COISAS DA POLÍTICA

Carnaval e Política devem ser levados a sério?

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Publicado em 22/02/2026 às 07:09

Alterado em 22/02/2026 às 08:34

Escultura retratando Lula na Marquês de Sapucaí Foto: Luiza Monteiro/Riotur

A imortal “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”, composta por Carlinhos Lyra e Vinicius de Moraes, em 1962, (e não pós-1964, como muitos acreditam) merece ser revisitada em tempos de tanta baixaria nas músicas de Carnaval e tanto radicalismo dos diversos blocos políticos. Carnaval é catarse. Não é para ser levado a sério. Na história das letras das marchinhas de Carnaval que embalaram os velhinhos que sassaricavam na porta da Colombo (na rua Gonçalves Dias), mais da metade seria vetada pelas restrições politicamente corretas dos dias atuais. Já nos meus critérios de julgamento (e acredito que de muita gente), as letras chulas das músicas “funks” e de axé baiano, reproduzidas em altos decibéis nos trios elétricos, também seriam vetadas.

Entretanto, nunca vi um juiz de menores proibir o quadro “Dança da garrafa” exibido nas manhãs de domingo no “Programa do Gugu”, no SBT de Silvio Santos. Meninas de seis a dez anos dançavam por cima de garrafas de cerveja [quando o responsável pelo “hit”, o dublê de PM-BA e cantor da Companhia do Pagode, contou no “Programa do Jô a versão oficial da ‘música’, que envolvia humilhação de travestis nas prisões, Jô, um homem fino e culto, não escondeu o constrangimento. A baixaria do “funk” começou por aí.]

Também nunca vi um pastor evangélico ou qualquer cardeal católico investir contra o conteúdo ou as mensagens de Carnaval dos trios elétricos, dos blocos e das escolas de samba, mesmo discordando dos enredos com apologia às religiões de matrizes africanas, que já foram mais abraçadas pelo povo preto que representa mais de 53% dos 213 milhões de brasileiros.

Opps, esqueci que, em 1989, já na redemocratização, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eugênio Salles, conseguiu que a Justiça proibisse a apresentação do “Cristo Mendigo” da Beija-Flor, quando o carnavalesco Laíla cobriu a imagem com plástico preto e colou uma faixa que dizia “Mesmo proibido, olhai por nós”. O enredo era “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, e a escola de Nilópolis foi campeã.

No governo Vargas (período ditatorial quando a Igreja Católica tinha forte influência), é conhecido o “branqueamento” feito nos rituais da Umbanda e da Jurema, por pressão dos cardeais. Os rituais de Salvador são exemplos do sincretismo, que mistura entidades do candomblé com santos católicos.

Vejo muito barulho por nada, dos dois lados do cordão por onde desfilou o enredo da Acadêmicos de Niterói, que subiu da série Ouro para o grupo Especial e desceu novamente na primeira apresentação. Os enredos de escolas de samba são concebidos para "causar" na avenida, onde o que menos conta é o ritmo da batucada e a evolução dos passistas e mestres-salas e porta-bandeiras. Na mistura entre escolas e antigos ranchos, os carros alegóricos ganharam alturas e engenhos de luxo para exibir artistas e personalidades do samba. A justiça premiou outra escola de Niterói, a Viradouro, que fez o enredo em torno de um ícone dos desfiles, o mestre Ciça.

Já dizia Vinicius: 'beleza é fundamental'
Para meu gosto (e para os jurados votantes do “Estandarte de Ouro"), a inovação ecologicamente correta da Mocidade Independente de Padre Miguel, feita pelo carnavalesco Renato Lage, que, em respeito ao apego de Rita Lee pela preservação dos animais, aboliu o uso de penas e peles das fantasias, mostrou um caminho novo. Plasticamente, o colorido psicodélico deu um banho de espuma na mesmice do abuso de plumas e paetês que encobrem sambas absolutamente fracos. Seriam difíceis até para o aposentado Neguinho da Beija-Flor empolgar o público. Os carnavalescos precisam criar enredos que tenham fluência musical e deixar de lado temas apelativos que transformam a passarela em um gramado e dividem as arquibancadas como num Fla X Flu.

Por isso, recorro (sem nostalgia, apenas com saudade do bom gosto) à letra de "Marcha da quarta-feira de cinzas", em ritmo de marcha-rancho, da dupla Carlinhos Lyra e Vinicius de Moraes:

"(...) E no entanto é preciso cantar e rir / Mais que nunca é preciso cantar / É preciso cantar e alegrar a cidade / A tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar / Todos vão sorrir / voltou a esperança, é o povo que dança / Contente da vida, feliz a cantar / Porque são tantas coisas azuis / Há tão grandes promessas de luz / Tanto amor para amar de que a gente nem sabe / Quem me dera viver pra ver / E brincar outros carnavais / Com a beleza dos velhos carnavais, que marchas tão lindas / E o povo cantando seu canto de paz".

É ou não é uma grande diferença?

Mas há como fazer irreverência sem xingar a mãe ou fazer ofensas a determinadas camadas da sociedade. É o caso do “samba-enredo” do anárquico bloco “Que Merda é Essa?” (sic), de Ipanema, que teve eco na Suprema Corte dos Estados Unidos, que decidiu ser o tarifaço de Donald Trump irregular, porque foi adotado sem autorização do Congresso.

Diz o samba, cujo enredo é “Vai taxar o olho do seu cupuaçu”:

"(...) Agora, um pedaço de bosta; Quer tirar Nossa Senhora, A Paz; Açaí, Mandioca, Pirarucu; Ô Seu Cara de Laranja; Vai taxar o Olho do seu Cupuaçu”.

