Por Coisas da Política
WILSON CID - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
No fundo do poço
Publicado em 08/09/2026 às 21:54
Alterado em 08/09/2026 às 21:54
Desejável seria que as crises se restringissem aos agentes políticos; no máximo, nos limites dos poderes Executivo e Legislativo, pois, assim fosse, a suprema corte de Justiça ficaria como uma espécie de porto seguro, onde o país pudesse fundear esperanças de paz e melhores tempos. Para geral frustração, as tensões e os interesses do momento arrobaram as portas das salas togadas, de onde se esperava exemplo de harmonia inspirada nos altos anseios dos brasileiros. Porque na casa maior da lei é onde, supostamente, encontram domicílio as respostas para grandes e últimas ansiedades. Mas o barco da Justiça soçobrou, agarrado em suspeitas de prática de crimes engendrados nos gabinetes, arrastando consigo os comandos da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal. E ministros num deprimente pugilato.
Chegamos ao fundo do poço.
Os últimos episódios dos conflitos no STF mostram que não é mais possível encontrar ali um exemplo de harmonia e seriedade no tratamento das grandes questões. O que mais esperar da Justiça, além da avalancha de maus exemplos?
Pior para o Brasil e sua Independência, aniversariantes de ontem, sobretudo agora, em tempo de processo eleitoral, quando a sociedade – não há negar - vive momento crucial para definir o futuro. Hora em que a harmonia entre poderes e poderosos seria essencial para instruir e orientar o voto pensado e bem cuidado. Isso não é da magistratura maior que podemos esperar, porque, pobre coitada, vive o momento mais crítico de sua história. Repudiada, desacreditada. Seus ministros, se não estão sob suspeita de delinquir, pecam pela omissão. A casa pegando fogo, e a maioria deles com olhar de paisagem. Nada têm a ver com os desaforos trocados entre os doutores Moraes e Mendonça. Como se morassem num outro mundo.
2 – O que fazer, diante dessa dolorosa encruzilhada em que o Brasil e seus poderes se meteram? Querem alguns que o presidente da República entre em cena para apaziguar os ânimos, acalmar ministros e que saibam administrar suas culpas. Mas é uma sugestão, se bem-intencionada em alguns, também revela maldade da parte dos que apostam na ampliação do conflito. O Executivo corre o risco de esbarrar em dificuldades, acaba sendo acusado de interferir na ordem doméstica do Supremo. Pode sair chamuscado. Aliás, nesta hora, o presidente nem devia ter sugerido reforma do Judiciário no próximo ano. Melhor faria se apressasse a indicação ao Senado de um novo ministro para a corte, onde a vaga de Barroso se pereniza. Seria um jurista acima da suspeita de simpatias partidárias, capaz de remover o clima das tensões, que ameaçam prolongar-se.
3 – Não há quem seja capaz de invejar, nesta hora, o presidente do STF, Édson Fachin, em quem o suposto temperamento contemporizador está à prova nesta semana, talvez a mais delicada do cargo que ocupa; prova difícil e delicada, porque o que fizer para tirar a corte da instabilidade estará tendendo por uma das correntes internas em conflito, principalmente alimentando contrariedades entre os ministros Moraes e Mendonça, pivôs do grave desequilíbrio.
Nem se sabe como haveria de convencer os colegas suspeitos de deslizes a se afastarem, temporariamente, até que se esclareça, por exemplo, a extensão de suas intimidades com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Sendo este o painel, Fachin não terá como avançar seu plano de normas mínimas de conduta na convivência de ministros e suas responsabilidades perante a Constituição. É desafio demasiado para quem pisa em ovos, carregando copos de cristal.
4 – Na deplorável quadra, para piorar horizonte já tão sombrio, leva-se em conta que na crista de tamanhos embaraços não há apenas a tragédia de estar um ministro do Supremo comprometido com banqueiro criminoso, mas constatar que o que realmente move essa crise é o vazamento de dados das investigações. Balança mais o Supremo Tribunal nem é o escândalo do crime, mas a notícia do escândalo.