Por Coisas da Política
WILSON CID - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
Armas para a campanha
Publicado em 06/01/2026 às 14:04
Alterado em 06/01/2026 às 14:04
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Os partidos de direita e centro-direita ainda não apostam todas as fichas na real disposição do presidente Lula de tentar o quarto mandato, dúvida alimentada pela insistência com que ele confere o destino à saúde octogenária. Mas a tendência entre os próceres é admitir a candidatura, mesmo se apenas decorrente da ausência, no PT e no âmbito das alianças, de outro nome que venha carregado de potencialidades. O assunto tem figurado à mesa de jantares e convescotes direitistas, durante os quais, como tema recorrente, também são permutadas ideias e sugestões sobre a artilharia contra o possível adversário, de quem seriam cobrados o declínio das estatais, não apenas os Correios; o monumental assalto praticado contra aposentados do INSS; a insegurança pública impotente diante do crime organizado; a política externa dúbia e, sobretudo, o consórcio do governo petista com o Supremo Tribunal Federal, o que tem poupado o presidente, como líder político, de levantar-se contra a ditadura togada, mas dela beneficiando-se em desafios pontuais.
(Não seria prudente desprezar um lance espetacular hoje imprevisto, mas que poderia consagrar o presidente para um novo mandato e para a História. Anistia política. O antecedente não está tão longe assim. Atordoado com a radicalização e as rebeliões de Aragarças e Jacareacanga, a partir de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek fez cuidadosa avaliação das tensões da hora e do depois, preferiu desconsidera as dificuldades, as tentativas de derrubá-lo, e teve coragem para estender a mão e acolher a anistia. Não é fácil porque é coisa para grandes estadistas).
A questão, já no campo da estratégia da nova luta pelo poder, que acaba de entrar no seu ano decisivo, é saber se essas armas que a oposição vai empunhando surtiriam a eficácia desejada. É preciso levar em conta, para começo de conversa, que a média do eleitor brasileiro tende a relegar a plano inferior defeitos e promessas não cumpridas pelos governantes. Temos o perfil de quem prefere jogar na esperança, no futuro desejável. Ideal é uma campanha sem a discussão incômoda das dificuldades, desinteressada, por exemplo, de atravancar a corrupção avassaladora. Campanha em busca de votos acha melhor mergulhar nos sonhos, como a nova versão da picanha esfregada na farinha. Isso pode valer mais que cobrar do governo Lula o não realizado e não mais realizável.
Hoje estruturada numa maioria parlamentar, mesmo que muitas vezes titubeante, a direita não esconde, no âmago do projeto eleitoral, a intenção de também tirar proveito da radicalização da quadra política, que vai contribuir para que as urnas continuem reféns da polarização. Mas a esquerda joga com a mesma expectativa, porque a nação radical é mãe generosa para as correntes lulista e bolsonarista, esquerda e direita. Viu-se em 2024.
Longe de constituir boa expectativa para o debate político, o risco que se corre é ver o processo eleitoral confinado ao calor de paixões, sem discussão séria e qualificada dos problemas que nos cercam, todos eles a reclamar soluções desafiadoras.