Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Economia ajuda Lula às vésperas da eleição
Publicado em 12/07/2026 às 07:09
Alterado em 12/07/2026 às 08:48
Viaturas da Polícia Federal têm tido frequência no principal centro financeiro do País, a Av. Faria Lima, em São Paulo, que anda contrariada com o sucesso econômico do governo. Ainda que uma coisa não tenha a ver com a outra Foto: Werther Santana/Estadão
A Faria Lima, centro financeiro do país, reagiu contrariada à surpreendente baixa da inflação em junho. Segundo o IBGE divulgou sexta-feira, 10 de julho, o IPCA de junho, a inflação oficial, que mede as despesas das famílias com renda de até 40 salários-mínimos (R$ 64.840), subiu apenas 0,16% no mês passado, a metade do número esperado pelo mercado financeiro. O mercado tem uma torcida velada pela inflação. Com os preços em alta, o Banco Central é obrigado a elevar os juros da taxa Selic (que está em 14,25% ao ano), ou refreia o ritmo de baixa. O IPCA acumulado em 12 meses desceu de 4,72% em maio para 4,64%. Quase três vezes a inflação, o que abre espaço a mais redução de juros. O que tende a reduzir os ganhos dos bancos e dos rentistas.
O governo comemora a desaceleração da alta dos preços. Além de aliviar um pouco as dívidas das famílias e pequenas e médias empresas (atendidas pelo Desenrola), evita que o Tesouro Nacional pague juros mais altos no giro da dívida pública líquida. Ela se aproxima dos R$ 9 trilhões e envolve o pagamento anual de R$ 1,1 trilhão aos bancos e rentistas, o que concentra a renda. Outro fator para contrariar ainda mais os economistas e gestores de recursos da Faria Lima é que eles ganham mais quando a economia vai mal. A economia, apesar dos trancos causados pela guerra dos EUA-Israel contra o Irã, desde 28 de fevereiro, vai bem, obrigado, com crescimento e baixo desemprego. Mas o eixo valoriza a crise. Nas crises, os operadores ganham mais com as arbitragens de taxas de juros.
Mas há uma outra razão para aumentar a contrariedade do eixo da Faria Lima com o agronegócio e os que reagem à política do governo Lula de inverter a carga tributária que sempre recaiu mais sobre os impostos no consumo, do que na renda e sobre o patrimônio, como ocorre desde o século passado nos 32 países que fazem parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): é de ordem política. O candidato do coração do eixo da Faria Lima com o agronegócio (PIB bem maior fora das porteiras das fazendas) era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Tarcísio liderava as pesquisas. No entanto, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos pela tentativa golpista, temia não receber indulto presidencial de seu ex-ministro da Infraestrutura.
Desconfiado, o ex-presidente achava mais confiável se o filho 01, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), fosse eleito. Com a vantagem de que o clã Bolsonaro poderia ampliar seu esquema de poder (com maior presença no Senado), posto em dúvida com uma hipotética vitória do governador de São Paulo em outubro de 2026, que o cacifaria para a reeleição em 2030. Foi por isso que indicou o filho senador em novembro do ano passado. Apesar das desconfianças de muitos empresários, sobretudo paulistas, quando aprovou (com apoio do governador paulista), o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil em junho de 2025, Flávio vinha crescendo nas pesquisas. O irmão 03, o ex-deputado federal (cassado) Eduardo Bolsonaro, que trama nos Estados Unidos contra o Brasil nos escaninhos do governo Trump (em especial, o Departamento de Estado, comandado pelo secretário Marco Rubio), voltou à carga este ano. Ainda assim, Flávio Bolsonaro vinha empatado nas pesquisas do segundo turno.
Tudo mudou em maio. Sem espaço na disputa presidencial, o governador Tarcísio optou por uma reeleição em que lidera as pesquisas, e encerrou as chances de ainda ser lançado à Presidência. Mas, em 13 de maio, o site “Intercept Brasil” revelou as conversas de Flávio Bolsonaro, iniciadas em 2024, com o então banqueiro Daniel Vorcaro, para tentar levantar aporte de R$ 134 milhões do Banco Master para bancar, sabe-se lá em troca de quê, o filme “Dark Horse”, ou “o azarão”, uma coprodução brasileira-americana sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Parte do dinheiro amealhado pelo ex-banqueiro saiu de aplicações milionárias e com interferências políticas de fundos de pensão estaduais e municipais, acima do teto de seguro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). À medida que as revelações da Polícia Federal avançavam e Flávio era pego em contradições, seus números caíam a cada pesquisa eleitoral.
