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Eleição municipalizada

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Por mais que se tenha como certo que, faltando um mês para as eleições, o tempo é suficiente na produção de importantes alterações em tudo que já se conhece sobre o destino dos candidatos e dos partidos onde se abrigam, pelo menos uma coisa podemos esperar, com base nas pesquisas. Elas têm sido coincidentes na disposição de grande massa eleitoral de conferir o voto com os olhos e a mente voltados principalmente para os interesses e os problemas das comunidades em que vive. Com isto, estaria no inconsciente ou no sentimento coletivo que melhor é mesmo transferir para o momento devido, mais adequado, o tratamento das questões de maior abrangência nacional, nelas incorporado o processo eleitoral de 2022, quando se elegerá o novo presidente ou se reconduzirá o atual.

O principal indício do desejo de não precipitar decisões seguintes está claro na revelação de que tanto o presidente Bolsonaro como Lula, líder do Partido dos Trabalhadores, não conseguem gozar da ampla influência que desejariam ante a escolha dos novos prefeitos; notadamente nas grandes capitais e nas cidades de porte médio, porque é ali que esperam ver funciona a linha mercurial do termômetro que aponta para tendências e indica caminhos para futuras aspirações. Fato é que os dois, rejeitados ou apoiados, sentem que neste ano não contam com a maioria para seguir os candidatos que têm como seus preferidos.

Salvo melhor juízo, contrapondo-se aos que advogam que qualquer eleição é uma oportunidade para o brasileiro se manifestar sobre a política nacional, faz bem o eleitor considerar que este novembro que vai chegando não é a hora nem é a vez de atropelar o calendário, relegando interesses dos municípios; lá onde moram, seja em metrópoles, pequenas comunidades ou nos arraiais mais distantes. Porque, quando se trata de sentir as dificuldades locais, onde as pessoas vivem e onde são sepultadas, é como diria Jorge Amado, na reflexão de Quincas Berro D’Água: que cada um cuide de si, porque o incompossível não há... A água que é pouca, o lixo que é muito, a escola e o posto de saúde abandonados são coisas que os chefões federais não têm como resolver. Não têm forças suficientes para agir em todos os lugares. É com o prefeito e com os vereadores que os cidadãos têm de se haver.

Muitos entre os partidos que apoiam o governo ou a ele oferecem oposição gostariam que as urnas de novembro assumissem o papel de julgadoras, portadoras de voto plebiscitário; mais nacionalizante que municipalizante. É uma intenção que nem deixará de ser totalmente removida, mas não na dimensão que se pretendeu; isto é, produzir uma robusta prévia de tendências para o embate que está por vir dentro de dois anos, entre governistas e os opositores. Ou – quem sabe? - o voto que está para chegar faria melhor se se transformasse num clamor ao presidente e ao PT para que deem mais de si e menos para si.

A partir de janeiro, além de varrer escombros deixados pelo coronavírus, os prefeitos terão de reorganizar minimamente a vida de seus munícipes. E já será muito. Bom seria que, concomitantemente, o presidente Bolsonaro e os partidos de oposição começassem a elaborar, e logo submeter à sociedade, um verdadeiro e cuidadoso projeto para o Brasil. Sem palavrórios vazios e sem enxurrada de propostas vãs. Por que um projeto denso? Ora, porque ainda não temos um projeto nacional. Precisamos tê-lo. E sem jamais olvidar aquilo que todos os governantes têm aplaudido, mas nenhum com suficiente coragem para encará-lo: fazer da educação a base de tudo, primeira entre todas as prioridades.

Cabe explicar. A educação no sentido mais amplo que lhe couber. Não só para formar gente que saiba ler e escrever, mas um povo educado, que saiba respeitar as leis, incapaz de avançar sobre direitos alheios; que não se abastasse das tragédias alheias para ganha a vida. Um povo - digamos, apenas para um simples exemplo - que não se aproveite do acidente de carretas tombadas no asfalto para se apossar de cargas saqueadas.