Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Se o encontro com Trump não render, plano B é lançar ET contra Lula e PT?
Publicado em 24/05/2026 às 08:04
Alterado em 24/05/2026 às 08:04
Antes mesmo de o suposto encontro acontecer, bolsonaristas lançaram mão da inteligência artificial para criar uma foto do Flavio Bolsonaro apertando a mão de Donald Trump na Casa Branca Foto: meme/redes sociais
Os leitores da coluna sabem que, além de comparar a política com nuvens, não costumo dar muito peso a pesquisas eleitorais muito antes do pleito. O primeiro turno será em 4 de outubro e o segundo, dia 25. Por isso, num processo eleitoral cristalizado desde 2022, entre a direita e o presidente Lula, que encarna muito mais que a simples figura líder do PT, a pesquisa DataFolha mostrou, ao lado da forte rejeição a ambos os candidatos, a inversão da boca do jacaré entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após uma semana de pesadas contradições do filho do ex-presidente preso, ao negociar pedido de dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e merece ser avaliada em dois pontos. Dada a polarização, prefiro me ater ao primeiro turno:
1-Seria uma tendência o crescimento de Lula nas pesquisas, com o encolhimento de Flávio, ou apenas uma oscilação conjuntural. Em abril, antes de virem à tona as revelações do site “Intercept Brasil”, na pesquisa sobre o primeiro turno Lula tinha 39% das menções, contra 35% do senador; na pesquisa divulgada dia 13 de maio (quando o assunto dominou o noticiário, mas sem que os entrevistados soubessem), Lula tinha 38%, contra 35% de Flávio Bolsonaro. Agora, na pesquisa feita esta semana, Lula subiu para 40% e Flávio encolheu para 31%. Ou seja, a diferença aumentou de três para nove pontos. A campanha de Flávio respirou com alívio. Ele resistiu, e seguiria firme para a disputa do segundo turno, para o qual a pesquisa apontou Lula com 47% contra 43% do candidato do PL. Na pesquisa de dezembro de 2025 (quando Flávio Bolsonaro foi lançado pelo pai, Jair), Lula tinha 51%, contra 36% do filho 01. Uma folga de 15 pontos que foi se estreitando até o empate de 45% na pesquisa de 13 de maio. Agora o jacaré voltou a abrir a boca a favor de Lula, com nove pontos de vantagem.
Mas, dada a polarização, discordo das análises que contrapõem as avaliações de ótimo/bom (32% na última DataFolha X ruim/péssimo (38%); é ilusório. Deixar de considerar o conceito regular (28% na pesquisa) é errado. Regular significa aceitação. E a soma com o bom dá 60%.
2-Insisto em analisar as tendências do primeiro turno porque se a campanha de Flávio Bolsonaro desidratar (muitos eleitores da direita ficaram desapontados até mesmo com as declarações agressivas e críticas do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, e do senador piauiense, Ciro Nogueira, presidente do PP). Diante da polarização, Lula pode ganhar no primeiro turno se alcançar 50% mais um voto entre os escrutínios válidos.
Ciro Nogueira, o último ministro da Casa Civil de Bolsonaro, chegou a ser cotado como vice de Flávio no final do ano passado. Mas ficou irritado quando saíram, na terça-feira 12 de maio, as revelações de que recebia gordas mesadas de Vorcaro, e foi abandonado por Flávio Bolsonaro; não tardou a dar o troco. Depois que o “Intercept Brasil” revelou as conversas de Flávio pedindo dinheiro a Vorcaro (que contribuiu com R$ 61 milhões) para bancar o filme “Dark Horse” (Azarão) sobre o pai, Jair Bolsonaro, ao ser indagado o que tinha a dizer sobre o caso, bateu duro: “Ele tem que ser investigado como estou sendo. E, se for inocente, reconhecida a inocência. Se culpado, tem que pagar exemplarmente. Neste país, não pode haver ninguém cometendo ilícito e sendo beneficiado por proteção.” Bingo.
As águas vão rolar
Muita água ainda vai rolar por baixo das pontes, e o candidato do PL apostou na sugestão do irmão 03, o ex-deputado cassado na Câmara dos Deputados por excesso de faltas, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), para um encontro com o presidente Trump na Casa Branca, para animar a campanha. Eduardo Bolsonaro abandonou o mandato, em fevereiro do ano passado, e ficou nos Estados Unidos tramando contra o Brasil. Num primeiro momento, conseguiu, em junho, um “post” do presidente Trump ameaçando o Brasil em sua rede social com tarifaços, se o julgamento de Jair Bolsonaro, conduzido pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal, não fosse interrompido. Por isso Eduardo Bolsonaro, ignorando a mudança da água para o vinho nas relações entre o governo Trump e o governo Lula, está tentando uma audiência para o irmão sair numa foto com Trump na Casa Branca.