O efeito Michelle
Por sinal, esta semana será divulgada a pesquisa Quaest-Genial com as avaliações, em julho, sobre o afastamento da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro da campanha do enteado Flávio, a quem acusou, em vídeo divulgado dia 24 de junho, antes do jogo do Brasil com a Escócia. Os dois estão brigados desde o fim do ano passado, quando Flávio, já indicado pelo pai à Presidência, criticou a atuação da então presidente do PL Mulher nas articulações da chapa do PL no Ceará. No vídeo produzido com ajuda do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), Michelle acusou o senador de ter sido “grosseiro” e de tê-la “apunhalado pelas costas”.
O vídeo caiu como uma bomba no PL, nas hostes bolsonaristas e entre o eleitorado evangélico, sem contar o eleitorado feminino (maioria destacada do país). O vídeo e a reação tardia do senador expuseram as divergências dentro do clã. Antes, só Carlos Bolsonaro, com eleição ameaçada a senador pelo PL em Santa Catarina, divergia da madrasta, o que se alastrou aos quatro filhos homens do ex-presidente. A pesquisa será o primeiro termômetro após o impacto. E a pesquisa ainda vai captar a reação à última demonstração de vassalagem e entreguismo de Flávio Bolsonaro ao governo Trump. Para disfarçar o desgaste com Michelle, foi a Washington pedir, “proforma”, para não taxar o Brasil antes da eleição “para não ajudar Lula”. "Depois da votação pode taxar". E, se for eleito, facilitará os interesses americanos no Brasil.
Crises se sucedem no PL
Enquanto isso as crises se intensificam nas chapas do PL, sobretudo no Estado do Rio de Janeiro. O palanque eleitoral do partido no estado onde o clã Bolsonaro tinha sua base eleitoral está se destroçando. O ex-governador Cláudio Castro, que renunciou em abril, era o candidato ao Senado e teria como sucessor o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, também do PL. Mas este foi preso por envolvimento com o Comando Vermelho. Seu sucessor na Alerj (origem das “rachadinhas” do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, cujas investigações da Polícia Federal foram suspensas em abril de 2020, no governo Bolsonaro, com a troca de superintendentes da PF e até do então ministro da Justiça e Segurança Sérgio Moro) seria Douglas Ruas (PL-RJ).
A posse de Ruas no governo, afinal eleito para a Alerj e assim à linha de sucessão para assumir o Palácio Guanabara (a primeira eleição foi anulada por fraude), foi impedida pelo Supremo Tribunal Federal. Enquanto isso, o quarto nome na linha de sucessão do Executivo fluminense, o presidente do Tribunal de Justiça -RJ, desembargador Ricardo Couto, segue fazendo uma faxina no empreguismo político na máquina do Estado do Rio. Mais de 3.500 funcionários fantasmas, que sequer batiam ponto, foram exonerados. Outros escândalos de desvios de recursos foram atacados pelo Ministério Público do ERJ e a Polícia Federal. A última operação, esta semana, levou à prisão do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canelas (União), escalado a disputar o Senado pelo PL-RJ, tendo Rogéria Bolsonaro, mãe do Flavio, como suplente.
O resultado não é desprezível. O palanque de Flávio Bolsonaro no Estado do Rio de Janeiro, terceiro colégio eleitoral do país, com mais de 13 milhões de eleitores, está em aberto. E, pela primeira vez, desde 2018, o eleitorado mostra-se dividido entre Lula e o clã Bolsonaro.
Sudeste decide a eleição?
Como é sabido, o Nordeste vota em peso no conterrâneo nascido em Garanhuns (PE). Os três estados do Sul, assim como os do Centro-Oeste, garantem a liderança para Flávio Bolsonaro (ou outro candidato que o PL apresente até a data limite de 5 de agosto – a 60 dias do primeiro turno). Assim, o pêndulo da eleição vai depender muito do Sudeste, o maior colégio eleitoral do país, que pode decidir a fatura no primeiro turno, em 4 de outubro.
No momento, Minas Gerais (o segundo estado do país, com quase 17 milhões de eleitores) registra ligeira vantagem para Lula. Em São Paulo, com mais de 35 milhões de eleitores, apresenta vantagem folgada de Tarcísio de Freitas contra Fernando Haddad, mas Lula tem empate técnico com o senador em algumas pesquisas. Perder de pouco era a missão de Haddad. Pode sair melhor que a encomenda.
