Por Coisas da Política

WILSON CID - [email protected]

COISAS DA POLÍTICA

Um bom costume

Publicado em 23/06/2026 às 07:01

Alterado em 23/06/2026 às 21:57

Em outros tempos era assim. Ao servidor público graduado, notadamente se exercesse mandato eletivo, recomendava-se que, estando sob suspeita de ato ilícito, deixasse imediatamente o cargo ou função, ainda que pretextando inocência. E distante permanecia, à espera da conclusão das sindicâncias, se lhe fossem favoráveis ou não. Agia por conta própria, sem necessidade de insinuações para desocupar a cadeira. Era um bom costume. Não é mais.

Jaques Wagner devia ter se afastado da liderança do governo no Senado, quando um ministro do Supremo Tribunal e a Polícia Federal concluíram que são graves as suspeitas de suas relações com o Banco Master, por ele defendido com ânimo no Congresso, além de ser simpático a outros interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. Afastando-se, evitaria constrangimento para o presidente da República, que, em nome de uma amizade que vai para mais de 40 anos, não teve outro remédio: cozinhar o caso em fogo brando, esperando que se arrefeçam os calores da hora, e o problema milagrosamente possa esvaziar-se por si mesmo.

Ou, então, torcer para que o problema recente seja esquecido, por força de outras crises prontas para explodir. No Brasil há sempre um escândalo na fila, esperando vaga para ocupar espaços e manchetes. Nas últimas semanas, Wagner foi antecedido por Ciro Nogueira, Hugo Mota, Alcolumbre, com a digital gravada na carteira de Vorcaro. Agora, sai Flávio entra Wagner. Quem virá depois?

Chegou a hora que pode ser decisiva para o desfecho, tanto quanto possível menos doloroso para a vida do governo. O incômodo é evidente, quando algumas vozes mais credenciadas sobem a rampa com o dever de advertir. É preciso correr contra o tempo, porque o caso Wagner empurra o presidente contra duas paredes, onde daria perigosas cabeçadas. Dois problemas. O primeiro é que, estando o líder moralmente desautorizado, as dificuldades e o custo das tramitações no Senado podem sair do controle, considerando-se que a gestão Lula já caminha maus pedaços na Casa. Quanto à sorte dos vetos, nem se fala.

A segunda dificuldade é que, nesse episódio, sai esfolada a candidatura do senador ao governo da Bahia, onde brota uma preocupação particular para o presidente e seu PT: ali, pelo menos até agora, fora de Wagner não há salvação; e um desempenho insuficiente entre os baianos pode comprometer o destino petista neste 2026.

Por dedução

Nos altos escalões ficou definido que pecam por palidez e brandura as propostas de delação com que o banqueiro pretende aliviar suas diferenças com a justiça, melhorando as condições do cárcere. Duas tentativas frustradas, como também desconsideradas são as intervenções dos defensores no seu esforço para o acordo de premiação.

Deduz-se. O ministro Mendonça e a Polícia Federal sabem muito sobre as façanhas do Banco Master. Podem dispensar delações, o que parece claro, quando chegam à jugular do poder, e batem à porta do líder do governo no Senado, um passo poderoso no terreno das amizades estreitíssimas que o banqueiro teme nominar.

Vorcaro devia se abrir de vez. Nada mais a perder, mas talvez ainda possa ganhar alguns pontos no balanço final dessa tragédia.

Hora de cuidar do próprio destino, esquecer amigos tão generosamente beneficiados, e que agora o abandonam.
Já que há pouco falamos da Bahia ao banqueiro convém lembrar de Quincas Berro D’Água, personagem de Jorge Amado: chega a hora em que cada um cuide de seu próprio enterro, porque o impossível não há...

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