No rastro da eleição

Do muito que pode ficar da experiência deste ano, avulta o fato auspicioso do sepultamento das coligações em eleição proporcional

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Não será por falta de assunto, certamente, que haverão de se queixar os analistas, terminadas as eleições, e expostas suas primeiras consequências, entre as quais traçar o novo perfil dos comandos políticos delineados a partir das capitais e grandes cidades. Não faltará uma gama de temas para estudos; e sem muito tempo para conclusões, até porque alguns dos desdobramentos imediatos poderão contribuir e sinalizar para a sucessão nas governadorias e na presidência da República.

Do muito que pode ficar da experiência deste ano, avulta o fato auspicioso do sepultamento das coligações em eleição proporcional, que sustentavam um toque de artificialidade no processo de escolha dos candidatos. Os novos vereadores, onde quer que estiverem em janeiro, não mais terão sido hospedeiros de menos votados, que, como se dava em passado recente, aproveitariam-se do excesso de votos de alguns para alçar a posições que a maioria não desejou. Foi um passo importante. Oxalá os deputados, se preocupados com os respingos da inovação em seus projetos de reeleição, não queiram o retorno dessas coligações capengas e seu mercado de compensações. Desejável que não alterem o espírito da lei, retroagindo-a ao grave defeito anterior, só neste 2020 removido. Pode ser que, honestamente, se preocupem com a asfixia das pequenas legendas, que se animavam do resto de sangue dos mais votados; mas, se desejarem melhorar o destino das minoritárias, farão melhor descobrindo fórmulas que lhes garantam mínima expressão, dispensadas de se acoplarem aos venturosos.

As urnas de novembro haverão de trazer outras lições proveitosas, sempre a convidar pensadores políticos à reflexão. Seria o caso, por exemplo, do visível esvaziamento dos partidos como essenciais na propaganda das candidaturas; ou, ainda, no seu papel de veículo preferencial para definir lideranças. Porque as redes sociais e os templos evangélicos passaram a facilitar eleições, e nisso desapropriaram parte do poder das siglas. Condenaram a segundo plano as rédeas partidárias, muitas vezes frágeis, já que foram tomadas e administradas por força de conveniências e oportunismos. Um dado concreto para conferir base a tal observação extrai-se da campanha que está em curso: em cada grupo de três candidatos dois já vestiram diferentes camisas, alternando-se nos 33 partidos reconhecidos, numa vastidão sempre tentadora para outros voos, ao primeiro sinal de desconforto interno dos militantes.

A ruptura da robustez das organizações políticas, na verdade um fenômeno indesejável para a essência da democracia representativa, tem todas as evidências na atualidade, antes mesmo que as urnas sejam chamadas a se manifestar. Observe-se, já agora, que as grandes forças políticas mostram-se divididas entre o presidente Bolsonaro, sem filiação partidária ( o Centrão, que o apoia, nada mais é que um navegante de conveniências ocasionais), e os opositores, outrora liderados pelo PT, mas são tudo o que não pode se chamar de organização; tornaram-se grupos e correntes sem conteúdo próprio, sem projetos duradouros. Alguém já os definiu como espécie de retalhos de uma colcha que não consegue se costurar.

Se nenhuma outra sinalização apontasse para esse problema, bastaria, por suficiência, constatar que hoje a grande luta pelo poder no Brasil está distante da legitimidade de bandeiras partidárias autênticas. É peleja sem ideário, nada mais exige além de ser contra ou a favor do governo e dos governantes. Eis outro assunto a merecer atenções para o novo cenário que vai chegar.

Atribui-se ainda ao certame eleitoral deste ano a certeza de que o fundo de recursos financeiros para as campanhas é ideia que merece ser reavaliada quanto aos seus bem intencionados objetivos. Demonstrado ficou que, com tamanha multidão de candidatos, as cotas acabam se tornando ínfimas, o que leva postulantes pobres a recorrer ao “por fora”, isto é, ao concurso e à influência do dinheiro privado, o que a lei pretendeu limitar. O critério distributivista adotado não cumpriu o que se desejou, e recomenda reavaliação.

Já se disse, com propriedade, que o melhor que se pode esperar de um pleito regido pelo voto popular são as lições. É preciso aprender com o que as urnas mostram, porque elas não se esgotam ao definir vitórias e frustrações. Os que ganham e perdem são figurantes passageiros, podem alternar seus destinos; mais do que isso, as urnas ensinam, e muito, mesmo quando os votos já forem esquecidos ou incinerados. São lições perenes. Temos muito que aprender com elas a partir de novembro.