Além de confirmar se o envolvimento do senador baiano Jaques Wagner, (líder do PT no Senado até as revelações de suas relações com o ex-sócio de Daniel Vorcaro, Augusto Lima) produziu efeitos no quarto colégio eleitoral do país (a Bahia conta com 11,5 milhões de votos), será possível avaliar a disputa nas principais regiões do país. E ainda tem o último escândalo de R$ 119 milhões envolvendo as emendas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto.
Efeito até cinco salários
Na eleição de 2022, a dupla Paulo Guedes e Jair Bolsonaro fez o diabo e sangrou os cofres do Tesouro (nacional e dos estados) para tentar reeleger o capitão. Cortou impostos, inclusive ICMS, da gasolina, diesel e álcool, que dispararam com a guerra da Rússia com a Ucrânia. Aumentou em 50% o Auxílio Emergencial e deu mesadas mensais de R$ 1 mil a caminhoneiros e taxistas. O esquema vigorou de 1º de julho a 31 de dezembro de 2022, mas os estragos nas finanças da União e estados só foram superados em 2024.
O estrago da escalada da inflação, devido ao sistema de paridade de preços internacional (PPI) que forçava a Petrobras a atrelar os preços domésticos aos preços internacionais (em alta) e ao câmbio, foi de tal ordem que as benesses impediram a vitória de Lula no primeiro turno em 3 de setembro. Já no segundo turno, em 30 de outubro, o pagamento de mais um mês de mesadas e os impactos na baixa dos combustíveis na inflação encurtaram a distância, e Lula ganhou por apenas 2,1 milhões de votos.
Eleito, Lula arquivou o PPI em maio de 2023 e cumpriu a promessa de abrasileirar os preços da Petrobras. A estatal foi preparada para ser privatizada, se Bolsonaro fosse reeleito. E 50% do parque de refino estavam à venda (a estatal só ficaria com as refinarias de São Paulo e Rio de Janeiro). Lula orientou a Petrobras a operar em plena carga as refinarias mantidas (de importante, só foi privatizada a Landulpho Alves - atual Acelen - para o fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos). As refinarias passaram a usar mais de 70% do óleo mais leve do pré-sal (que a companhia extrai a US$ 22, incluindo impostos e aluguel de equipamentos) e a operar acima de 90% da capacidade (era de 70% no governo Bolsonaro). Assim, quando houve novo choque em fevereiro deste ano, o governo Lula pôde sustentar, com subsídios temporários, os preços da gasolina, do diesel e do GLP, evitando escalada da inflação, que se refletiu na queda do IPCA para 0,16% em junho.
Na faixa das famílias com renda de até dois salários-mínimos (R$ 3.242), os programas sociais como o Bolsa Família e o vale gás estão gerando efeitos eleitorais. Mas os maiores ganhos recaem sobre a faixa com renda familiar de até cinco salários-mínimos (R$ 8.105), que teve isenção do Imposto de Renda mensal (ganhos médios de R$ 400 mensais). E o resultado de junho do INPC, que mede as despesas das famílias com renda de até cinco mínimos, que foi uma alta de apenas 0,13%, fez a taxa acumulada em 12 meses recuar dos 4,42%, em maio, para 4,33%. A maior desaceleração veio justamente dos alimentos, item que mais pesa nas famílias de menor renda. As previsões para julho e agosto são (se Trump não apertar o gatilho) de inflação negativa em agosto, último índice a ser divulgado pelo IBGE (em 11 de setembro) antes da eleição em 4 de outubro.
Nas 16 regiões pesquisadas pelo IBGE, em julho, o IPCA foi menor em todas elas, comparado ao resultado de maio. E em oito capitais ficaram abaixo do índice nacional de 0,16%. Vale registrar que, no maior colégio eleitoral do país, a cidade de São Paulo, houve redução de 0,03% no IPCA. A maior baixa foi no Recife (7º colégio eleitoral do país), com -0,04%. Em Belém, capital do Pará (9º colégio), a alta foi de apenas 0,07%. Em Belo Horizonte, capital do segundo colégio, a alta foi de 0,12%, a mesma de Fortaleza (CE), 8º contingente de votos do país. Na Bahia, a capital Salvador ficou com alta de 0,15%, também abaixo da média nacional.