado reage como manada e a saída ficou estreita. O dólar subiu quase 9% esta semana e o Ibovespa recuou 18%.
Mas Lula não tem culpa das perdas. Cada um deve saber o risco das apostas (nas “bets”, Lula proibiu a jogatina).