COISAS DA POLÍTICA

Construir o Brasil, ou tesourar; é a escolha

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Publicado em 18/10/2026 às 07:08

Alterado em 18/10/2026 às 09:06

Flavio Bolsonaro e Lula se enfrentam, neste domingo, em debate na TV Bandeirantes Fotos: reproduções

A proibição das "bets", com a retirada do ar das massivas propagandas das casas de apostas, ou cassinos virtuais, reduziu a poluição sonora e visual entre o primeiro e o segundo turnos, e abriu espaço para o público valorizar a poética e até nostálgica celebração dos 90 anos da Cimentos Votorantim. Os versos cantados pela voz áspera e melodiosa de Seu Jorge trazem mensagens positivas de um Brasil que foi construído nas últimas nove décadas, tijolo por tijolo, ou por milhares de sacos de cimento. As imagens são animadoras (um conjunto habitacional, o Maracanã, vias urbanas, trens, metrôs, uma hidroelétrica, aeroportos), e a grande surpresa da IA. A tecnologia pôs o empresário Antônio Ermírio de Moraes – falecido em agosto de 2014 – sorridente, dirigindo um caminhão sobre uma ponte, quando os versos da canção falam em legado e "construir o futuro".

Quem conheceu o empresário austero e comprometido com o Brasil sabe que ele era um homem simples. Despojado – a sede da Votorantim, onde o entrevistei em 1982, como editor de Economia do velho JORNAL DO BRASIL, em vez de tapetes, tinha uma passadeira de borracha, fácil de lavar -, mas, sobretudo, um empresário engajado no futuro do Brasil. Como fora seu pai, o engenheiro pernambucano, formado em engenharia de minas nos Estados Unidos, José Ermírio de Moraes.

Nascido em 1900, filho de usineiros de Pernambuco, ele dá impulso ao grupo Votorantim ao casar-se, em 1925, com Helena, filha do empresário português Antônio Pereira Inácio, dono da Fiação e Tecelagem Votorantim, município vizinho a Sorocaba (SP), a quem conheceu numa viagem à Suíça. Com sua formação ligada à indústria de base, José Ermírio de Moraes, direciona o grupo a entrar na mineração de metais, siderurgia e cimento. Em 1928, junto a outros empresários, fundou o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp). E foi um dos seus primeiros diretores, na companhia de líderes empresariais da época, como Francisco Matarazzo, Roberto Simonsen, Jorge Street, Horácio Lafer.

No ano seguinte, a lavoura do café, que era o esteio da economia brasileira desde a escravidão, no século 18, sofre o impacto da Grande Depressão, de 1929.

A Cimentos Votorantim nasceu como resposta dos empresários para o país enveredar pela industrialização, quando Antônio Ermírio de Moraes, o segundo dos quatro filhos do casal, tinha oito anos. Por ser o mais velho, José Ermírio de Moraes acaba sendo direcionado pelo pai para atuar na fábrica de cimento (hoje são mais de 16 pelo país e a América do Sul). Como o asfalto só começa a ser produzido no Brasil no fim dos anos 50, pela Petrobras (criada em 1954), o cimento foi a matéria-prima das primeiras estradas brasileiras (a primeira Rio-São Paulo e a ligação do Rio a Petrópolis, pela Serra dos Órgãos).

Antônio Ermírio segue a trilha do pai e vai estudar engenharia de minas nos EUA. Após a morte do velho, em 1973 (depois de uma atuação política importante nos tempos de Getúlio Vargas, quando foi eleito senador pelo PTB e ministro da Agricultura de João Goulart), os dois irmãos dividem o comando do grupo. José Ermírio comanda a área cimenteira. Já Antônio Ermírio, instigado pelos desafios da crise do petróleo de 1973, responde ao apelo do II PND do governo Geisel para um esforço na substituição de outras importações que não o petróleo.

Com financiamentos do BNDE (ainda sem o S, incluído no governo Sarney), a Votorantim turbina a Companhia Brasileira de Alumínio, criada por José Ermírio pai, em 1941, entra em minerais não ferrosos (níquel), em celulose, com a Votorantim Celulose, expande a siderurgia e ainda cria a Citrosuco (hoje uma parceria com o grupo Fisher, que é a maior exportadora mundial de suco de laranja).

