Por Coisas da Política
GILBERTO MENEZES CÔRTES - [email protected]
COISAS DA POLÍTICA
As três faces da verdade no caso do Banco Master
Publicado em 04/01/2026 às 08:00
Alterado em 04/01/2026 às 09:20
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Um velho ditado chinês – e a civilização chinesa tem mais de 5 mil anos – diz que “a verdade tem três faces: a minha, a sua e a certa”. Trata-se de uma sabedoria que se aplica, sobretudo, ao trabalho cotidiano da imprensa: ouvir os dois lados de uma questão e oferecer ao leitor ou espectador a oportunidade de, ponderando as duas faces, fazer uma combinação de versões para chegar a uma terceira conclusão. De forma reducionista, há quem veja, na tripla acareação, dia 30 de dezembro, entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Aílton de Aquino, ordenada pelo ministro-relator do Caso Master no Supremo Tribunal Federal, Antônio Dias Toffoli, uma tentativa de busca da verdade.
Vorcaro e Costa integravam a parte investigada do caso, por operações fraudulentas de R$ 12,2 bilhões identificadas pelo BC nas trocas de créditos entre o Master e o comprador BRB (uma operação comum no mercado), desde que as duas instituições propuseram uma fusão ao Banco Central, em maio de 2025. Quando examinou a situação real do Master, o diretor de Organização do Banco Central, Renato Brito Gomes, vetou a operação e identificou mais de R$ 10 bilhões em créditos sem lastro. O mandato de Brito Gomes se encerrou no BC em 31 de dezembro e sua dispensa foi antecipada pelo presidente Lula no começo da segunda quinzena de dezembro. Por isso, na acareação conduzida pela delegada da Polícia Federal Janaína Palazzo, limitou a acareação aos dois ex-banqueiros. Aquino representava o BC, que decretou a intervenção e liquidação do Master em 18 de novembro, e apenas historiou a atuação do BC.
As três faces e os mistérios do cubo mágico
Minha experiência de quase 54 anos de cobertura do mercado financeiro brasileiro recomenda que se atribua ao caso Master não só o desenho das três faces. Os interesses ocultos que fizeram vir à tona a consulta do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) a um empréstimo imobiliário, encontrado nos documentos de Daniel Vorcaro, forçaram o inquérito do Master saltar da primeira instância da Justiça Federal para o STF. E o sorteio encaminhou o caso à relatoria do ministro Dias Toffoli, que logo determinou sigilo absoluto para a questão. Vejo mais interesses ocultos do que as três faces em questão.
O que o Tribunal de Contas da União, um órgão auxiliar do Poder Legislativo pra avaliar a gestão dos recursos da União, embora faça vista grossa ao Orçamento Secreto, tem a ver com o caso para o ministro Jhonatan de Jesus vir a cobrar explicações do Banco Central? “Jabuti não sobe em árvore. Se está na forquilha, foi enchente [rara no Nordeste] ou mão de gente”, diz um velho ditado nordestino que se aplica à matreirice política local e alhures.
Vejo que há tantas faces ocultas e interessadas nesse Caso Master (com passivo de R$ 61 bilhões, sendo R$ 41 bilhões a serem honrados pelo Fundo Garantidor de Créditos – FGC - em CDBs e outros títulos emitidos pelo Master, com juros bem acima do mercado), que o comparo ao “cubo mágico” de seis faces. Arrumar as faces do cubo é uma das habilidades do meu neto Lorenzo, de 12 anos, há pelo menos dois anos.
No caso do Master, pelo montante envolvido, é evidente o interesse de Vorcaro em pôr em xeque a acurácia do Banco Central em decretar a intervenção. O objetivo, reforçado pela dupla interferência do TCU e do ministro Toffoli, é facilitar o levantamento de objeções para Vorcaro acionar o BC adiante.
Qualquer banqueiro julga, com certa razão, que sua gestão (entre ativos e passivos), mesmo que o passivo esteja a descoberto e o banco insolvente, pode ser capaz de gerar mais recursos e estreitar o “gap” entre ativo e passivo se a instituição continuar operando, do que numa liquidação pela autoridade fiscalizadora. O motivo é que banqueiros correm riscos (até demais), fazendo operações arrojadas com derivativos e com alta alavancagem. Podem ter mais prejuízos; mas também podem lavar a égua com champanhe.
Nos últimos dois anos, com a escalada dos juros em meados de 2024, os ativos do Master (que a auditoria da KPMG considerou de difícil mensuração por serem papéis de baixa liquidez, casos de títulos de precatórios judiciais e participações em ações de empresas de baixa negociação, fora da B3), pioraram de valor e de liquidez. Já o Banco Central tem de fazer uma liquidação de passivos e ativos sem orgias, tipo “papai e mamãe”.
