Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Soberania em vistos: aqui não, Tio Sam
Publicado em 15/03/2026 às 09:06
Alterado em 15/03/2026 às 09:11
. Imagem: Pixabay
Só mesmo a combinação de interesses escusos entre um Departamento de Estado do governo Trump, que desconhece que no Brasil os poderes Legislativo, Judiciário e Executivo são independentes (Donald aprendeu há três semanas, com a derrubada do tarifaço pela Suprema Corte, porque não consultou o Congresso - também é assim nos Estados Unidos da América), e o clã Bolsonaro, que continua a adotar uma atitude de vassalagem perante o Tio Sam, para acreditar que a vinda de um obscuro secretário de Estado Adjunto (e interino) para Assuntos Educacionais e Culturais dos EUA, o controvertido Darren Beattie, poderia ter autorização do Supremo Tribunal Federal para circular livremente no Brasil. Ele tinha agenda ao lado do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato indicado pelo pai a concorrer à Presidência em outubro, e ainda pretendia visitar, na cadeia, em Brasília, um condenado a 27 anos de cadeia por tramar golpe contra o Estado Democrático de Direito: o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.
Darren Beattie se tornou próximo do filho 03, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que perdeu o mandato por excesso de faltas ao ficar nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado, para conspirar contra o Brasil e tentar usar o governo americano para interromper o processo contra seu pai no STF. Eduardo Bolsonaro, que está sendo processado no Supremo por tentativa de obstrução de Justiça, conheceu Beattie nos Estados Unidos, numa das várias reuniões do AQnon, a aglutinação de ultradireita que representa os supremacistas brancos. Beattie, também ligado a Steve Bannon, um guru da ultradireita, chegou a participar do primeiro governo Trump e a redigir alguns discursos, em 2018. Foi demitido após ser denunciado pela CNN dos EUA como participante de conferência com a presença de supremacistas brancos.
Quando era presidente e cruzou com Donald Trump, no primeiro mandato, nos corredores da ONU, em Nova Iorque, Jair Bolsonaro, numa reação infantil de um fã ante um ídolo, balbuciou “I love you”. E o presidente americano lhe deu uma tapinha nas costas. Muitos anos depois, no segundo mandato de Donald Trump, em setembro de 2025, Trump e Lula se encontraram no mesmo corredor da ONU. O temor era de hostilidades. Um mês antes, instigado pela ação conjunta de Eduardo Bolsonaro e do economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João Batista Figueiredo, que insistiram com o departamento de Estado por punições ao Brasil, que vieram inicialmente com um tarifaço (saudado pelo clã Bolsonaro e pelo governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo, o estado mais atingido), o presidente Donald Trump elevou até 50% as tarifas às exportações brasileiras aos EUA, e exigiu, em sua rede social, a IMEDIATA suspensão do julgamento contra Bolsonaro, e ainda usou as sanções da Lei Magnitsky contra o ministro-relator do julgamento da trama golpista, Alexandre de Moraes, e contra o ministro da Saúde do governo Lula, Alexandre Padilha e família.
O julgamento não foi interrompido. A interdependência entre os Três Poderes da República Federativa do Brasil foi mantida, bem como a soberania nacional. Lula não se curvou às pressões do tarifaço, e tratou de estreitar laços comerciais com outros países. E Bolsonaro foi condenado. Na segunda quinzena de setembro, Lula foi a Nova Iorque e fez um belo discurso na ONU, abrindo os trabalhos, como é tradição, e reafirmando a soberania brasileira e a preferência da nossa diplomacia pelo multilateralismo e o pluralismo nas relações entre as nações. Trump gostou do que ouviu (não gosta dos subservientes), cumprimentou Lula e, após uma rápida troca de palavras de 39 segundos, disse ter pintado "uma química” entre os presidentes das duas maiores democracias das Américas. A "química" prosseguiu por outros encontros e contatos bilaterais entre as diplomacias dos dois países, que levaram à redução das tarifas ao Brasil antes da decisão da Suprema Corte. Uma nova reunião na Casa Branca, juntaria, possivelmente nesta semana, os dois presidentes, se não fosse a emergência da guerra dos EUA-Israel contra o Irã, que deixa o mundo em suspense.
Enquanto a guerra desvia a atenção dos mandatários e mobiliza o presidente brasileiro em conversas bilaterais, o filho 01, designado por Jair Bolsonaro a representar o clã nas eleições, circula livre, leve e solto (embora contra a criação de uma CPI no Senado contra os ministros Dias Toffoli e Alexandre Moraes por sua atuação no caso Master, não só por temer a reabertura do inquérito das “rachadinhas” com o salário de seus assessores quando era deputado estadual na Alerj, como das próprias confissões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, cuja prisão, mantida pelo STF, pode levá-lo a fazer delação premiada). O senador, que já anunciou o irmão 03 como ministro das Relações Exteriores, se for eleito (o pai o queria embaixador em Washington porque “fala inglês e sabe ‘fritar’ hamburguer”), instigou, junto com o irmão 03, para Darren Beattie solicitar autorização a Alexandre Moraes para visitar Jair Bolsonaro em sua cela especial na Papudinha, em Brasília.
