A arrogância de Trump gera Pato Donald manco

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“No taxation without representation!”. O lema dos pais da pátria americana, que deu origem ao movimento de independência (pela guerra) das 13 Colônias da Inglaterra, diante do inconformismo dos líderes políticos com as fortes tributações do Reino Unido, sem que tivessem meios para serem representados pelo voto, é a gênese do sistema democrático da República Federativa dos Estados Unidos da América. Uma evolução em relação à revolta havida na Inglaterra no século 13, quando donos de terras e cidadãos se rebelaram contra o excesso de tributos do Rei e criaram a Magna Carta, que deu origem ao Parlamento, para vigiar o excesso de gastos e impostos do Rei.

Na evolução da representação da cidadania, o processo eleitoral é o momento em que o cidadão-contribuinte pode expressar sua vontade política para mudar as coisas ou escolher os seus representantes legais nos condados (municípios), estados, Congresso (Câmara e Senado) e na Presidência da República. Donald Trump, que não tinha histórico político, empresário imobiliário com empreendimentos de gosto duvidoso em Nova Iorque, Nova Jersey e Miami, visando o público de milionários americanos com cassinos e campos de golfe, ficou famoso ao comandar o “reality show” “O Aprendiz”. Desfilava seu topete e tinha prazer sádico de proclamar autoritariamente a sentença: “Você está demitido”. Frase repetida dezenas de vezes em cada edição até a escolha do vencedor. O vencedor? Ele mesmo, que ficava em evidência. E virou aprendiz de feiticeiro, chegando ao cargo máximo da maior potência do mundo.

Imagine, caro leitor, se o corretor e especulador imobiliário Sérgio Dourado - cujo logotipo SD, muitas vezes em dupla com o triângulo da construtora Gomes de Almeida, Fernandes, foi dos grandes responsáveis pelo boom imobiliário que nos anos do “milagre brasileiro (1968-74) mudou os bairros de Ipanema, Leblon, Gávea, Lagoa e Jardim Botânico, até desembarcar nas terras da Barra da Tijuca, onde recriaram, com outros especuladores, uma “Miami Tropical” - entrasse para a política e ganhasse a eleição para prefeito do Rio de Janeiro? A Sérgio Dourado Empreendimentos Imobiliários quebrou (como outros empreendedores que tomavam crédito externo para investir em terrenos e construções no Rio e no Brasil) ao não resistir a desvalorizações de nossa moeda. Mas o triângulo da GAF virou Gafisa, entrou em recuperação judicial e, sob o controle de Nelson Tanure, readquire musculatura para ensaiar novo “boom” imobiliário na Zona Sul, com um “pit stop” em São Conrado, onde pretende erguer um espigão em parte do Shopping Fashion Mall, até desembocar na Barra e alhures.

Donald Trump conseguiu bem mais do que isso. Um “outsider” da política partidária, entrou para o Partido Republicano e pilotando o WhatsApp e o Twitter com o lema “Make America Great Again” atropelou, como um elefante em fúria, nomes tradicionais do partido que tem o animal como símbolo. Embora perdendo nas urnas gerais por 65,8 milhões a 62,9 milhões de votos, venceu a ex-secretária de Estado de Barack Obama, Hillary Clinton, no Colégio Eleitoral por 304 a 227 delegados. Com margens mais estreitas do que hoje reluta em admitir a derrota em estados-chave como a Pensilvânia, que assegurou 279 a 214 delegados para Joe Binden (antes da contagem final em Geórgia, Carolina do Norte e Arizona) que deve ampliar a vantagem de quem lidera na contagem geral com saldo de 4,1 milhões de votos (74,4 milhões, contra 70,3 milhões de Donald Trump). Nesses pouco menos de quatro anos, Trump governou qual um déspota romano. Manteve o mundo de sobressalto a indignado a cada Twitter disparatado. Resgatou, é verdade, o “orgulho” da América profunda. Geralmente nos estados rurais e bolsões da ultra direita conservadora, religiosa, supremacista branca, armada e xenófoba. Representações modernas das grotescas hostes da Klu Klux Klan do passado, tão bem retratadas por Hollywood.

Por várias vezes, quando surfava na onda da recuperação da economia e do baixo desemprego que parecia lhe garantir a reeleição, quis trocar o presidente do Federal Reserve, o Banco Central americano, Jerome Powell, por não querer baixar os juros para impulsionar seus negócios imobiliários (altamente alavancados por uma dívida que beira os US$ 430 milhões) antes da pandemia da Covid-19. Sua arrogância não chegou a ser comparada à do presidente Erdogan, da Turquia, que demitiu o presidente do Banco Central em julho e nomeou outro, esta semana, descontente com a desvalorização da lira turca ante o dólar (a lira, briga com o real para ver quem perde mais, descontando as moedas campeãs de baixa, de Zâmbia e da Venezuela, de Maduro, que não pára de cair). Aqui, o presidente do Banco Central segue no cargo. E deve ter independência, com mandato da diretoria não coincidente com o do Executivo.

Olímpico e arrogante, Donald Trump resolveu ignorar mais um inimigo externo. O minúsculo vírus vindo da China que julgava ser uma “gripezinha”, incapaz de desafiar o poderio americano. O Covid-19 não só o pegou e atingiu parte da família e de seu staff de governo, como deixou mais de 230 mil mortos (superior a todas as baixas americanas nas batalhas do pós-2ª Guerra). O efeito devastador da pandemia que, confessadamente em 18 entrevistas gravadas concedidas ao jornalista Bob Woodward, disse ter minimizado desde fevereiro para evitar uma crise maior na economia [e nos seus negócios imobiliários] foi uma das principais causas da derrota. Devidamente zoada, com a mesmas palavras e personagens invertidos pela “pirralha” sueca Greta Thunberg, que recomendou calma e um filme antigo a Donald Trump.

