Vacina e seringa não tem. Serve pistola e revólver?

O país com o coração na boca clamando por pressa na vacinação e o presidente fazendo pose em um estande de tiro. Mirava o vírus ou o Rodrigo Maia?

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Em março de 1990, após sua posse, o presidente Collor decretou o confisco das aplicações financeiras acima de R$ 50 mil cruzados novos e restituiu o padrão cruzeiro. Na conversão de uma moeda para outra cobrou um imposto de 15% (ajudou a zerar o déficit público). Na hiperinflação, a economia girava no “overnight”. O lastro de depósitos e aplicações financeiras eram Letras do Tesouro Nacional, de liquidez imediata. Por isso, a caderneta de poupança entrou no confisco. As instruções mudavam a cada dia no Banco Central e eram precisos seguidos ajustes nos sistemas eletrônicos de negociações de títulos públicos (através do Selic, que deu origem à taxa de juros básica da dívida pública) e dos títulos privados (negociados na Cetip). Os dois sistemas tinham supervisão direta da Andima, onde era assessor de Comunicação.

Os jornalistas, sobretudo das TVs, que queriam imagens da reabertura dos mercados, diariamente nos cobravam a reabertura das operações. Explicava, pacientemente, que iria demorar (foram quase duas semanas). Um dos diretores da Andima, José Carlos de Oliveira, diretor do Banco Econômico, foi chamado a Brasília pelo então presidente do Banco Central, o economista turco, naturalizado brasileiro, Ibrahim Eris, para explicar como seriam as novas regras operacionais. Com seu sotaque arrevesado, Ibrahim deu longas explicações e perguntou a um atônito José Carlos, qual era a sua impressão? Interpretando o sentimento do mercado financeiro e dos investidores, José Carlos Oliveira foi curto e grosso:

“Melhor ouvir isso do que ser surdo”... Ibrahim quase precisou de tradutor para compreender a ironia.

Lembrei da resposta quando li a explicação do presidente Jair Bolsonaro, em evento, 5ª feira, 10 de dezembro, em Porto Alegre, quando lhe cobraram pelos altos preços dos alimentos. A resposta presidencial é um primor de desinformação e tapeação: “Tivemos um aumento anormal de alguns produtos. Soja, arroz. Agora, é melhor, ou menos ruim, ter uma inflação do que ter desabastecimento”, disse Bolsonaro. Em vez de nós ficarmos surdos, era o caso de o presidente ficar mudo para não dizer bobagens.

Macaque in the trees
Jair Bolsonaro (Foto: Abr)

O Rio Grande do Sul, maior produtor de arroz do país e o 3º produtor de alimentos em geral, foi o estado pioneiro no cultivo da soja no começo dos anos 60, quando Leonel Brizola era governador. Pois bem, com aumento de 73% nas exportações de arroz, sob o impulso da escalada do dólar, que aumentou 43% até outubro, e que também fez disparar as vendas de soja, o consumidor brasileiro está pagando um altíssimo preço pela incúria do governo federal na gestão de estoques. Na falta de produtos, o ministério da Economia teve de zerar as alíquotas de importação de arroz e soja (vale até janeiro de 2021). E o Brasil, “celeiro do mundo”, o maior produtor e exportador de soja do Universo, teve de se sujeitar ao vexame de importar mais de um milhão de toneladas de soja em grão para fazer óleo de soja (houve aumento de 8.000% nas importações de óleo em novembro) e farelo para rações animais. Há 17 anos o país não registrava importação de soja. A maior parte veio do Paraguai e do Uruguai, mas um navio inteiro desembarcou soja americana no porto de Paranaguá (PR). Um vexame completo.