Lula usa negativa para reafirmar soberania
Os fatos mostraram, pelo novo caso clínico do ex-presidente, que tem graves problemas gastrointestinais decorrentes da facada de setembro de 2018 e precisou se internar para se tratar de pneumonia numa UTI, em Brasília, que era desaconselhável o entre e sai constante de visitas ao ex-presidente. Trata-se de um condenado, vítima de sérias comorbidades. A família queria que a visita fosse nesta segunda-feira,16, mas o ministro Alexandre de Moraes quis transferir a visita para o mês seguinte, e o caso vazou. Flávio Bolsonaro não perdeu a oportunidade de usar a internação do pai para cacifar a campanha.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que tem se reunido com o secretário de Estado, Marco Rubio (o chefão de Beattie), descobriu que não era agenda do Departamento e sim da campanha eleitoral de arregimentação de apoios da ultradireita americana a Flávio Bolsonaro. Sem agenda oficial, Darren Beattie era um cidadão comum, alertou o Itamaraty ao ministro Moraes (em nova lição de interdependência entre os Três Poderes da República, aplicada a uma parte do governo Trump e ao próprio ministro-relator).
Ficou fácil para o governo federal negar a agenda e ainda deu um palanque para o presidente Lula explorar o caso ao reafirmar o princípio da soberania brasileira e da reciprocidade entre os dois países. Na questão dos vistos, disse que “proibiu assessor de Trump de entrar no Brasil por causa do cancelamento do visto do ministro Padilha”.
Até hoje, o Departamento de Estado dos EUA não ofereceu motivos para a sanção a Alexandre Padilha e sua família, em agosto de 2025. Terá sido porque, quando era ministro da Saúde do governo Dilma, criou o “Programa +Médicos”, atraindo médicos cubanos para atender em regiões do interior brasileiro desassistidas. Filho de cubanos exilados em Miami, ao tempo do ditador Fulgêncio Barista, derrubado pela revolução de Fidel Castro, o secretário Marco Rubio tem fixação por Cuba. Mas o mundo gira e pede pragmatismo. Com a crise de abastecimento de petróleo e derivados, após a captura de Maduro na Venezuela, uma negociação surpreendente está envolvendo os governos de Donald Trump e Díaz Canel, com Marco Rubio liderando os Estados Unidos.
Mundo paga pelas trapalhadas de Trump
Com o Irã bloqueando o Estreito de Ormuz, os preços do petróleo subiram novamente na sexta-feira, atingindo mais de US$ 103 por barril, nível mais alto desde 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Tomando o início dos ataques, em 28 de fevereiro, de Israel-Estados Unidos ao Irã, que contra-atacou Israel e os vizinhos árabes produtores de petróleo e gás, o petróleo subiu mais de 40%. É a maior crise, após a de 1973, quando os preços triplicaram. Apesar dos esforços das autoridades americanas em tranquilizar os mercados - o secretário "de Guerra", Pete Hegseth, disse que os EUA estão tomando medidas para sustentar os suprimentos e reabrir o estreito, com o envio de outros 2.500 fuzileiros navais, que se juntariam aos 50 mil em ação, e de mais três navios de guerra para o Oriente Médio - a crise continua.
[O Brasil tem o trunfo de ter a sétima maior produção de petróleo do mundo e de ter mantido a quase integral presença nacional da Petrobras, que o governo Bolsonaro queria privatizar. O ex-presidente considerou a Petrobras “um problema” - e não uma solução (que permite segurar os preços internos numa crise como agora) - quando foi abordado pelo presidente Erdogan, da Turquia, em reunião do G-20, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. O governo Bolsonaro pôs à venda 50% do parque de refino. Só encontrou comprador para a refinaria baiana (330 mil barris de derivados, a segunda maior do país) pelo fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos, país do colar de diamantes, e que ia “comprar” 50% do Banco Master. A outra venda foi da pequena Reman, que refina pouco mais de 20 mil barris-dia, em Manaus. Ainda bem.]
A questão é que o tráfego pelo estreito, o portal para um quinto do suprimento mundial de petróleo, continua praticamente paralisado devido às ameaças iranianas, e ainda não há sinais de que os EUA e seus aliados estejam prestes a usar navios de guerra para escoltar petroleiros em segurança, uma ideia que eles discutem publicamente desde a semana passada. Nações ricas prometeram liberar 400 milhões de barris de suas reservas de petróleo, mas nem isso nem as conversas sobre escolta conseguiram manter o preço baixo.