O caso Ipiranga
Na prática, Vorcaro tenta repetir o famoso caso da liquidação do Grupo Financeiro Ipiranga e da holding Cobrasap, de Júlio Cesar Lutterbach. O grupo Ipiranga, que era composto por 35 empresas, liderado pela financeira Ipiranga, se unira à financeira Novo Rio e à Datamec (ambas empresas de Carlos Lacerda) e às Casas Pernambucanas, para criar uma promotora para financiar a venda de tecidos e vestuário a perder de vista no crediário.
A operação foi incentivada, em 1972, pelo então ministro da Fazenda, Antônio Delfim Neto. Devido à má distribuição de renda, o calcanhar de Aquiles do “milagre brasileiro”, tecidos, vestuário e calçados não tinham a demanda do crediário, como a venda de veículos e a construção de imóveis, principais “motores” do “milagre”.
Durante o governo Médici (o mais ditatorial do período militar, de novembro de 1969 a 1974), ficaram proibidas as intervenções em instituições financeiras. Mas, no penúltimo dia de governo (13 de março de 2974 – o general Geisel tomou posse em 15 de março), o Conselho Monetário Nacional criou a Lei 6.024, que regulava as intervenções e liquidações de instituições financeiras pelo Banco Central. A primeira crise do petróleo, de setembro de 1973, triplicou os preços do barril e afetou seriamente a economia brasileira (o país só produzia 15% do petróleo consumido) e gerou forte pressão inflacionária.
O primeiro grupo financeiro a fazer água e sofrer intervenção (em 16 de abril de 1974) foi o Halles (um banco de investimento que absorvera em meados de 1972 o, bem maior, banco comercial Andrade Arnaud). A nova diretoria do Banco Central, comandada por Paulo Lyra, encontrou nas gavetas a confissão de insolvência do Halles, e não restou alternativa que aplicar a nova Lei. A intervenção no Halles virou o mercado financeiro de ponta cabeça.
O Ipiranga, com crise de liquidez, sofreu intervenção, assim como o Banco União Comercial, do empresário Soares Sampaio, um dos fundadores do grupo Unipar. Para evitar maior trauma no mercado financeiro, o BUC, que era presidido pelo ex-ministro Roberto Campos, foi incorporado ao Itaú pelo Banco Central, com créditos de longo prazo. Em novembro de 1974, BC forçou o grupo Cobrasap a transferir 24 das 35 empresas do conglomerado ao Banco de Crédito Nacional, de Pedro Conde, que assumiu o Ipiranga.
O Banco Central em xeque
Assim como Vorcaro, mas em escala bem menor, Júlio César Lutterbach não se conformou com o ritmo burocrático de gestão de ativos e passivos pelo liquidante do Banco Central. E entrou com ações indenizatórias contra o BC, alegando que o patrimônio líquido do Ipiranga era de US$ 125 milhões na intervenção e encolheu a US$ 4,07 milhões sob a gestão do Banco Central.
A ausência do desembargador-relator do caso em um julgamento deu ganho de causa ao autor contra o Banco Central. E o caso foi reconhecido como favorável à família Lutterbach na virada deste século. Há dez anos, com juros a correção monetária, o BC foi condenado a pagar R$ 1,3 bilhão à família. Vorcaro está dobrando a aposta, fiado nas intervenções do TCU e do STF, que, podem alegar seus advogados, de indícios de rito irregular pelo BC.
Por que duvidar de Moraes?
O fato, moralmente estranhável, de o escritório da mulher do ministro-relator da trama golpista, Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, ter sido contratado pelo Master em janeiro de 2024, por um valor milionário de R$ 3,6 milhões mensais (se não tivesse ocorrido a intervenção, iria até o começo de 2027 e geraria quase R$ 130 milhões), motivou insinuações para desgastar Moraes por supostas consultas à diretoria do BC sobre o banco.
Na verdade, Moraes e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, trocaram informações, desde junho, sobre os impactos da aplicação da Lei Magnitsky, imposta pelo governo Trump a Moraes, sua esposa e outros sete ministros por instigação do filho 03, o então deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que comemorou antes os tarifaços do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brasil, na tentativa de barrar o processo no STF contra seu pai, o que seria dupla ingerência americana em dois dos Três Poderes do Brasil. Ao fim e ao cabo, o processo continuou em agosto e a Primeira Turma do STF condenou Bolsonaro, em 11 de setembro, por 4 x 1.
Dia 16 de setembro, no intervalo entre o discurso do presidente Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, assistido por Trump, que o sucederia no púlpito, eles se cruzaram no corredor e trocaram cumprimentos e “química” por 39 segundos, reabrindo o diálogo entre os dois maiores países das Américas. Nos meses seguintes, exportações brasileiras foram sendo excluídas do tarifaço, alíquotas foram caindo e as sanções da Magnitsky foram removidas em dezembro contra Moraes e família.
