A quase normalidade de um país anormal

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Na manhã de 4ª feira, 16 de dezembro, o presidente Jair Bolsonaro reuniu no Palácio do Planalto os seus ministros para um ato de Ação de Graças. Houve cantos religiosos e a execução solene do Hino Nacional. Os ministros militares e o próprio presidente estavam sem máscaras (poderiam alegar que era para cantar o hino a plenos pulmões, com a mão no peito). E Bolsonaro surpreendeu a todos ao dizer que o Brasil estava chegando ao fim do ano em uma “quase normalidade”. Seria mais ou menos como o presidente dos Estados Unidos, após um franco atirador, com livre acesso à compra de armas de guerra, haver disparado num campus universitário e matado nove vítimas, dizer que (como antes da covid-19 esvaziar os pátios das universidades do país, a média de vítimas nestes casos era de 12) “estamos quase na normalidade”.

No mesmo dia 16, à tarde, o Ministério da Saúde divulgou o boletim epidemiológico da covid-19. E o país registrou recorde diário 70.574 novos casos do novo coronavírus (e olhe que faltaram os dados de São Paulo, estado de maior população e casos do país). O recorde anterior, de 69.074 casos ocorreu em 29 de julho, no auge da epidemia no país, que acumulou no dia 16 de dezembro 7 milhões 40 mil 608 casos. Além disso, também foram contabilizadas 936 novas mortes em decorrência da Covid-19 no Brasil nesta quarta (no mesmo dia 29 de julho foi registrado o recorde de mortes diárias no país: 1.595 óbitos). Como no dia 15 foram registrados 964 óbitos, o país volta a flertar com um patamar ascendente de mortes que se aproxima dos mil casos fatais diários. Ao fim do dia, o total de vítimas foi de 183.735 brasileiros, ainda segundo o ministério. Sábado, passamos das tristes marcas de 7,2 milhões de contágios e de mais de 186 mil óbitos. Perdemos para os 318 mil mortos dos Estados Unidos e estamos ameaçados pelos 145 mil da gigantesca Índia.

Macaque in the trees
Presidente Jair Bolsonaro durante evento no Palácio do Planalto (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Metamorfose ambulante

Ao retomar a prática de discursos diários (ora no cercadinho do Palácio da Alvorada, onde tem sempre uma claque tipo auditório de Silvio Santos que aplaude qualquer de suas bobagens, ora em solenidades para públicos de militares das Forças Armadas ou de PMs, o presidente Jair Bolsonaro voltou a ser “a metamorfose ambulante”, como já se definiu certa vez. Como não somos surdos, ouvimos o próprio se desmentir algumas horas depois, ou ser desmentido por ministros e políticos a quem acusou indevidamente, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ou até mesmo pelo Banco Central.

Vejam algumas manchetes da semana da insuspeita agência Reuters

“Enquanto Bolsonaro se recusa a tomar vacina, ministério [da Saúde] planeja campanha para convencer a população" (16.12).

“BC passa a ver menos crescimento em 2021 com lentidão da retomada do emprego e da normalidade" (17.12).

“Incerteza sobre vacinação da população é ponto relevante para prognósticos de PIB e inflação, diz BC" (17.12).

“STF decide que vacinação contra covid-19 é obrigatória, mas não pode ser forçada" (17.12).

"Bolsonaro diz que ninguém pode obrigar vacinação e chama de imbecil quem o considera mau exemplo" (17.12). [Alega que, por ter tido covid-19, já tem anticorpos e não precisa de vacina. Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, teve covid, mas vai se vacinar para dar o exemplo à população].

“Bolsonaro critica STF e diz que Brasil não pode ter vacina para todos" (18.12).

“Pazuello contraria Bolsonaro e diz que decisão do STF spbre vacinação é natural" (18.12).

“É evidente que vacinação para todos é investimento que temos de fazer, diz Guedes" (18.12).

“Câmara aprova disponibilização de R$ 167 bi para combate à pandemia" (18.12).

“Maia chama Bolsonaro de mentiroso e diz que presidente tenta desmoralizar adversários" (18.12). [Bolsonaro tinha responsabilizado o presidente da Câmara pela não votação do 13º salário para o Bolsa Família], mas foi desmentido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes na mesma manhã de 6ª feira (18.12).

Segundo Guedes, “A concessão do 13º para o Bolsa Família violaria a Lei de Responsabilidade Fiscal”, lembrando que o benefício não poderia ser concedido sem que houvesse provisão de recursos para tanto. Na mesma “live”, o ministro da Economia indicou que “o governo poderá agir com medidas no caso de uma eventual segunda onda de Covid-19, embora ainda não haja clareza quanto a essa necessidade”.

Mas Guedes, também um delirante, voltou a soltar mais uma de suas frases sem compromisso na 6ª feira. Em “mea culpa” sobre muitas das promessas frustradas que não conseguiu entregar (“privatização de R$ 1 trilhão”, só saíram do papel as da Petrobras previstas desde 2017 e a venda de ações das carteiras do BNDES e CEF e ”venda de R$ 1 trilhão em imóveis da União”. Não saiu nem R$ 1 bilhão. Novo plano quer vender R$ 110 bilhões até 2022, argumentou que o fato de o Índice Bovespa se aproximar dos 120 mil pontos (fechou a 6ª feira em 119.370 pontos) era uma prova da recuperação da economia. A fila dos desempregados, que não para de crescer, devia moderar o otimismo de Guedes. Até porque a alta de 2,96% do Ibovespa em 2020 é bem menor que a de 15% do S&P, um dos principais índices da Bolsa de Nova Iorque, dos 13% da Bolsa do Japão e dos 11% da bolsa de Shangai, na China.