O clima mudou desde que os dois presidentes se encontraram e trocaram palavras (e "química") por 29 segundos na ONU em setembro (Bolsonaro já estava condenado pelo STF). Houve reunião na Malásia e revisão de tarifas até o encontro de Trump e Lula, dia 14 de maio, na Casa Branca (dia do inferno astral de Flávio Bolsonaro). Esta semana, o grupo de trabalho binacional se reuniu para discutir pendências tarifárias e outros temas da agenda bilateral, na qual o governo Lula defende a soberania do Brasil.
Flávio Bolsonaro pode até conseguir um encontro para uma foto e palavras amáveis de Trump. Mas o fato será explorado como ato de subserviência e até de entreguismo. Se o apoio de Trump não ajudar Flávio, como Tarcísio de Freitas, o preferido da Faria Lima, não pode competir à Presidência, diante da obediência cega dos bolsonaristas, que tal usar como Plano B o ET, ao qual bolsonaristas faziam reverência diante dos quartéis em 2022, para enfrentar Lula e o PT?
Os problemas de Trump
Além das agruras da guerra do Golfo Pérsico, que caminha para o terceiro mês esta semana (em fevereiro, Trump previa campanha de três a quatro semanas contra o Irã), o que impede, pelas pressões inflacionárias mundiais, o novo presidente do Federal Reserve Bank, Kevin Warsh, de baixar os juros como deseja o empresário imobiliário Donald Trump (as taxas das hipotecas são as mais altas em nove meses), o presidente dos Estados Unidos está às voltas com a revolta dos Democratas e dissidentes Republicanos ao acordo do senhor Trump com a Receita Federal americana, que inclui um adendo extraordinário.
O acordo de uma página concede a Trump imunidade a auditorias da Receita Federal em relação a declarações de imposto de renda passadas, e estende a proteção à sua família e pessoas de seu círculo íntimo. A revolta aumentou depois que o Departamento de Justiça criou um fundo incomum de US$ 1,8 bilhão para o combate às armas, que beneficia invasores do Capitólio em 2020. A medida ocorre após Trump desistir do processo contra a Receita Federal.
Acertando os ponteiros
O que atormenta Flávio Bolsonaro e aliados da ultradireita é a continuidade do desgaste do senador, que teria sido reprovado diante das versões desencontradas sobre o uso do dinheiro oriundo do Banco Master. Por sinal, mais do que o encontro com o presidente americano, a ida do senador aos EUA deve permitir que ele e o irmão Eduardo acertem os ponteiros sobre o papel de cada um na realização do filme-narrativa sobre Jair Bolsonaro.
É preciso que os dois esclareçam como parte do dinheiro remetido aos EUA caiu nas mãos do advogado de Eduardo em terras americanas, que comprou uma casa no Texas. As autoridades americanas são mais severas que as nossas no caso de desvio de finalidade.
Aliás, seria bom que o ex-ministro da Cultura de Bolsonaro, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), participasse das conversas para acerto de versões. Em breve, Mário Frias, que foi aos Estados Unidos sem comunicar previamente à Mesa da Câmara dos Deputados, terá de prestar contas ao ministro do STF, Flávio Dino, que deseja confirmar o destino de mais de R$ 2 milhões em emendas parlamentares do deputado que atuou como produtor executivo do filme.
O que desmentiria cabalmente que o “Azarão” não envolveu recursos públicos. Na Lei Rouanet, os recursos são carreados pelo setor privado em alternativa a recolher impostos ao fisco federal, mas há controle sobre os recursos. Sob a “Lei Vorcaro”, além de sugar recursos de pensionistas do INSS e dos fundos de pensão de estados governados por aliados, não se presta contas.
O governo do Amapá, aliado ao presidente do Senado, David Alcolumbre, aplicou R$ 600 milhões do fundo de pensão em papéis do Master; o governo Cláudio Castro aplicou quase R$ 2 bilhões do fundo de previdência dos funcionários do Estado do Rio de Janeiro, e mais R$ 400 milhões da Cedae – as cúpulas desses órgãos foram afastadas pelo governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, na sua faxina no estado.