Defesa da democracia

O fato de ter sido amparado pelo governo Geisel nunca impediu Antônio Ermírio de assumir posições políticas como a defesa da abertura democrática nos meios empresariais nos anos 70 e 80. Crítico contumaz dos juros altos e da ciranda financeira, criou seu próprio banco, o Votorantim, mas foi pego no contrapé quando o governo Collor confiscou depósitos e aplicações financeiras: bem capitalizado, o Votorantim foi o grupo com mais recursos congelados.

Apoiador do Plano Real e da eleição de Lula entre os empresários, o grupo Votorantim foi uma das vítimas no Brasil da crise financeira mundial de 2008, surgida nos EUA. Com as exportações da Votorantim Celulose expostas a uma alta do dólar (não tinha “hedge” defensivo), assim como a Aracruz Celulose, o grupo entrou em crise de liquidez em 2009. (Lula mencionou na sabatina com Renata Loprette, na TV Globo, ter socorrido Silvio Santos, no Banco Pan, mas esqueceu de falar do Votorantim.)

O BNDES socorreu os dois grupos de celulose, patrocinando a sua fusão, sob as asas da Fibria, repetindo a operação na fusão da Sadia com a Perdigão (hoje a MBRF, maior exportadora de carnes de aves e alimentos processados do Brasil, depois do Grupo J&F, dono da Friboi e Seara). Mas o socorro envolveu (como na associação da CEF ao Pan) o BB assumir 50% do controle do Banco Votorantim. Incansável benfeitor da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e de Santas Casas, Antônio Ermírio, que só tinha um rim, precisava de cuidados frequentes, sofria de Alzheimer e morreu de insuficiência cardíaca.

Após sua morte, o grupo se diversificou, até em concessões. A área de celulose foi vendida em 2019 ao grupo Suzano. A necessidade de energia para o alumínio da CBA levou o grupo a assumir as usinas da CESP e da AES, além de criar a Auren, para fontes alternativas de energia (solar e eólica).

Um empresário como Antônio Ermírio, que sempre apostou no futuro do Brasil, correndo riscos, está fazendo falta nestes tempos em que as páginas de economia dão mais espaços aos financistas e rentistas, e onde a palavra empreender dá lugar ao desmonte do que está feito, e o "tesourar" visa destruir o tecido social construído por várias gerações. Mas o espírito de Antônio Ermírio de Moraes renasce no belo anúncio e nos instiga noções claras de brasilidade e soberania.

Hora da verdade na Band

Com os candidatos em virtual empate técnico no segundo turno, mas com Lula em viés de alta após a promulgação da PEC do fim da escala 6 x 1, o debate na Band neste domingo, o primeiro com os dois líderes da campanha eleitoral, é a oportunidade para o eleitor tirar conclusões sobre quem está falando a verdade e quem está vendendo terrenos na Lua.

A “conversão” de última hora de Flávio Bolsonaro à redução da escala de trabalho 6 x 1 – ele que sempre defendeu o fim da CLT e a contratação de trabalhadores por hora trabalhada - vai ser cobrada, se não está armando um estelionato eleitoral.

Com a maioria do PL no Senado e na Câmara, se for eleito, pode deixar para a bancada fazer uma proposta de recuo total da medida promulgada por Lula na sexta-feira.

A imperfeição é a meta da Meta

No começo dos anos 70, Gilberto Gil escreveu a música “Meio de Campo”, dedicada ao médico Afonsinho, que brilhava como meio campista do Botafogo e se revoltou com o clube. Dizia Gil que “a perfeição é uma meta perseguida pelo goleiro”.

Nesta estranha campanha eleitoral, com um omisso Tribunal Superior Eleitoral, que deveria atuar como o Var, corrigindo imperfeições em nome da "imparcialidade" e do "equilíbrio", o que vemos é a intervenção tendenciosa externa da Meta, de Mark Zuckerberg, dona do Facebook, do Instagram e do Whatsapp, contra Lula e pró-Flávio Bolsonaro, com adeptos de Lula pedindo para a IA produzir imagens com o presidente, o número 13 e temas brasileiros - e as três redes sociais (eventual ou propositalmente mal programadas) alegam ser impossível -, mas o mesmo usuário pede algo sobre Flávio e o número 22, e a Meta produz rapidamente cartazes ufanistas com símbolos nacionais.

Imagina o que não está programado nos algorítmicos...

E o TSE? Quando não faz cara de paisagem, o vice-presidente, ministro André Mendonça, quer submeter a plenário o que o plenário virtual já tenha decidido contra Flávio...

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