Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Foi dada a largada; façam suas apostas
Publicado em 16/08/2026 às 09:03
Alterado em 16/08/2026 às 09:06
Lula e Bolsonaro em cena no debate da Globo nas eleições anteriores (arquivo) Foto: reprodução de vídeo
Os competidores entraram nas baias de largada, depois que as chapas majoritárias e demais postulantes encerraram as inscrições no prazo máximo do Tribunal Superior Eleitoral. E já neste domingo começa a campanha eleitoral no rádio e na TV, além da batalha campal nas redes sociais. Como o TSE não deu cartão vermelho geral antecipado, é grande o risco de o eleitor ser iludido pela Inteligência Artificial. As coordenações das campanhas precisam estar atentas para não reagir após estragos irreversíveis. O triste “caso Discord” está aí para mostrar: é vital agir rápido na “web”.
Por enquanto, apesar da polarização da campanha, os números da última pesquisa Quaest, divulgada sexta-feira, mostraram um dado surpreendente. Embora o presidente Lula lidere em todos os cenários (no primeiro e no segundo turnos, no confronto simulado com os candidatos mais indicados), a pesquisa espontânea indicou que nada menos de 51% dos pesquisados estão indecisos. Ou seja, pode ser uma eleição decidida pelos Nem-Nem. Nem Lula, nem Bolsonaro, como sonham os demais postulantes.
Lembro que Paulo Maluf era um político que iludia no “cânter”. Ou seja, nas prévias, sempre largava na frente, com pouco mais de 30% das indicações de votos. Quem era Maluf logo dizia seu voto. Mas, as pesquisas escondiam que os indecisos eram de 40% a 45% do total. Quando os indecisos se decidiam, não era por Maluf. Ampliado o bolo dos eleitores definidos, seu quinhão encolhia e perdia o páreo. Agora, os indecisos são 51% ou metade. O conservador Maluf se decidiu por Lula. Assim como as raposas do “centrão”.
Na campanha eleitoral, o maior tempo é de Lula. Além disso, o presidente tem obras e realizações na recomposição dos projetos sociais e ambientais destruídos por Jair Bolsonaro para mostrar. Flávio, por enquanto, tem o apelo da obsessão por livrar o pai da cadeia, caso seja eleito. Os demais postulantes vão bater em Lula e em Flávio, para ver se angariam votos dos indecisos.
Petróleo no fator soberania
A soberania nacional será um dos temas explorados pelo presidente Lula, para fustigar as posições entreguistas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em articulação com o irmão Eduardo, que se instalou nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado, para conspirar contra o Brasil e tentar parar o processo do Supremo Tribunal Federal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de cadeia, o senador instigou e aplaudiu os tarifaços de Trump contra as exportações brasileiras. Ao acionar o princípio da reciprocidade contra os Estados Unidos, o governo Lula chamou o governo Trump à mesa de negociações e pôs o tema na campanha eleitoral para fazer o contraponto da defesa da soberania ao entreguismo da família Bolsonaro.
E veio a calhar a nota da Petrobras, na noite de sexta-feira, de que identificou "a presença de hidrocarbonetos em poço exploratório em perfuração no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, na bacia sedimentar da Foz do Amazonas, na margem equatorial brasileira. O poço Morpho (1-BRSA-1405-APS) está localizado a cerca de 175 km da costa do estado do Amapá, em lâmina d'água de 2.886 metros". A presidente da estatal, Magda Chambriard, disse que “o otimismo da Petrobras em relação à margem equatorial brasileira se confirma” e acrescentou que, com essa primeira descoberta na costa do Amapá, resultado “da dedicação e da competência da Petrobras”, a companhia “está comprometida com a recomposição das reservas de petróleo e com a segurança energética do país".