Revoltada com o descaso, a população se mobilizou como nunca, com a polarização de parte a parte. Em meio ao ressurgimento da pandemia, o comparecimento maciço às urnas seria um contrassenso. O uso amplo do voto antecipado ou pelo correio foi a alternativa que tentou negar. Foi um de seus grandes erros finais subestimar o voto e o eleitor. Valorizados por Joe Biden como o grande valor da democracia americana. Decididamente, essas eleições mostraram que Donald Trump nunca foi um defensor da democracia.

Vai agora fazer companhia a poucos presidentes que não conseguiram um segundo mandato nos últimos cinquenta anos. O primeiro foi o democrata Jimmy Carter, derrotado por Ronald Reagan, em 1980. O segundo foi George H. W. Bush, o ex-diretor da CIA, que foi vice de Reagan e garantiu o terceiro mandato dos republicanos em 1992. Mas mesmo proclamado herói nacional com a vitória das forças aliadas que expulsaram Saddam Hussein do Kuwait [seu filho George W. Bush quis fazer o que o pai não fez e invadiu o Iraque numa operação considerada desastrada até hoje]. Bush pai perdeu a reeleição em 1992 para Bill Clinton (depois reeleito). Sem entender, as causas da derrota, ganhou uma resposta ríspida do marqueteiro de Clinton, James Carville: “Foi a economia, estúpido”. [vale dizer que lá o estúpido tem mais o valor do nosso coloquial “burro”, por sinal o símbolo do partido Democrata].

Nos Estados Unidos, o presidente que não é reeleito e tem de cumprir o mandato até a posse do sucessor, em 20 de janeiro, é chamado de “Pato Manco”. Agora, teremos um “Pato Donald Manco”. Quem diria: o presidente que fez carreira, se elegeu e governou com os disparos de “fake news” pelo zap, pelo tuite ou de viva voz, como no seu infeliz discurso de 5ª feira à noite na Casa Branca, desqualificando o voto pelo correio, perdeu não pelo e-mail, mas pelo mail (correio). Negar o direito ao voto e à contagem do voto é negar a democracia. Assim, não creio que mesmo com o cabedal de mais de 70 milhões de votos Donald Trump se torne um líder ou guru político. Ele não tem tantos aliados partidários fiéis no Partido Republicano, que manteve forte representação no Senado e na Câmara. Mas estes não são patetas e vão pensar em nova realidade com Trump fora da vida pública. Creio que estará mais preocupado em prestar contas ao Imposto de Renda e em renegociar as hipotecas do seu império do que em tuitar e liderar bancadas e seguidores (que devem encolher)...

Casos no Brasil

Voltando à importância do voto e da sua contagem até o final, as urnas eletrônicas [contestadas aqui por quem defende que “precisamos avançar nas pautas conservadoras” (sic)] lembra que, no tempo das cédulas, a falta de vigilância no acompanhamento da apuração até o último voto certamente custou a derrota de Pedro Simon (PMDB-RS) para Jair Soares (PDS-RS) por 22.643 votos para o governo do Rio Grande do Sul, em 1982. Assim como no Rio de Janeiro, onde Brizola venceu Moreira Franco, os votos dos rincões conservadores foram apurados na frente e levaram os fiscais de Simon a relaxar na contagem. Pior foi em Santa Catarina: Jaílson Barreto do PMDB, perdeu por 12.850 votos para Esperidião Amin, também do PDS. É preciso estar atento e forte até a última apuração, mesmo com urnas eletrônicas.

Uma fábula panamenha

Mas nada se compara à história contada pelo panamenho Homero Icaza Sánchez, o “El brujo” das pesquisas de audiência da Rede Globo, da qual foi diretor nos anos 70, falecido em 2011. Meu professor na Escola de Comunicação da UFRJ, Homero veio a se formar no Brasil por indução de seu pai, liberal, que queria oferecer educação mais aberta aos filhos. Em um tempo (bons tempos) em que o Itamaraty era respeitado, foi se formar no Instituto Rio Branco. De lá, formou-se em sociologia, estudou na FGV e seguindo um dos panamenhos que veio com ele para o Brasil, se enfronhou em pesquisas de mercado. Seus irmãos foram cursar outras disciplinas em outros países.

Numa janela de redemocratização do Panamá, seu pai, Manuel Antônio Icaza, resolveu disputar a presidência e convocou os filhos para participar da campanha e acompanhar a contagem dos votos, que era no arcaico sistema manual (semelhante ao americano). Nunca me esqueço da verve do querido Marcos de Sá Correia recordando o caso, nas reuniões do Editorial, no 9º andar do Jornal do Brasil, perante o Dr. Brito (J. F. do Nascimento Brito). A eleição estava pau a pau e era preciso estar atento e forte na contagem dos votos. Um dos irmãos acompanhava a marcha das apurações numa zona eleitoral onde o pai ia bem. Exausto, porém, caiu no sono na madrugada. Como num pesadelo, despertou percebendo que o apurador só cantava votos (a serem registrados pelo mesário...) para o candidato da situação. E logo perguntou: “Y mi Papá?”. Lépido, o apurador passou a cantar: “Tu papá, tu papá, tu papá”...

Vejam como a democracia, mesmo quando limitada, é tênue. É preciso estar atento e forte, sem medo de temer a morte, já dizia Caetano Veloso.