Voltemos ao presidente. Após a revista Época trazer reportagens, na 5ª feira, 17.12, transcrevendo mensagens de funcionários da Agência Brasileira de Informações (Abin), com sugestões aos advogados do senador Fábio Bolsonaro (Republicanos-RJ) para anular o processo das “rachadinhas” em seu gabinete na Alerj, quando era deputado estadual, Bolsonaro desabafou cedo em formatura de oficiais da PM do Rio, seu histórico reduto eleitoral:

“Bolsonaro diz que imprensa não está do lado da verdade e da lei em discurso para PMs no Rio" (18.12.). [Além de defender o excludente de ilicitude, teve um surto de Donald Trump (seu ídolo, aquele que se diz presidente reeleito dos EUA, embora tenha perdido para o Democrata Joe Biden por mais de 7 milhões de votos nas urnas e por 306 a 232 no Colégio Eleitoral) e disse que a “imprensa só publica fake news” e que “felizmente, a verdade é mostrada nas mídias sociais”]. Na tarde do mesmo dia o Supremo Tribunal Federal apitou:

“Carmem Lúcia manda PGR investigar se Abin ajudou defesa de Flàvio Bolsonaro" (18.12).

Por fim, uma das últimas decisões, que já poderia ser tomada há tempos:

“Governo brasileiro passa a exigir teste negativo de covid-19 para entrada no país" (18.12). [Espanta a demora, bem como a falta de campanha para uso de máscaras, que tem o 00 como o maior desincentivador, quando a cepa de um novo vírus ameaça o mundo].

Sábado, Bolsonaro foi sobrevoar as cidades catarinenses de Presidente Getulio, Ibirama e Rio do Sul, atingidas por fortes temporais, com 15 mortos no total. À tarde, visitaria Joinville, maior cidade do estado, e depois deve ir pescar em São Francisco do Sul, onde pretendia ficar num forte militar até o dia 23.

Com nome novo, agora vai

A baiana Odebrecht anunciou 6ª feira, 18 de dezembro, que vai trocar o nome da holding criada em 1982, para Novonor (abreviatura de Novo Norte). Pretende, assim, apagar o passado de corrupção e superfaturamento do principal grupo empresarial apanhado na Operação Lava-Jato. Vale lembrar que, além dos governos do Brasil, Estados Unidos e Suíça, a Odebrecht fez acordos de leniência (com confissão de culpa e pagamento de multas pesadas) com o Peru, Panamá, Colômbia, Equador, Guatemala e República Dominicana. E também com a Petrobras e a Eletrobrás, AGU, CGU, Banco Mundial e BID.

Mesmo tendo vendido vários ramos de negócios e encolhido o contingente em mais de 50%, o grupo ainda emprega 35 mil funcionários, operando nas atividades de engenharia e construção (através da Odebrecht Engenharia e Construção), de petroquímica (Braskem), na exploração de petróleo e gás (Ocyan), na indústria sucroalcoleira (agora com participação menor na Atvos), na Odebrecht Transportes e Participações (privatizações de aeroportos, estradas, portos e ferrovias) e em empreendimentos imobiliários (OR).

Fundada em 1944, em Salvador, por Norberto Odebrecht, o atual comando da companhia foi entregue a Maurício Odebrecht, o filho mais novo de Emílio Odebrecht (que sucedeu ao pai, Norberto, em 1991 e transferiu o comando para Pedro Novis em, 2002). Novis passou o bastão em 2008 para Marcelo Odebrecht, em cujo colo estourou o escândalo do petrolão, em 2014/15, levando-o à prisão. Hoje cumpre pena em regime semiaberto, em São Paulo.

Na tentativa de apagar as falhas do passado recente, o site da Novonor recupera os primórdios do DNA do tataravô de Maurício e Marcelo Odebrecht, o imigrante alemão, o engenheiro Emil Odebrecht, que veio se instalar no Brasil, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, no século 19 (1856). Casado com Bertha Bichels, Emil teve 15 filhos e um de seus netos, Emílio Odebrecht (pai de Norberto) entraria no setor de construção civil. Norberto aporta na Bahia e cria a Odebrecht em 1944, desembarcando no Sudeste em 1969, após participar de obras do Pólo Petroquímico de Camaçari (BA), dando início à construção do novo edifício-sede da Petrobras, na Avenida Chile, no Rio.

As empreiteiras e empresas de construção civil brasileiras padeceram antes da introdução da correção monetária, em 1964, pois os custos das obras subiam com a inflação e nem sempre eram atualizados. Muitas ficaram pelo caminho. Mas a correção não diminuiu velhas práticas: preços baixos para ganhar a concorrência e negociações de aditivos posteriores. De preferência, em contatos diretas com os governantes. A Odebrecht se beneficiou muito nas gestões de ACM como prefeito (muitas obras urbanas) e nas várias investiduras como governador e chefe político inconteste da Bahia. Caiu nas graças do general Geisel (quando presidia a Petrobras) e ampliou o leque de obras durante o seu governo e nos que o sucederam: Figueiredo, Sarney, Collor/Itamar Franco, FHC, Lula e Dilma, quando foi apanhada na Lava-Jato.

Espero que a Novonor tenha sucesso. E diminua as comissões e a prática de sucessivos aditivos, após ganhar concorrências com preços baixos.



Presidente Jair Bolsonaro durante evento no Palácio do Planalto
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