Trump reage à derrota com taxa geral de 10%
Depois de ser forçado a recuar, pela reação da população (que se espalhou por várias cidades e estados americanos), nas intervenções violentas do ICE contra imigrantes em Minnesota, cuja regulamentação está nos escaninhos burocráticos, a Suprema Corte dos Estados Unidos parece ter se mostrado sensível à reação popular ao autoritarismo do governo Trump, justo no dia em que comemoraria um ano e um mês de mandato, na sexta-feira, 20 de fevereiro.

Por seis votos a três, os juízes derrubaram o tarifaço de Trump por considerar que foi adotado sem autorização do Congresso. Nem o emprego nem a inflação, e muito menos o crescimento (apenas 1,4% no último trimestre), reagiram como os assessores de Trump supunham. A decisão mexeu com os mercados, enfraqueceu o dólar, e as cotações das “commodities” dispararam.

Mas Trump, tentando esconder o tamanho da derrota (dos três ministros que indicou para a Suprema Corte, pelo menos um votou contra ele), o que pode obrigar o Tesouro a devolver US$ 135 bilhões arrecadados, tratou de anunciar que iria criar uma tarifa geral de 10%, e que alguns produtos continuariam fora do alcance da decisão, como o aço e o alumínio.

O esperneio de Trump pode ser explorado pela oposição democrata no Congresso, que se sentirá mais encorajada a arregimentar descontentes do partido republicano. Isso promete discussões mais acirradas para as eleições de 3 de novembro, que vão renovar as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados e 35 dos 10 assentos do Senado Federal.

Na Ásia, Lula reforça trunfos contra Trump
No giro que fez pela Ásia, logo após o domingo de Carnaval (com visita à Índia, o maior mercado do mundo, e à Coreia do Sul, o mais bem sucedido “tigre asiático”), o presidente Lula não só aproveitou para ficar de fora do disse-me-disse do enredo da Acadêmicos de Niterói, que foi muito além de explorar sua trajetória de vida, como ampliou o esforço para reduzir a dependência econômica da China (o país absorve 30% das exportações brasileiras) e dos EUA (que compraram 10,8%). Tratou de incentivar o comércio bilateral, com trocas recíprocas de mercadorias e moedas - incluindo tecnologia para a exploração de terras raras, e excluindo o dólar como moeda de referência.

Embora tenha sido um dos países mais atingidos pelo tarifaço açulado pelo clã Bolsonaro, à frente o filho 03 (deputado federal Eduardo Bolsonaro, PL-SP), que se licenciou há um ano, no Carnaval de 2025, para estimular sanções do governo Trump contra a economia brasileira e o Supremo Tribunal Federal, para parar o julgamento do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (empresários, trabalhadores e consumidores pagaram um preço altíssimo), o tiro saiu pela culatra. O julgamento não parou. O pai foi condenado, com outros réus de alta patente, pela tentativa de golpe contra o Estado Democrático. Está cumprindo 27 anos de prisão (três meses já se passaram) numa cela especial da Papudinha. E o mandato do ex-deputado foi cassado. Mas ele ainda responde a inquérito no STF, por obstrução da Justiça.

E Trump? De recuo em recuo nos tarifaços (contra vários países), o presidente americano abriu diálogo com o presidente Lula em setembro, quando ambos discursaram na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, e começou a baixar tarifas pouco menos de um mês da ação draconiana de agosto. Daqui a três semanas, fortalecido pela ampliação do comércio ex-China e ex-Estados Unidos, o presidente brasileiro vai encontrar um enfraquecido presidente americano, após a decisão da Corte Supremo. O risco é que, até lá, para massagear seu ego ferido, Donald Trump ataque o Irã para tentar recuperar a popularidade. Por isso, o Brasil precisa ser diplomático e cauteloso, cobrando a aplicação de tarifas justas para um país que vem gerando superávits para os Estados Unidos há mais de uma década, como ocorreu em 2025, quando eles tiveram superávit de US$ 7,5 bilhões.

Tudo pode ser negociado entre Lula e Trump, retomando uma parceria de mais de 200 anos. Menos a soberania do Brasil, que não é, nem nunca foi, quintal dos EUA.

Daniel Vorcaro e Epstein
Com sua pinta de galã canastrão, que está mais para gerente de lupanar do que dono de banco - não discordo dos que consideram o submundo do mercado financeiro mais parecido com o ambiente de luxo [cafona] dos cassinos, com luzes em neon, dourados em profusão, bebidas a rodo, “shows” de artistas, muitas vezes decadentes e, claro, mulheres e outros gêneros -, o dono do liquidado Banco Master, Daniel Vorcaro, está mais parecendo com Jeffrey Epstein, o “suicidado” (na prisão, em agosto de 2019, no primeiro governo Trump) dublê de financista e gigolô americano que atuou nos governos Clinton, Obama e Trump I, e cujos tentáculos levaram à prisão o Príncipe Andrew, do Reino Unido.

Com as investigações, agora no STF, em mãos do ministro André Mendonça, que liberou do segredo de justiça imposto pelo relator anterior, José Antônio Dias Toffoli (que estendeu o cala-boca ao Senado de Davi Alcolumbre (União- AP) - Toffoli chegou a ser sócio do Master no Spa Tayayá, no PR), vamos tirar a limpo se Vorcaro era mesmo o banqueiro que arrotava ser, promovendo eventos com altos figurões da República. Ou apenas o dono de uma casca de ovo garantida pelo seguro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a qual fazia se passar por um refinado Ovo Fabergé, presenteado pelo joalheiro Peter Carl Fabergé aos antigos czares russos, nas semanas da Páscoa.

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