Por Coisas da Política
WILSON CID - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Nas eras da perplexidade
Publicado em 26/05/2026 às 14:12
Alterado em 26/05/2026 às 14:12
Não foi possível reter o nome do promotor de Justiça do Rio Grande, aposentado, quase centenário, que, num programa de televisão, com os braços abertos, perplexo, dizia que a nação sucumbiu, definitivamente, sob a maré alta da corrupção. E lembrava que nem aos tribunais, aos quais serviu longamente, pode-se agora confiar, porque também eles prevaricam ou permitem criminosas transgressões. O promotor acabou sugerindo que parlamentares honestos participem das sessões legislativas trajando terno preto, em sinal de tristeza... Ou, como no passado, costurar o fumo preto de crepe na manga do paletó, sinalizando o luto.
Por falar em símbolos, seja qual for a campanha moralizadora, é importante, antes de tudo, inventar um deles para motivá-la. Vem à lembrança fato ocorrido em junho de 1982, quando, empenhado em reeleger-se, o deputado mineiro João Herculino, do PTB, adotou a ratoeira como a marca de sua campanha, porque entendia que a corrupção avançara demais em Minas e, como fogo de morro acima, alastrara-se por todo o Brasil. Muito antes do veterano promotor gaúcho, já se assustava. A sugestão da armadilha seria o caminho “para prender os ratos que hoje infestam a vida pública”. O que mudou?
2 – Com maior ou menor intensidade, em todos os tempos em que repugna, a corrupção prosperou, para agravar-se, deixando de ser o assalto direto aos cofres e bolsos, para vestir-se de manobras de poder e defesa de interesses privilegiados. O dinheiro e as verbas do poder público chegam por vias indiretas, às vezes com sofisticação ou simuladas. Nesse particular a Câmara dos Deputados tem mostrado singular destreza e malabarismo, concorrendo com si mesma no campeonato sinistro de inciativas que desprezam o mínimo de pudor. Não foi outra a impressão que deixou ao votar, ao arrepio de discussões e melhores estudos, um criminoso afago aos partidos políticos, não apenas perdoá-los pelas acumuladas irregularidades que praticam, como os estimula a descumprir a lei, desconhecer a ética e passar por cima dos interesses da sociedade. Sem faltar um contraste: ao mesmo tempo em que se criam barreiras e dificuldades para tolerar atrasos nos compromissos de produtores inadimplentes, os deputados dão aos partidos 15 anos para que empurrem, sem multas, as dívidas que não honrarão. Mais ainda, decidem considerar caducos processos de três anos não julgados, entre outros escândalos, como blindar o Fundo Partidário de eventuais multas. Não fosse suficiente a contemporização com o crime, os deputados vão além, excedendo-se na audácia, para estabelecer que o rosário de gentilezas estende-se às legendas que se agruparem em federações, estas rebaixadas ao papel de covil. Um festival de generoso autoperdão.
3 – Um detalhe ardiloso, que se repete, é quando os parlamentares, procurando livrar-se do incômodo do desgaste junto à opinião pública, usam a ordem regimental legislativa, e empurram para o Senado o ato final de seus tropeços. Ou, mais à frente, tentam escapar sob a capa da sanção presidencial. Senado e Presidência da República que se virem!...
Alguns senadores já se manifestam enojados com a decisão da Câmara e prometem reagir. Mas não cabe esperar muito, porque também eles são filiados, dependem dos partidos, que os abrigam, e por isso podem frequentar o Fundo Partidário.