Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Irmãos Metralha perdem para os irmãos Bolsonaro
Publicado em 07/06/2026 às 08:39
Alterado em 07/06/2026 às 08:51
Flávio, Jair e Eduardo Bolsonaro Roberto Jayme/Ascom/TSE
Confesso, caro(a) leitor(a), que os fatos andam tão fora de ordem na política brasileira, que só apelando à grossa ironia para a realidade fazer algum sentido. Jornalista de Economia, há 54 anos cobrindo os fatos mais escabrosos do mercado financeiro, confesso que, há 30/40 anos, relaxava, do dia a dia das finanças e da política brasileira, lendo gibis do “Tio Patinhas” - de um dos sobrinhos da época. As histórias contêm lições práticas de Economia. E são divertidas as tramoias dos irmãos Metralha para se assenhorarem de parte da fortuna do velho Patinhas, que vive disputando, com o rival Patacôncio, a moeda número um, da sorte. O velho Patinhas sempre se sai bem. Já os planos dos Metralha sempre os levam para atrás das grades.
As patacoadas dos filhos de Jair Bolsonaro para tentar livrar o pai e os demais golpistas da condenação pelas tramas do golpe contra o Estado Democrático de Direito, entre o fim de 2022 e o 8 de janeiro de 2023, me lembram os fracassados planos dos Metralha. Em fevereiro do ano passado, o filho 03, o então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), pediu licença do mandato para tramar contra o Brasil nos Estados Unidos junto ao governo de Donald Trump, na companhia do economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João Figueiredo. Paulo Figueiredo chegou a negociar com o então empresário imobiliário Donald D. Trump uma parceria no Hotel Trump, na Barra da Tijuca, que seria inaugurado para as Olimpíadas de 2016. O negócio micou. Trump saiu da sociedade, mas os contatos de Paulo Figueiredo com o “staff” de Trump lhe abriram portas com os republicanos.
Já Eduardo Bolsonaro, que o pai tentou nomear embaixador do Brasil em Washington, se aproximou de Steve Bannon. O ex-assessor de Trump o acolheu na QAnon, agremiação da ultradireita dos Estados Unidos, da qual Eduardo virou representante no Brasil, e que o credenciou a atuar nos bastidores do Departamento de Estado chefiado pelo senador Marco Rúbio, propondo medidas contra o governo Lula. Como Lula – mesmo em modo de reeleição – é passageiro, as medidas acabaram atingindo o Brasil (os empresários e empregados das empresas mais atingidas pelos tarifaços às exportações brasileiras).
Tiros na soberania
Um tiro pela culatra do ponto de vista político. Lula, que estava desgastado pelas “fake news” de Nicolas Ferreira (PL-MG), que “vendeu” na sua rede social a mentira de que as instruções da Receita Federal, para que cartões de crédito e instituições de pagamentos seguissem os bancos e prestassem informações sobre movimentações financeiras no Pix acima de R$ 5 mil, eram para “taxar o Pix” (quando visava coibir a lavagem de dinheiro do crime organizado), voltou a escalar nas pesquisas quando o clã Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, louvavam o tarifaço e as ameaças de Trump contra o Supremo Tribunal Federal.
Nas suas redes sociais, o presidente americano exigia a suspensão, “IMEDIATAMENTE”, do julgamento de Bolsonaro no Supremo (e o Departamento de Estado aplicou a Lei Magnitsky). Lula começou a virar o jogo da opinião pública com a defesa da soberania nacional, enquanto os Bolsonaro (com Jair condenado a mais de 27 anos de prisão) eram chamados de entreguistas por usarem boné do MAGA e bater continência à bandeira americana na Paulista.
'Dark Horse' vira cavalo de Troia
Em paralelo a tudo isso, se desenrolavam nos bastidores, desde o fim de 2024, contatos íntimos (de “irmão” para “irmão”) entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro. O dono do Banco Master criou um modelo de negócios que captava recursos com o “aval” do Fundo Garantidor de Crédito e aliciava políticos para conseguir gordas aplicações dos fundos de pensão dos estados e prefeituras onde tinham influência (acima dos limites de proteção do FGC, que era de R$ 250 mil). Os recursos obtidos eram aplicados em operações arriscadas de fundos de investimentos que, não raro, lavavam dinheiro.
Pronto. Foi às portas de Vorcaro, cujo banco recebeu sinal verde para operar sob a gestão de Roberto Campos Neto, no governo Bolsonaro, em 2019, que o senador bateu para pedir US$ 24 milhões (R$ 135 milhões à época) para bancar um filme sobre a vida do pai, a ser usado na campanha eleitoral. O filme já tinha recebido R$ 61 milhões em novembro de 2025, quando, às vésperas da liquidação do Master pelo Banco Central, o senador, já indicado pelo pai para concorrer à presidência em 2026, deixou um recado no celular do “irmão” Vorcaro, cobrando o restante do dinheiro para finalizar a produção.
