Copacabana te engana

Há 28 anos, primeiros anos de minha carreira nessa cidade, vim morar em Copacabana. Era Governo Collor e era tudo muito ruim. E, como sempre, para a cultura ainda muito pior. Agora, quase três décadas depois, encontro um cara que era estofador neste prédio comercial e residencial onde eu morava.  "Ei, você se lembra de mim, sempre bonita, né?  Você estofou umas almofadas na minha loja na Figueredo.  Lembra?".   Eu lembrava. Você está bem,  Waiatan?  "Sim, te sigo no instagram,  orgulhoso.  Uma vez você passou na porta da loja com seu filhinho e comentei com um cliente:  Essa moça veio de Vitória, estuda para ser artista, uma luta.  E ele interrompeu:  É puta, tá vendo não?  deixa de ser bobo. Eu te defendi:  Não, você tá doido, rapaz?  Precisa ver,  cuida do menino,  bichinho inteligente,  igual à ela.  Mora ela,  o filho e uma amiga também capixaba,  gente honesta,  pô!  A amiga é puta também, ô, idiota. Elas vêm tudo ser puta aqui.  O garoto nem sonha quem é o pai.  Fiquei irritado com ele.  Hoje eu sei que era racismo, né?  Era sim,  meu querido,  e continua.

Atenta a esta história,  que caiu no meu colo há poucas semanas vivida por mim,  reflito há quanto tempo estou falando tudo isso que hoje viraliza nas redes.  Fabrício Boliveira,  esse magnífico artista e gato,  vem comentando comigo e observando que se vídeos antigos meus viralizam,  significa que o que estou falando há muito tempo está sendo ouvido agora.  Não estou sozinha, hein?  Venho de uma ancestralidade.  Não caminho por rotas que abri sozinha.  Ruth de Souza, Antônio Pitanga e Marielle,  para só citar três,  estão sendo homenageados neste carnaval.  Os dois primeiros abriram rotas onde todas as Marielles caminham.   Depois dessa tarde que encontrei meu vizinho estofador e bom cidadão,  me lembrei como saquei logo que não era bom pra mim,  naquela época,  ter Copacabana como endereço. Bastava dizê-lo e,   semiologicamente falando,  do ponto de vista da subjetividade da Casa Grande,  lê-se:   mulher preta em   Copacabana é sinônimo de puta.  As duas cartas,  o bairro e a minha cor,  dão neste signo escroto. Devo dizer que respeito as putas,  sua profissão feita de comum acordo com seus fregueses,  e que,  parecem ser o esgoto do mundo quando queremos desvalorizar alguém. Mas não é isso que eu penso a respeito dessas mulheres prostitutas por profissão.  Tão pouco acho justo que, por causa de uma cor e lugar,  se reduza todas as mulheres a esta profissão,  sabendo eu que tal significado para a sociedade quer dizer porta fechada, indignidade, obstrução.  Comecei observar como era sério isso e tão recorrente.  Um dia um cara falou numa festa,  logo depois de eu dizer que eu morava em Copa: Vou dar uma festa lá em casa, vai você e as meninas que moram com você.  Que meninas?  Suas colegas.  Este homem que não me conhecia,  me via talvez numa quitinete,  rodeada de colegas do calçadão.  Muito doido. Posso ter perdido empregos, chances,  por causa desse olhar preconceituoso.  Eu que sempre gostei de shortinho,  perna de fora, minissaia,  calça justa,  devo ter ficada reprovada inúmeras vezes,  porque de alguma maneira eu "parecia" não ter reputação".  Durante esses anos,  ouvi coisas incríveis de amigos intelectuais brancos:  Ah, Elisa,  você é tão inteligente,  tão articulada que a gente conversa com você e esquece que você é negra.  Eu até tenho amigo assim que tem um defeito no rosto,  horrível, mas ele é tão inteligente que a gente com dez minutos de papo já nem vê .

Todos nós negros,  cidadãos brasileiros,  temos inúmeras histórias dessa para contar.  Uma legião de pretos bacanas,  cidadãos de brilhante grandeza foram, antes de abrirem a boca,  confundidos com bandidos,  com gente que não merece consideração.  A novidade do tempo de agora é que velhos crimes alcançam pela primeira vez seu nome social e jurídico e passam a existir como se estreassem no lugar que sempre estiveram.  A palavra feminicídio é excelente,  exemplo num país que tem um extenso cemitério de assassinadas.  A gasta palavra racismo não teve o mesmo destino, por enquanto, mas tenho visto,    percebido com alegria,  o "despertar" de muitos filhos da Casa Grande.  Isso faz um estofadinho no meu coração porque,  José Bonifácio era um branco,  mas era uma pessoa ótima e um grande abolicionista.

Oxalá tenha permitido que ele tenha deixado herdeiros na contemporaneidade.  Precisei ir morar no Leblon.  Hoje posso morar em Copacabana.  Eu e minha amiga viemos de Vitória desejando este respeito que hoje o Brasil nos oferece.  Ah, eu ia esquecendo de dizer, pois é: a amiguinha que morava comigo e "devia" ser puta também, ô, mané, era Viviane Mosé!

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