Em longa reportagem, o jornal “New York Times” considera que “a administração Trump parece não estar preparada para um choque do petróleo, nem para o Irã usar o ponto de estrangulamento do estreito como moeda de troca, embora já tenha feito isso no passado. O presidente Trump afirmou repetidamente que o problema seria temporário, sugerindo que a guerra terminaria em breve. Sexta-feira, Trump moderou seu apelo para que os iranianos se levantem contra seus governantes, reconhecendo que seriam mortos a tiros. Ele oscilou entre pedir a derrubada do governo teocrático iraniano e indicar que está disposto a aceitar - como na Venezuela - uma nova liderança dentro do regime, desde que cumpra as exigências dos EUA.
Em 28 de fevereiro, quando anunciou o início dos bombardeios EUA-Israel contra o Irã, Trump disse que, quando isso estivesse concluído, o povo iraniano deveria tomar o poder, "e será seu para tomar", discursou Mas há forças governamentais no Irã que "andam por aí com metralhadoras", disse Trump na sexta-feira, em entrevista à rádio Fox. "E eles dizem: 'Se alguém protestar, vamos te matar na rua'", acrescentou. "Então, eu realmente acho que isso é um grande obstáculo para quem não tem armas", opinou, parecendo conclusão do “Pedro Bó”, o sábio.
No início do ano, multidões de iranianos participaram de manifestações exigindo mudança de governo, mas enfrentaram repressão brutal, enquanto as forças governamentais mataram milhares de manifestantes e prenderam milhares de outros. Donald Trump e seus conselheiros acreditaram na conversa de Benjamin Netanyahu, de que atacar o Irã após dizimar a família do aiatolá Khamenei seria quase tão fácil quanto invadir o Palácio Presidencial para sequestrar Nicolás Maduro e senhora em Caracas, e tomar conta das reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo. O Irã tem a 3ª reserva, mas o poder no país dos aiatolás, de pouco menos de 90 milhões de habitantes, é da Guarda Revolucionária, que possui um contingente de 14 milhões de membros. É um dos maiores exércitos do mundo, que intimida a reação popular ao regime, como reconheceu Trump.
Por enorme erro de cálculo, a guerra já dura duas semanas e abala a economia mundial. No desespero, para espanto dos aliados europeus, privados do gás natural e do petróleo russos, no boicote ocidental e de países de economia liberal à invasão de Vladimir Putin, em fevereiro de 2022, Trump fez um anúncio inusitado sexta-feira: autorizou terceiros países a comprarem, durante 30 dias, petróleo russo em águas internacionais. O sinal verde foi sobretudo para a China e a Índia, mas contempla ainda Japão e países europeus. Putin comemorou: os cofres russos terão reforço mensal de US$ 1,6 bilhão. A boa notícia, para o governo Trump, incentivada pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent (e péssima para a Ucrânia), foi transmitida esta semana, na Flórida, à delegação russa de alto nível, pelo primeiro-genro Jared Kushner, o mesmo que negociou alianças com os países árabes do Oriente Médio, atacados pelo Irã. Resta saber se abre caminho à paz na Ucrânia.
'Cinema Paradiso' em 'O Agente Secreto'
Há muitas leituras no multifacetado “O Agente Secreto”, que concorre a vários prêmios no Oscar esta noite. Torço por ele, mas acho difícil o prêmio principal. O diretor Kleber Mendonça usou o “non sense” dos suspenses de Alfred Hitchcock com a entrada em cena da “Perna Cabeluda”, o equivalente recifense ao famoso “Mão Branca” das execuções do Esquadrão da morte e das milícias no Grande Rio, na mesma época da ditadura (anos 70).
Mas, me chamou a atenção uma “sampleada” em “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Assim como no filme italiano, há um menino (Toto) envolvido pela magia do cinema no “Cinema Paradiso”, onde o terno projetista (Philippe Noiret) exercia o papel de avô, na ausência do pai de Toto, morto na Segunda Guerra. Toto aparece em três fases. Na infância, na adolescência (representado por Salvatore Di Vita), quando se apaixona por Elena e parte para Roma. Lá se consagra como grande cineasta (Salvatore Cascio), que só volta à pequena vila quando o projetista morre e ele descobre, numa visita à sala de projeção, os arquivos com as cenas censuradas (um beijo era proibido nos tempos do fascismo), que geram a mais emocionante montagem do filme, ao som da comovente trilha sonora de Ennio Morricone. Na terceira visão do filme, descobri em meio às lágrimas e às legendas que o cineasta famoso reencontra a antiga paixão, Elena, num mercado, mas nada mais rola.
Em “O Agente Secreto”, o pai ausente Marcelo (Wagner Moura) vai de São Paulo a Recife para reencontrar o pequeno Fernando (Enzo Nunes), de olhar penetrante como Toto, que é cuidado pelo avô, “Seu Alexandre”, projetista do Cinema São Luiz de Recife (a rede de Luiz Severiano Ribeiro sempre batizava de "São Luiz" um dos cinemas nas capitais). Marcelo é morto em 1977, numa história mal contada nas páginas de jornal (fato comum na Ditadura), e o pequeno Fernando (Wagner Moura) ressurge 30 anos depois como um médico renomado, que cuida de um hemocentro onde era o antigo cinema.