Por Coisas da Política

WILSON CID - [email protected]

COISAS DA POLÍTICA

Mais dores de cabeça

Publicado em 13/01/2026 às 12:20

Alterado em 13/01/2026 às 12:21

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Sobram razões para o Brasil, não apenas o governo, mas o país inteiro, alimentar preocupações com o desenrolar da crise que prospera na Venezuela. Talvez nós mais que outros latino-americanos, porque somos os vizinhos próximos, de fronteiras longas e vulneráveis, afora consequências das relações políticas com o regime de Caracas, que o Planalto cuidou de estreitar perigosamente nos últimos três anos. Não temos como escapar das complicações, que apenas começaram com o sequestro cinematográfico de Nicolás Maduro. Por que? Porque, se caiu o ditador, mantém-se de pé a ditadura, que não se abalou, dadas as limitações da oposição, lideranças contrárias amordaçadas ou presas, a imprensa silenciada; mas ainda, e principalmente, porque os dominadores que acabam de chegar sinalizam disposição de tolerar e conviver com a boa vontade dos dominados submissos, que oferecem belos presentes: de imediato, 50 milhões de barris de petróleo, restrições aos mercados hostis a Washington e garantia de que os dólares que vão entrar retornarão logo aos Estados Unidos na compra de itens indispensáveis. Nesse particular, os americanos, à sua maneira, fazem um “negócio da China”, em contraposição aos chineses, sacrificados na sua melhor fonte abastecedora de óleo... Tudo isso sob o olhar de mansidão dos generais bolivarianos, de que tanto se orgulhava o ditador. Também lá eles preferem a passividade e olhar de paisagem, quando chegam crises mais agudas.

Quanto às preocupações nossas, a primeira é a possibilidade de novas fugas de multidões descontentes, problema que já estamos enfrentando há algum tempo. Não há como acreditar que milhares de refugiados venezuelanos, concentrados principalmente em Roraima, tenham disposição de já afivelar as malas e voltar, porque as Incertezas do outro lado da fronteira continuam enormes. Em meio ao duvidoso, melhor não arriscar. E o custo social para o Brasil crescendo.

Um pedaço das angústias também se justifica para o ano eleitoral, pois a crise venezuelana vem trazendo sua contribuição para o quadro da polarização política que estamos vivendo, e cada vez mais acentuada. Esquerda e direita são chamadas a explicar os posicionamentos que adotaram diante de um fato tão relevante na história do continente. Os governistas, para aproveitar a oportunidade, querem mostrar que a América Latina – o Brasil em particular – tem o dever de apoiar, com a força do voto livre, um vizinho violentado pelo mais forte do Norte. Até porque, a fratura que dói na Venezuela é um risco que pode se estender por todo o corpo latino-americano. Que o digam colombianos e cubanos, claramente ameaçados. Nesse sentido, Brasília já deu um tom claro no discurso contra futuras incursões da Casa Branca.

A oposição a Lula adota o mesmo figurino, mas com costura diferente. Vai trabalhar para manter viva a imagem fraternal do presidente com o ditador, além de a ele atribuir responsabilidades numa tragédia que pode se prolongar por muitos anos na região; prolongar longamente, porque Trump e seus porta-vozes insistem em que não há prazos na execução das etapas programadas para a normalização da política na Venezuela.

( A intenção é manter viva, quase siamesa, a amizade com o ditador, para que isso não caia no esquecimento do eleitor. Mas Lula, precavido, já não se refere a Maduro, morto politicamente. Nem vai mais falar nesse nome. Veteranos companheiros do Nordeste acham que ele está certo, e lembram a velha sabedoria dos coronéis do Centrão e do sertão: defunto político a gente leva até a beira da cova. Não entra nela..)

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