Mas Vorcaro foi preso por alguns dias pela Polícia Federal. Solto em dezembro, logo recebeu uma visita de Flávio Bolsonaro. O que trataram nesta visita ficaria em segredo entre eles (repetindo o segredo da conversa entre seu pai, o então capitão-candidato, e o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, em 2018). Mas a Polícia Federal, numa segunda prisão de Daniel Vorcaro, em janeiro de 2026, apreendeu pelo menos cinco celulares e computadores com provas que mostravam relações promíscuas e comprometedoras com boa parte da elite da República. Foi a revelação das conversas que fez Flávio Bolsonaro cair em várias contradições. Negou os contatos.
Depois, ante as ligações solicitando “recursos privados para um empreendimento privado sobre um pai”, não pela Lei Rouanet (que exige transparência e prestação de contas nas doações de empresas para projetos culturais, em alternativa ao recolhimento de impostos federais), mas pela “Lei Roubanet”, como classificou o jornalista Otávio Guedes, da Globonews (os dinheiro de Vorcaro têm o DNA dos desvios de aposentados do INSS e de fundos de pensão de governos), admitiu que visitou Vorcaro, em dezembro de 2025, para pôr "um ponto final" no financiamento do filme.
O presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto, disse à mesma GNews que o senador foi cobrar os restantes R$ 74 milhões. Voz sibilina me soprou que “o irmão” Flávio também poderia ter prometido ao “irmão” Daniel que, se eleito, além do indulto ao pai, Jair, e a vários golpistas, reabilitaria o Master. Uma promessa vã, pois nunca houve banco que ressuscitasse. No Brasil e no mundo.
Tiros no pé e pela culatra
Eduardo Bolsonaro tinha fama de atirador e de incentivar clubes de tiro, e foi um dos ideólogos da liberação de armas de fogo para clubes de tiro, atiradores e caçadores e colecionadores (CACs), além de policiais e membros das Forças Armadas. A ideia era formar poderoso “exército” auxiliar para o golpe. Deu tudo errado. Mas ele segue atirando a esmo, com tiros no pé ou pela culatra, disparando, dos EUA, postagens e declarações que estão atingindo a candidatura do irmão Flávio, com versões diferentes sobre o espinhoso uso dos recursos de Vorcaro e temas políticos.
Informado, por fontes do Departamento de Estado, de que os Estados Unidos iriam enquadrar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, cavou para o irmão uma audiência com o presidente Trump, da qual também participou Paulo Figueiredo. Esperava-se que os irmãos acertassem os ponteiros e passassem a limpo as contas de “Dark Horse”, mas não. Tentaram faturar o enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas. Embora espalhem terror onde atuam (como as milícias), ambas não são organizações terroristas de cunho político.
Só que o pacote americano era como o Kinder Ovo. Tinha uma surpresa (nem sempre boa e mais cara que o chocolate que a embala): um novo e mais duro tarifaço, além de ameaças ao Pix. Como não podia deixar de ser, choveram críticas que derrubaram, nas pesquisas, a candidatura do senador, chamado de “TariFlávio” nas redes sociais. Se isso não fosse pouco, tentou se cacifar no evento “Marcha para Jesus”, realizado no feriado de “Corpus Christie”, em São Paulo.
Idealizado pelo apóstolo Estevam Hernandes, que ficou milionário ao fundar a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, o evento que reúne diversas congregações evangélicas virou um palanque eleitoral. Em cima do trio elétrico discursaram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Recluso desde a trágica explosão de um cano de gás da Comgás, em obra da privatizada Sabesp, que matou uma pessoa, destruiu dezenas de imóveis e desalojou mais de duas centenas de moradores no bairro do Jaguaré, que lhe valeu o apelido de “Tragédia de Freitas”, lembrado pelo adversário, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o governador estava afastado de Flávio desde que foi preterido por Jair Bolsonaro como candidato da direita à Presidência, mas recentemente o alfinetou cobrando explicações para seus contatos com Vorcaro.
O evento foi o mais esvaziado das 30 edições em oito anos. Teriam os evangélicos evitado misturar política com religião? Não creio. As igrejas continuam sendo os maiores currais eleitorais do país.
O calvário não parou. O boquirroto Eduardo Bolsonaro, que se julga um poço de inteligência entre os irmãos, porque sabe falar inglês e “fritar” hamburguer, tratou de elogiar o Zelle americano (pago, como são as operações via TED) e o comparar ao Pix, defendendo a discussão do mercado de transferência de fundos na mesa de negociações com os EUA. Mais um tiro certeiro no pé da candidatura do irmão.
A infraestrutura oferecida pelo Banco Central a todos os bancos, instituições financeiras, “fintechs” e empresas comerciais e de serviços que fazem transações no “e-commerce” e no “e-service” é gratuita e transfere fundos imediatamente, incluindo sábados, domingos e feriados. E ainda tem 170 milhões de usuários. Mais do que o total de eleitores aptos a votar em 4 de outubro de 2026. Bingo!