O resultado da incúria, ou do “aumento anormal de alguns produtos” foi expresso nos índices de inflação de novembro divulgados pelo IBGE na 3ª feira, 8 de dezembro. O IPCA, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos (R$ 41.800), subiu 0,89% no mês (recorde mensal desde 2015, quando houve recessão, desvalorização cambial recorde de 50% e quebra de safras, devido à seca), com os alimentos subindo 2,54%. No acumulado do ano, a inflação chegou a 3,13%, mas a alimentação encareceu 12,14% (já superando os 12,03% de 2015) e a alta dos Alimentos e Bebidas a domicílio atingiu 16,33%. O arroz subiu 60,50% no ano e o óleo de soja, 94,10% na média nacional. Em Porto Alegre, a alta do arroz foi de 61,83% e a do óleo de soja de quase 100%. Bolsonaro já culpou os consumidores amparados pelo Auxílio Emergencial (reduzido de R$ 600 para R$ 300) pela alta dos alimentos. Daqui a pouco poderia dizer que a culpa é dos gafanhotos...

Na energia elétrica o país tomou um choque em dezembro, com a passagem da bandeira verde (prevista em junho para valer até 31 de dezembro de 2020) para a vermelha 2. Sabe por que, caro leitor? A mesma má gestão da escalada do dólar (que impacta a energia de Itaipu, responsável pelo consumo de 13% do Sudeste) fez muitas indústrias que produzem bens com alto uso de energia, como alumínio, cobre, aço, celulose e petroquímica, virarem a chave e produzir para exportação. Lucro certo com custos tabelados e a receita em dólar em alta. O consumo disparou (dando falsa leitura de forte recuperação da economia). Quando a Aneel percebeu, os reservatórios das usinas estavam quase secos e deu-se o choque nas tarifas. Em escala nacional, o aperitivo da incúria e da incompetência que deixaram o Amapá 22 dias sem energia.

Mas nada se compara ao bate-cabeça na questão das vacinas. As trapalhadas do governo Bolsonaro, que agia com clara visão negacionista aos alertas e explicações claras do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e abdicou de fazer a coordenação das compras de equipamentos (respiradores, remédios e equipamentos de proteção individual aos profissionais de saúde na linha de frente de assistência aos infectados), fizeram o Brasil ser passado para trás na guerra sem ética travada por governos mais poderosos. Os Estados Unidos, de Trump, além do confisco de aviões que faziam escala no território americano, sequestraram cargas em aeroportos estrangeiros, com leilões em plena pista. A omissão federal deixou o território livre a que empresários e atravessadores cobrassem fortes ágios. Muita roubalheira está sendo apurada, mas a verdade é que a escalada do dólar e o leilão pelas escassas mercadorias tornaram os valores de referência nas licitações (às claras ou às escuras) mera ficção.

Com o país se aproximando das 7 milhões de contaminações registradas (os registros só não são maiores, mas as contaminações correm à solta, porque o 3º ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, não distribuiu quase 7 milhões de testes que só não perderam a validade porque os fabricantes atestaram mais tempo de eficácia), às vésperas de completar 180 mil mortos (superados na 6ª feira), e já com o Reino Unido aplicando as primeiras doses da vacina desenvolvida pela americana Pfizer em parceria com a alemã Biontech, e os principais países do mundo concluindo planos de vacinação imediata, o Brasil assistiu, atônito, pela televisão, a outro festival de negacionismo do governo Bolsonaro.

Foi na reunião de Pazuello com governadores de estados. Para tentar colocar em xeque o governador João Dória, que prometeu aplicar em janeiro a vacina CoronaVac, desenvolvida pela chinesa SinoVac e que será replicada no Brasil pelo Instituto Butantan (SP), o ministro que está no comando da Saúde disse que o país só teria vacinas em fevereiro, quando espera ter a Anvisa aprovado a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, que tem a Fiocruz como parceiro no Brasil. A vacina da Pfizer estava fora das opções do Ministério da Saúde. Com a humanidade começando a respirar aliviada pelo surgimento de várias vacinas (há 13 em testes finais no mundo), o Brasil descobriu que o governo ainda não se preparara para a operação de guerra. O desgaste foi tão grande, que à tarde, em pronunciamento no Palácio do Planalto, sem direito a perguntas dos jornalistas, o general Pazuello deu “meia-volta, volver” e disse que o país já poderia ter vacinas em dezembro se a Pfizer garantisse a entrega de suas vacinas (que não constavam do cardápio da Anvisa, órgão que atesta vacinas e remédios, humanos ou de uso animal), devidamente acondicionadas. A vacina da Pfizer exige refrigeração a 70 graus negativos.

