Por Coisas da Política
WILSON CID - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Procura-se a OEA
Publicado em 18/08/2026 às 17:01
Alterado em 18/08/2026 às 17:01
Instigante, ao mesmo tempo preocupante, o desinteresse que o Congresso Nacional e lideranças partidárias demonstram frente aos desacertos que prosperam nas relações do Brasil com a Argentina e com os Estados Unidos, se assistimos a uma novela de troca de suspeitas e acusações, com tudo para merecer acompanhamento mais atento, sem que nos contentemos com pronunciamentos isolados e incapazes de repercutir, competentemente, a evolução dos acidentes com aqueles países. Quanto aos estadunidenses, nos primeiros meses das dificuldades, ainda ausente a ameaça de maiores conflitos, o problema se restringia à sobretaxação que o presidente Trump impôs aos exportadores brasileiros; restava a expectativa de que o diálogo entre empresários e autoridades levaria a um desempenho satisfatório, demarcado pelos limites de interesses de mercado.
À proporção em que a sobretaxa vai se arrastando, sem solução, é certo que ela comporta outros objetivos, mais profundos, pano de fundo em questões que não escapam dos conselheiros políticos da Casa Branca. De imediato, com todas as evidências, o interesse em dificultar a campanha de reeleição de Lula, presidente que se rege por princípios ideológicos inaceitáveis para Trump, pois conflitam com linhas básicas do capitalismo. Uma segunda questão, não imediata, porém muito importante, é que desagrada demais aos Estados Unidos sentir que os pés da China pisam, cada vez mais fundo, em terras do Brasil.
(Trump reedita a Doutrina Monroe, uma senhora idosa e madrasta de 203 anos: a América para os americanos, desde que sejam os americanos do norte...)
2 – Nossas dificuldades, além de divergências com Washington e Buenos Aires, incluem o esvaziamento das funções de embaixadas, avançam em batalhas verbais e ofensas mútuas, sem que nos falte, para agravar, um distanciamento em relação aos países de orientação direitista do continente.Tudo concorrendo para se indagar onde está e aonde vai a Organização dos Estados Americanos, que não viu as ameaças da Venezuela de invadir a Guiana, como também não se pronunciou sobre a escancarada invasão de Caracas, de onde saiu refém de tropas americanas o presidente Maduro.
O que pensa a OEA, nos seus 78 anos de compromisso com a paz continental?, quando as relações entre os governos vão despencando para impasses perigosos. O mínimo, entre o muito desejável, seria Senado e Câmara colher informações sobre o marasmo da entidade, convidando a vir a Brasília nosso embaixador, Benoni Belli. Os poderes Legislativo e Executivo, bem como a sociedade brasileira, têm direito de interpelar e saber se há gestões em curso ou previstas para que a Organização entre em cena e trabalhe para harmonizar as relações no continente. Os sinais, contudo, são de terrível omissão.
3 – Um bom serviço poderia se resumir em dois projetos. O primeiro: sensibilizar Washington, Brasília e Buenos Aires a confiar menos no humor político e mais na diplomacia, que forma profissionais capazes de vencer ou contornar crises. O segundo projeto: convencer os presidentes Trump, Lula e Millei a falar menos e ouvir mais. Não é fácil, mas não custa tentar.