Por isso, não passou de um teatro mal-ensaiado a subida do senador Flávio Bolsonaro, cercado de meia dúzia de aliados recrutados às pressas, à tribuna do Senado para pedir na sessão conjunta do Congresso, a “imediata instalação da CPMI do Banco Master”, acusando o PT de não apor assinaturas. Flávio ia saindo do recinto quando o líder do PT na Câmara, Lindberg Farias (PT-RJ), rebateu de pronto. Disse que o PT assinara três requerimentos, mas evitava assinar um pedido de cartas marcadas. Dito e feito.
No fim da sessão, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, invocando sua prerrogativa (e o desejo de evitar a exposição do seu indicado para a caixa de previdência dos servidores do Amapá), disse que não colocaria a CPMI em pauta.
Dá cá o meu
Quem pensa que as revelações bombásticas sobre a cumplicidade de senadores e deputados com ilícitos, sobretudo os que atuam como “despachantes” ou lobistas de grandes grupos ou classes empresariais no Congresso, poderiam gerar uma guinada pela volta de um mínimo de decoro de Suas Excelências, tomou um tapa na cara na sessão conjunta da Câmara e do Senado que aprovou a liberação de verbas dos representantes das duas casas para prefeituras de seus estados neste ano eleitoral de 2026.
Não bastasse o Orçamento Secreto, no qual Suas Excelências mordem o Orçamento da União em mais de R$ 50 bilhões, ao derrubarem o veto do presidente Lula contra a medida que afronta a Lei de Responsabilidade Fiscal, pelo aumento de gastos, a atual representação política mostrou a gênese do que considera o “interesse público”. Tudo tem de ser feito para, ao lado do gordo Fundo Eleitoral, garantir a alimentação dos currais eleitorais que garantem a reeleição. Está explicado por que é tão difícil a renovação política no Brasil e por que os vícios se acumulam e pioram a cada eleição da representação política do país.
Um divisor de águas importante que antecederá as eleições e pode revelar, com mais nitidez, a verdadeira face do Congresso será a discussão sobre a redução da jornada semanal de trabalho de 6 X 1 para 5 X 2. A bandeira da redução da jornada está com o presidente Lula e os partidos de centro esquerda.
Outro banco na balança eleitoral
Não é só o Banco Master que promete ter muita influência (para o bem ou para o mal) na campanha eleitoral. As dificuldades do Banco Digimais, controlado pelo líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, podem levar à neutralidade do Republicanos (o partido da IURD) e até influir na cobertura política da Rede Record nas eleições.
Em 2010, na disputa de José Serra (PSDB) contra a ex-chefe da Casa Civil de Lula, Dilma Roussef, a crise do Banco PanAmericano, que quase levou o grupo Silvio Santos à lona (o Baú da Felicidade trocou de mãos e o grupo encolheu, mas sobreviveu graças ao socorro da Caixa Econômica que entrou de sócia do Pan) teve claro efeito na campanha
O banco tinha um rombo porque vendia carteiras “podres”, mas, mesmo assim, não dava baixa contábil nelas e inflava o balanço. Em troca do socorro (que se revelou insuficiente e exigiu mais capital da CEF e do novo sócio BTG-Pactual, de André Esteves, que depois assumiu o Pan), o SBT apoiou a candidatura Dilma, a ponto de o principal jornal da emissora ironizar a bola de papel que atingiu a testa de José Serra num comício em São Paulo.
Pois o rombo do Digimais, que já foi oferecido para compra ao Bradesco e ao BTG (com a recusa de ambos), obedece ao mesmo esquema do Pan: carteiras com rombos que não foram devidamente baixados com provisão para devedores duvidosos. A conferir.
Por falar em igrejas evangélicas, outra questão importante é medir o efeito das mentiras de Flávio Bolsonaro sobre os fiéis nos cultos do fim de semana (segundo o DataFolha, 64% dos evangélicos acharam que Flávio Bolsonaro agiu mal ao pedir dinheiro a Daniel Vorcaro).
No meio da semana, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, apoiador histórico do pai, Jair Bolsonaro, disse que seria difícil apoiar Flávio se surgissem novos fatos. E a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que tem grande influência entre as fiéis evangélicas, e cujo nome foi testado na pesquisa do DataFolha, ao ser perguntada sobre as contradições do filho 01, disse secamente: “Você tem de perguntar para Flavio”.