A birra contra a vacina chinesa a ser aplicada em São Paulo é rematada burrice. Nos últimos 20 anos, o mundo ocidental e o Japão, que lideravam a economia mundial, transferiram para a China e a Índia a produção de muitos insumos industriais, buscando custos mais baixos de impostos e mão de obra. Foi por isso que quando a covid-19 foi declarada pandemia em março, o mundo descobriu que os respiradores e outros equipamentos dependiam da China. No caso dos insumos de medicamentos e vacinas o desenvolvimento e o design dos produtos podem vir dos Estados Unidos, Alemanha, Japão, Suíça, França, Canadá ou do Reino Unido. Mas o insumo básico das vacinas das americanas Pzifer, Moderna e Janzen, da alemã Biontech, da russa Sputnik, da vacina de Oxford e outras tem a mesma origem da CoronaVac da SinoVac: os laboratórios de química-fina da China, dos quais vêm (idem da Índia) as matérias-primas de analgésicos e antibióticos tomados há anos no Brasil.

O despreparo do ministério comandado pelo general escolhido por Bolsonaro porque “era especializado em logística” não fica por aí: são crescentes as críticas ao plano de vacinação (que seria apresentado na 3ª feira passada, mas não saiu do papel). Até agora só se sabe da intenção do MS, que não se empenhou em combater a “gripezinha”, de fazer o confisco de todas as vacinas, para ficar com o monopólio da distribuição em território nacional. Não se sabe da programação da compra de seringas, algodão e dos postos de atendimento. É preciso uma complexa operação de distribuição de seringas, algodão, caixas térmicas, sacos plásticos, luvas descartáveis, e outras mais complexas, como refrigerador, freezer, sistemas informatizados e logística de distribuição e transporte dos lotes. Bem como a divulgação prévia da lista dos contemplados pela vacinação (que terá de ser replicada em duas doses). Presos foram preteridos pelos guardas penitenciários (eleitorado do deputado Bolsonaro). [Neste sábado, depois que o artigo estava escrito, o governo decidiu judicializar a questão (uma revolta da vacina às avessas) submetendo o plano de vacinação ao Supremo Tribunal Federal]. Em vez de se concentrar nas vacinas, o governo ainda vai gastar R$ 250 milhões para distribuir a cloroquina encalhada da farmácia do Exército! O descaso do MS com a vida alheia fica evidente quando o programa de fornecimento de remédios a pacientes de HIV não foi renovado a tempo. Lembra o quê?

O pior foi a postagem do presidente Jair Bolsonaro, na manhã de 4ª feira, comemorando a eliminação, pela Camex, das alíquotas de importação de pistolas e revólveres em 1º de janeiro de 2021, com uma foto sua fazendo mira num stand de tiro. O país com o coração na boca clamando por pressa na vacinação e o presidente fazendo pose. Mirava o vírus ou o Rodrigo Maia? No mesmo ato, a Camex zerou alíquotas de importações de arroz, soja e milho e de centenas de produtos ligados ao combate à covid-19. Os de alimentos, espera-se que sejam só na emergência. Quanto à covid-19, teme-se que a recém-aceleração dos casos de contágio, que resultam em mortes crescentes, não faça o país bater, antes que as filas da vacina nos deem esperança, a marca dos 200 mil mortos. Quando o país atingiu, em junho, 55 mil mortos, Bolsonaro fez “live” com o então presidente da Embratur, Gilson Machado, assassinando no acordeão a “Ave Maria” de Gounod. Agora que ele foi nomeado ministro do Turismo, imagine o réquiem em uma segunda audição ampliada. Melhor ser surdo, não?



Jair Bolsonaro
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