Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Todo mundo em cima do muro?
Publicado em 06/09/2026 às 07:09
Alterado em 06/09/2026 às 08:42
Ministro André Mendonça Foto: STF
O Código Penal não faz muita distinção entre um furto de R$ 1 milhão e outro de R$ 100 milhões. Em ambos os casos, se o meliante for apanhado com a boca na botija, ou rastreado em crimes de lavagem de dinheiro e colarinho branco pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a justiça não faz muita diferença. Os dois crimes merecem ser julgados do mesmo modo. A discrepância de R$ 99 milhões pode incorrer em pena maior para o seu autor.
A menos de um mês do primeiro turno da eleição presidencial, em 4 de outubro, com o presidente Lula ligeiramente à frente das pesquisas para o segundo turno (42% a 41% de Flávio Bolsonaro no levantamento da Quaest e 46% a 44%, no último DataFolha), os dois lados usam qualquer pretexto para atacar o adversário e supostos aliados. O clima prenuncia manifestações radicais no 7 de setembro, pedindo punições nos dois lados. E não há distinção para os acusados de receber dinheiro.
O vazamento seletivo no Supremo Tribunal Federal, pelo gabinete do ministro André Mendonça, relator do Caso Master, maior escândalo financeiro do país, com rombo de mais de R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), de partes dos inquéritos levantados pela Polícia Federal envolvendo a teia de manobras do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, acirrou os ânimos no Supremo, opondo Mendonça ao ministro Alexandre de Moraes.
O 'sugar dady' da República
Na campanha de 2022, com o Master ganhando musculatura, Vorcaro, segundo confessou à PGR, distribuiu R$ 3 milhões a Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões à candidatura de Tarcísio de Freitas, em São Paulo, além de emprestar jatinho para Nikolas Ferreira (PL-MG) percorrer 10 estados do Brasil e ser o deputado federal mais votado nas Gerais.
Graças aos milhões que levantava com aval do Fundo Garantidor de Créditos a seus papéis (cobertos até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ), quando não conseguiu elevar, em 2024, o limite do FGC para R$ 1 milhão, proposto por seu “amigo de uma vida” senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, Vorcaro, que já tinha estendido seus tentáculos a tanta gente de Brasília, mirou nos governos estaduais, para atrair milhões em investimentos de fundos de pensão de funcionários públicos.
O fundo de pensão do RJ, governado por Cláudio Castro, aplicou, com a Cedae, quase R$ 3 bilhões no Master, mas não foi denunciado por Mendonça, lépido a vazar suspeições contra Fábio Luiz da Silva, o “Lulinha”. O fundo do Amapá, com gestor indicado por Davi Alcolumbre, também foi atraído por altos juros e as comissões do Master.
Em janeiro de 2024, quando já tinha feito parceria com o ministro Dias Toffoli, no Resort Tayayá, no Paraná, Vorcaro deu tacada mais audaciosa: fez contrato de serviços jurídicos, no valor de R$ 129 milhões, com o escritório Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes. A liquidação do Master, em novembro de 2025, na gestão Gabriel Galípolo, interrompeu o contrato em R$ 80 milhões.
Como definiu a colunista Mariliz Pereira Jorge, da “Folha de S. Paulo”, com sua teia de amizades e troca de favores, incluindo diretores do Banco Central, que faziam vista grossa aos atrasos do balanço e às irregularidades dos créditos podres registrados por altos valores de face, Daniel Vorcaro era o verdadeiro “sugar dady” do Poder em Brasília. De modo mais delicado, ela disse que “Vorcaro operou a revolução no mercado do afeto remunerado”, animado pelas festas íntimas com a presença de “astronautas” louras do Leste europeu, que não entendiam português.
Careca e cabeludo
Os fatos vazados esta semana, de forma ampla, por André Mendonça, informando terem vindo de conversas extraídas pela PF dos celulares de Vorcaro com Moraes (em maio, a colunista de “O Globo”, Malu Gaspar, já tinha revelado as postagens de Vorcaro, supostamente trocadas com Moraes, que apagava os “prints”), expuseram o ministro Alexandre Moraes, que foi o relator do julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão pela trama golpista em 2022 e 2023, e desperta ódio dos bolsonaristas.
O caso opôs claramente os ministros André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, em 2021, e Alexandre de Moraes, indicado em 2017 pelo presidente Michel Temer, e segue acirrando os ânimos dos dois lados do muro. Moraes só não tem o escalpo posto a prêmio pelos bolsonaristas que o odeiam porque cultiva uma calva há mais de 15 anos. Mendonça, que caminhava para uma calva, resistiu ao uso de peruca como faz Luís Fux, e fez implante capilar.
Os dois, que sentam lado a lado no STF, não trocaram insultos tipo “careca” e “cabeludo”, mas as ações que enviaram ao presidente do Supremo, Edson Fachin, cada qual atirando munição contra o outro lado, levaram o presidente da Corte a jogar água na fervura. Fachin, meio que distribuiu advertência contra ambos, deu um basta no inquérito das “fake news”, conduzido por Moraes desde 2021, e aproveita o feriado de 7 de setembro para ganhar tempo. O caso terá desfecho na semana de 14 de setembro.
Delação pode atingir ‘Dark horse’
Os adversários do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apanhado nas escutas da PF nos telefones de Vorcaro pedindo R$ 134 milhões ao então banqueiro, em 2025, para financiar o filme “Dark horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, exploram as explicações bem inconsistentes sobre o uso do dinheiro de Vorcaro (extraído também de dinheiro público), que podem atingir tanto a Flávio, quanto o irmão Eduardo, foragido nos Estados Unidos e condenado por Moraes por tentar interferir no processo contra o pai.
Flávio jurava não conhecer Vorcaro até virem à luz, em 13 de maio deste ano, suas cobranças além dos R$ 61 milhões liberados até maio de 2025. Segundo a revista “piauí”, Vorcaro fez liberação extra de R$ 1,6 milhão (R$ 8,5 milhões) em setembro de 2025. Total: R$ 69,5 milhões, mas sem prestação de contas transparente do uso do dinheiro.
Para complicar a vida do senador, o empresário Antônio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos, (liquidada pelo Banco Central em março), firmou delação premiada com a Procuradoria-Geral da República em 8 de agosto, e revelou que movimentou cerca de R$ 1,3 bilhão entre 2020 e 2025 para Daniel Vorcaro, entregando os valores em malas com até R$ 1,5 milhão cada, segundo apuração de Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, do portal “G1”, e de José Marques, da “Folha de S. Paulo”.
A delação aponta ainda repasses ao fundo “Havengate Development Fund”, nos EUA, intermediário final do filme “Dark horse”, com conexões a Flávio e Eduardo Bolsonaro. Freixo Jr afirmou à PGR que tinha a função de “gerar” dinheiro vivo para Vorcaro, e entregava valores em espécie. Os destinatários eram Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, ou seus motoristas. O empresário disse às autoridades que os valores eram “solicitados provavelmente para pagamento de comissões e vantagens indevidas”.