Mas as ações de Jair Bolsonaro desrespeitando as normas da prisão preventiva, como a tentativa de romper a tornozeleira eletrônica, levaram o ministro Moraes a decretar a prisão preventiva antes do trânsito em julgado da sentença que condenou o ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão, em sala especial da Polícia Federal em Brasília.
E a mesa da Câmara cassou o mandato de Eduardo Bolsonaro em 18 de dezembro, por excesso de faltas durante a permanência nos EUA. Seu passaporte especial perdeu validade. E o outrora arrogante filho 03, que achou que atuaria nos Estados Unidos contra o Brasil e o STF, com apoio total do governo Trump, está num dilema crucial: a Polícia Federal está exigindo que reassuma a função de escrivão, sob pena de ser desligado por abandono de emprego. Mas, se voltar ao Brasil (há risco de expulsão dos EUA), pode ser preso ao fim do processo por coação contra o Supremo Tribunal Federal.
Como se vê, estava redondamente enganado quando afirmou, em 2018, que “para fechar o Supremo" bastaria "um jipe e um cabo”.
A vitimização de Jair Bolsonaro
Diante da perspectiva de o ex-presidente passar o Natal e o Ano Novo na cela especial da PF, em Brasília, e longe dos noticiários, os Bolsonaro acionaram os advogados e a junta médica que acompanha os graves problemas gástricos intestinais causados pela facada de setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG). Ante o pedido para cirurgia de emergência de uma hérnia inguinal no condenado, Alexandre de Moraes autorizou a internação dia 24 no hospital Copa Star, em Brasília, e a operação no dia seguinte.
Não é preciso dizer que, diante do recesso do governo, do Congresso e do Judiciário, o ex-presidente dominou o noticiário e, por tabela, ajudou a popularizar o nome do filho 01, senador Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai candidato do PL a presidente em 2026. Ato contínuo, depois de novas intervenções cirúrgicas para estancar a onda de soluços, a defesa de Jair Bolsonaro tentou sensibilizar a opinião pública para forçar o ministro Alexandre Moraes a autorizar sua prisão domiciliar. Ante a alta hospitalar, o ministro-relator ponderou que a PF tem todas as condições acudir o réu e convocar atendimento médico imediato e negou a pretensão.
Tanto bastou para os três filhos escalarem críticas à “falta de humanidade” do ministro Moraes e amplificar a imagem de vitimização do ex-presidente. E para mostrar que o STF não vai baixar a guarda por chantagens sentimentais, Bolsonaro voltou à prisão da PF em 1º de janeiro. E ainda Moraes autorizou as datas de terças e quintas-feiras como dias de visitas dos filhos ao preso na PF.
Na sexta-feira, em outra decisão, Moraes determinou a prisão do ex-assessor internacional Filipe Martins, um dos redatores das minutas de golpe, por acesso de redes sociais (Linkedin). Mais uma vez, o clã, pelo filho 02 (o vereador Carlos Bolsonaro, que se lançará a senador pelo PL-SC), taxou a decisão de Moraes como “prisão ilegal”. Acusação imediatamente desmentida pela revelação do despacho do ministro do STF, que acolheu denúncia do coronel aviador da reserva da FAB, Ricardo Wagner Roquetti, de que seu perfil na rede social Linkedin fora acessado pelo e-mail de Filipe Martins.
O risco do TCU
Aguarda-se, pois, ante os interesses inconfessáveis dos políticos do PL e do Centrão (União e PP, como o seu presidente, senador Ciro Nogueira do Piauí, que chegou a propor elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de proteção do Fundo Garantidor de Crédito, mas foi dissuadido pelos grandes bancos que sustentam o FGC) de insinuar novamente ingerências de Alexandre de Moraes no caso Master, quando quem age é Toffoli.
O mais surpreendente, porém, foi a decisão do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, de exigir, sexta-feira, que o Banco Central divulgue mais informações sobre as fraudes identificadas nas contas do Master. O TCU não tem ingerência sobre o BC. As dúvidas que se levantam no recesso da Corte de Contas, que só volta a operar em colegiado dia 19 de janeiro, só ajudam a reforçar futuras contestações judiciais de Daniel Vorcaro contra a atuação fiscalizadora do Banco Central sobre o mercado financeiro.
Mais cedo ou mais tarde, esgotados os recursos do FGC, além dos prejuízos dos fundos de pensão de funcionários públicos do Estado do Rio de Janeiro, do Amapá, de municípios paulistas, da Bahia e do Amazonas, que compraram papéis do Master com promessas de juros bem acima da média dos mercados (rompendo, com suspeita de corrupção [esta sim, a ser investigada], o tripé segurança, liquidez e rentabilidade), pode sobrar para a União se o Banco Central for condenado como no caso Ipiranga. O Tesouro cobre os prejuízos do BC. Aí, infelizmente, sobrará para o seu, o meu e o nosso dinheiro, caro leitor.