O intervalo portador de hidrocarbonetos foi constatado através de perfis elétricos e indicativos em rocha. As operações de perfuração seguem, visando a continuidade da avaliação exploratória, de forma segura e com respeito ao meio ambiente e às pessoas. Não será surpresa se a confirmação das dimensões gigantescas da descoberta, a ser atestada com novas perfurações, coincidir com a reta final das eleições. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, eleito pelo União do Amapá, já se reaproximou do presidente Lula, farejando petróleo e reeleição. A Petrobras é a operadora do bloco e detém 100% de participação na área. O bloco foi adquirido na 11ª Rodada de Licitações da ANP, em 2013, sob o regime de concessão.
Lula mira Rubio e poupa Trump
O presidente Lula, certamente, já sabia dos sinais de óleo que indicam nova província petrolífera no Norte do país (que se junta ao gigante pré-sal da Bacia de Santos, e à revitalizada Bacia de Campos, e o promissor campo de petróleo e gás no litoral de Sergipe-Alagoas), quando disparou torpedos contra as falas do secretário de Estado americano. Marco Rubio, que está redesenhando a doutrina “Donroe” (a doutrina Monroe adaptada à gestão Donald Trump), disse que o Ocidente é a área de influência americana. Lula poupou Trump (de quem espera diálogo).
Geograficamente, sim. Os Estados Unidos fazem parte das Américas e do Caribe. Do ponto de vista comercial e econômico, embora, por seu vasto território, tenha matérias-primas (petróleo, minérios e terras raras), variedade de fontes energéticas renováveis e amplo leque de produção alimentar, o Brasil é competidor dos EUA em soja, milho, laranja, produção de suínos, de frangos, ovos e de carne bovina. Os grandes consumidores estão na Ásia: pela ordem, China, Japão, Índia, Indonésia e Coreia do Sul.
Nunca é demais lembrar. Quando o cerrado do Centro-Oeste foi conquistado, na segunda metade dos anos 70, no governo Geisel, após a destruição, na geadas de junho de 1975, das lavouras de café (e dos consórcios de milho, feijão e mandioca nas “ruas” do café), foi o Japão que financiou as pesquisas da Embrapa que descobriram variedades de soja, milho e algodão adaptáveis ao cerrado. O Japão era o alvo.
A entrada da China como grande compradora de minérios (de Carajás – os alvos iniciais eram a Europa e o Japão), de alimentos e petróleo, mudou a geopolítica econômica do Brasil. Hoje, a China absorve mais de 30% das exportações brasileiras e garante mais de 40% do superávit. Os EUA são o segundo país importador, mas produz déficits bilionários ao Brasil, que serão agravados pelos tarifaços. O bloco da União Europeia é o segundo mais importante para o Brasil.
O Brasil é grande parceiro dos Estados Unidos há dois séculos, mas os mercados que demandam bens “made in Brazil” estão na Ásia e, futuramente, na África. Os EUA terão papel semelhante ao da Argentina (complementariedade econômica), mas Trump cortou temporariamente os elos.
A eleição ao Senado em SP
A eleição para as duas vagas ao Senado Federal, em São Paulo, merece reflexão sobre quais são, de fato, os grandes problemas do Brasil. O estado é o mais populoso e rico do país, A ultradireita e o jornalismo preguiçoso do Boletim de Ocorrência (que desfila diariamente, nas telas das TVs abertas e de assinatura, casos policiais) parecem incutir na população que a questão da segurança é a mais importante. Por isso, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que esperava ser indicado por Jair Bolsonaro para concorrer a presidente, indicou o ex-secretário de Segurança e ex-comandante da Rota, deputado federal Guilherme Derrite (PP), para concorrer ao Senado.
As pesquisas estão revelando, até aqui, uma realidade diferente. Quem lidera as intenções de voto é a ex-ministra do Planejamento e ex-candidata a presidente, Simone Tebet (PSB), com 26,8%, segundo a pesquisa Quaest. O segundo lugar é da ex-ministra do Meio Ambiente e ex-presidenciável, Marina Silva (Rede), com 23,3%. Derrite vem em terceiro, com 19,4%, seguido de André do Prado, do PL (com 19%).
Pelo visto, o eleitorado feminino (53% do total) tem uma visão mais holística e menos truculenta da política e das verdadeiras demandas da população brasileira.