Por Coisas da Política
WILSON CID - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Tudo tão transparente
Publicado em 17/02/2026 às 07:04
Alterado em 17/02/2026 às 17:08
.
Recente relato da Transparência Internacional informa que o Brasil não tem prosperado no combate à corrupção; ao contrário, insiste em manter o país entre uma centena de omissos frente a escândalos dessa natureza. Observe-se, contudo, que a deplorável constatação já não causa espanto; mais ainda se se levar em conta que o que não tem faltado são exatamente as evidências, totalmente transparentes a corrupção, os corruptos e os corrompíveis. Nada se esconde nessa tragédia moral que nos assalta com intensidade cada vez maior. Os crimes financeiros na área privada, as malandragens no serviço público e na política praticam-se às claras, aos borbotões.
Ora, quando o Congresso Nacional sai em campo para apagar as pegadas das emendas parlamentares, dificultando que sejam questionados seus destinos, torna-se evidente a intenção. Não há que reclamar transparência no que já está suficientemente exposto. As atividades políticas e financeiras passam a ser, salvo as exceções que confirmam a regra, matéria excelente para as editorias de polícia...
Se o banco sujo contrata, por salários estratosféricos, a “assessoria” de ex-ministros e os serviços de escritórios de advogados de familiares de quem está ocupando cadeira no Supremo Tribunal Federal, já não faz sentido duvidar das intenções do doutor Vorcaro ao se socorrer àqueles influentes defensores. Só pensa em sair ileso, quando chegar a hora de esbarrar nos tribunais.
No Supremo, tudo transparente entre parentes.
Não faltam evidências dos abusos nos altos escalões, onde antes se vestiam de terno e gravata, agora também de toga. Sobra clareza nos negócios entre parentes de poderosos, numa vasta rede de influências, onde os interesses somam-se aos bilhões. Na semana passada, pesadíssima para o já pálido prestígio do STF, seu presidente, Édson Fachin, sentiu a garganta embargada. Parecia preocupado com sua biografia, desafiado com a desmoralização gerada pelo caso Dias Toffoli. Ora, ao propor um código de conduta, a ser cumprido por seus pares, Fachin também deixa claro – totalmente transparente – que há nas cadeiras ao seu lado desregramentos e excessos a serem contidos, como o crescente tráfico de amigos interessados em processos que vão tramitar na esfera última da Justiça. Esse código, que enfrenta a resistência dos pecadores, é uma confissão de que maldades há.
2 - Outro exemplo, se não bastassem tantos, foi quando o governo extinguiu limites dos cartões de crédito dos gabinetes poderosos, e impôs segredo de cem anos para documentos comprometedores, que ficam a salvo de questionamentos moralizadores, mortos e amarelados nas gavetas. Também aí faz sentido indagar dos agentes da Transparência Internacional se acham que é preciso a prática da corrupção ficar mais clara do que já está.
(Nas lendas da literatura árabe, quando os roubos nas caravanas são facilmente percebidos, não havendo como escondê-los, diz-se que a situação está mais clara que leite de camela. Não temos camelas nem seu leite, mas aqui as mazelas andam bem mais claras).