Cabeça de eleitor e eficiência excessiva 

Desde a fundação da democracia grega um mistério perdura: o que afinal se passa na cabeça do eleitor? Não se pode prever como cada um vota, mas hoje em dia existem rastreamentos — tracking eles chamam  —  que capturam tendências e movimentos eleitorais com irritante precisão. Como será que conseguem? Como sondam mentes tão oscilantes e indecisas? Certo, há voto consolidado, fiado e até o cabresto de transferência: uma espécie de aberração moderna que induz o eleitor a votar em quem alguém indica.     

Temos uma presidente e agora ex-ministros que querem o posto. Pode até ser que um ou outro estivesse preparado para a função, mas por que sempre aparentam desconforto? Lembram muito aquelas marionetes que gostariam de se livrar dos ventríloquos, mas já esqueceram como é a própria voz. Às vezes, o único mérito foi ter sido ungido pelo chefe e convencido pela claque de robôs. Depois é que chega a dificuldade em se manter nas próprias pernas e a indisfarçável e humilhante co-dependência do criador. Desta vez, o preço do apoio foi a cabeça de Ana de Hollanda, autossuficiente demais.

Recentemente, economistas da Universidade Cambridge sentenciaram o capitalismo como o melhor sistema econômico inventado pelo homem. A ressalva é que é importante: não estão se referindo ao capitalismo dos últimos 30 anos. Esse capitalismo recente, chamado de “acionário”, é feito para beneficiar uma parcela mínima das pessoas. Financista, protecionista e autorreferente, ele faz parte de uma corruptela, um desencaminhamento do pensamento econômico. E assim é porque o que o regula não é a busca por sistemas de produção que se retroalimentam. O que o capitalismo da globalização busca é a satisfação do capital de curtíssimo prazo, a verdadeira obsessão dos acionistas de tempo real.

Retomando ideias de Richard Stone, Prêmio Nobel de Economia de 1984, suspeita-se que estamos sendo vítimas de excesso de eficiência. Sim, é isso mesmo! Em outras palavras, seria preciso colocar “areia” na engrenagem do sistema para que este freasse o ritmo frenético. A ideia é boa, se não revolucionária, porque vai no contrafluxo das ordens do dia: alta lucratividade, eficácia, azeitamento da máquina, em uma frase, mais de tudo.  Em resumo, é como se fosse necessária uma moderação que interrompa o excesso de imediatismo. Já que ele se revelou um monstro fora de controle. Como se precisássemos saber menos para deixar que o tempo ajeite as coisas antes de mudá-las a toque de terabites por segundo.

A analogia com o corpo também faz sentido. Se a cada oscilação metabólica fizéssemos intervenções, muito provavelmente não duraríamos até o fim da adolescência. Numa sociedade inundada por informações online aumenta o perigo do intempestivo. É preciso deixar que opere uma lei pouco conhecida  —  inclusive por parte da tecnomedicina  —  chamada de autorregulação. Conceito em decadência, já que temos a ilusão de que é o instante que nos coloca no topo do observatório.   

O que isso tem a ver com a primeira parte do artigo? É numa era como esta, onde se requer máxima eficácia como premissa de sucesso, que nos acomodamos com a exigência dos imediatismos políticos. Controle a inflação gerando mais déficit público. Aumente o consumo sem desenvolver serviços e infraestrutura. Deixe que a segurança pública colapse. Ressuscite a máxima do “centrão”: é dando que se recebe. São as regras de ouro no manual do mau gestor. Aderir àquele que promete mais vantagens no curtíssimo prazo. É assim que votamos guiados pelo estômago, orientados pela náusea, e às vezes só para impedir que lá cheguem aqueles que nos parecem repulsivos.  O eleitor vive com a corda no pescoço e com as mãos sobre o nariz.

A maior parte daqueles que deveriam nos representar perdem ou já perderam as marcas de identidade. Viraram personas, máscaras públicas descartáveis que usam a cada quatro anos. Farsa que teve início nas leis de exceção do regime militar e que se prolonga neste prólogo de democracia. O problema é que haveria formas para escolher com menos inexatidão nossos representantes. Como câmeras abertas 24 horas em cima dos candidatos seriam politicamente inviáveis, a outra perspectiva seria propor debates surpresa.  Sem regras previamente conhecidas dos assessores. Escolhido um ambiente inusitado, teriam que mostrar quem são e como pensam apartados de seus progenitores políticos. Para a maioria deles, seria um desastre. Infortúnio de uns, sorte de todos nós!

Esta obrigação à autenticidade seria uma data memorável: o dia da libertação do eleitor.