Por Coisas da Política
WILSON CID - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
O que o eleitor devia saber
Publicado em 25/08/2026 às 08:09
Alterado em 26/08/2026 às 09:51
As primeiras horas da campanha eleitoral, com candidaturas formalmente lançadas, mostram que as principais atenções se voltam para a disputa presidencial, tal como já se esperava. Nisso, ela em nada contrasta com antigas disputas; nem seria diferente, considerando-se que vivemos sob os ritos do sistema presidencialista, soberanamente vitorioso no plebiscito de 1993, quando derrotou o parlamentarismo.
Da mesma forma como se via em pleitos anteriores, os discursos de lançamento das candidaturas contemplaram a preocupação em ferir os pontos mais vulneráveis dos adversários, tentando embaraçá-los. Com a predominância de ataques pessoais, denúncias e revides, a corrida presidencial revela-se jejuna de substância, pobre de ideias. O mesmo cenário vem dos estados, ou, pelo menos, nos principais deles, porque os candidatos, se não estão agredindo e sabem identificar os problemas de seus municípios, nada dizem, objetivamente, sobre o que terão de fazer para solucioná-los. Falta mostrar o caminho das pedras.
Ora, se a tendência é o ataque, propostas apenas superficialmente tratadas, é possível que o palanque eletrônico da TV perca grande parte do interesse. Se o candidato vai às câmeras para ofender e ser ofendido, melhor não aparecer. Os candidatos a presidente Flávio Bolsonaro e Romeu Zema condicionaram sua ida à televisão se pudessem digladiar com Lula, principal concorrente. Os três desistiram.
Salvo alguma peculiaridade do momento, em disputas recentes o que os telespectadores viram não foi coisa muito diferente. Agressões ou bravatas tomando lugar de propostas concretas; estas entendidas como aquelas que não apenas mostram as feridas, mas também criatividade para curá-las.
2 - De volta às primeiras horas da campanha, outro ponto visível nas concentrações e nas entrevistas é a velha preferência dos candidatos em abordar temas amenos às multidões, com escasso interesse em expor a real origem das dificuldades que nos fazem um país trôpego, dando cabeçadas, bêbado. Ouve-se, com insistência, a condenação dos altos juros praticados no mercado, que fecham empresas e geram multidões de desempregados, mas não explicam ou confessam que um dos fatores da tragédia está no custo fiscal da máquina administrativa, perdulária e farta de ministérios, subsídios, conselhos, grupos de trabalho e mordomias, que tanto oneram.
Quem ousa prometer uma jornada de contenções e inevitáveis medidas amargas?
Uma unanimidade que assusta, concordam os caçadores de votos, é que a segurança pública está falida e a violência institucionalizou-se. O que tem de ser feito? O programa Bolsa Família escapou de seu proposto original, transformou-se em inimigo do trabalho. De quem a coragem para prometer o pente fino ali?. A corrupção impera. Qual candidato mostra como eliminá-la, se também estaria eliminando a fonte que abastece suas alianças?
(Mas, reconheçamos, tratar dos problemas e suas profundidades realmente assusta o eleitor que, já muito sofrido no cotidiano, é mais animado a ouvir coisas agradáveis. Quatro anos atrás, já saboreava o sonho da picanha em fim de semana, regada com cervejinha).
3 – Podíamos, então, trazer à tela uma ideia corrente no passado, não se sabe exatamente de sua paternidade, mas, tomando em conta que os candidatos preferem não falar de pratos indigestos, recomendava-se que as entidades da sociedade organizada promovessem campanhas eleitorais paralelas, sem adesões a candidaturas postas; de forma que levassem a nação a conhecer a gênese das grandes contrariedades, desde o debate até a prescrição dos remédios, dispensadas tendências ou preferências por quem quer que seja.
Quando se fala na representação da sociedade organizada fala-se na OAB, nas instituições religiosas, nas federações de setores produtivos, organizações de defesa dos direitos humanos, entidades que podem estudar e propor caminhos para enfrentar os grandes desafios. Soluções azedas e indigestas, sem cores partidárias e ideológicas, dariam ao eleitor o direito de não sucumbir na onda ilusória do discurso falso ou açucarado. Mas também acabariam servindo com preciosos subsídios ao eleito para a Presidência e governadorias. Uma ideia, que certo dia, no futuro, talvez possa contribuir para o aperfeiçoamento da política e das candidaturas.