A eloquência de Demóstenese as cabeças de Giacometti

Muito cuidado ao dar nome aos filhos. Eles podem herdar um peso indesejável. A biografia do grego Demóstenes (350 A.C) comprova a mitologia do retorno. Filho gago de um armeiro que faleceu prematuramente, ele se dedicou então ao estudo da eloquência. Já especialista em oratória pública engajou-se na luta contra o expansionismo Macedônico, denunciando as manobras do rei Felipe. Tornou-se chefe da Liga Patriótica, uniu Tebas e Atenas, mas perdeu a guerra do cerco a Queronea, e foi então condenado ao desterro pelo próprio partido.

Escassas semelhanças à parte, o problema recente com o senador da República envolvido nos escândalos em cascata não é fenômeno isolado, muito menos merece ser tratado na esfera exclusivamente política. É claro que fica sempre a dúvida sobre quem define quando as denúncias devem vir à praça? Ou ninguém desconfiou quão oportuno foi o enfraquecimento agudo do DEM, desviando direitinho o foco e dando fôlego para a reestruturação da bizarra “coalização” governamental?

Há aqui preciosa metáfora pedagógica sobre a natureza do Estado e como a vida política partidária não só afoga-se no poder, mas mergulha fundo no abismo psicopatológico.

Precisamos aceitar que há dificuldade generalizada de discernimento social e excesso de julgamentos instantâneos. Isso vale tanto para os representantes da República nos sufrágios eleitorais como para todos os segmentos sociais. O eloquente discurso tem vindo falando de um coletivo abstrato. Quando o discurso refere-se às massas, este vira um objeto. E esta objetificação retira de cena e esmaece a importância do outro, do sujeito irrepetível. Pessoas de carne e osso, talvez a única realidade com que se pode contar.

A crise, portanto, não está neste ou naquele partido e nem mesmo num grupo específico de pessoas, mas instalada na própria essência da cultura que prioriza a vida centrada na matéria.

A missão do Estado foi modificada. Mudou à revelia dos desejos da sociedade. No mundo todo, o poder público passou a ser gerenciado como business. Apesar de país nenhum merecer ser reduzido a empresa, nem o povo assalariado do Estado, quantos discursos pediram que o legislador fosse “gerente”, “técnico”, “realizador” e “empreendedor”?

Porém “empreendedores” de Estado, diferentemente dos empresários do mundo privado, tratam a verba pública com o descaso de playboys. Ao gerenciar a coisa pública como administradores vitalícios, ainda que ineptos, eles ficam tentados a se perguntar se a remuneração que recebem faz jus ao tempo que gastam com a pátria. Então as nobres excelências, cheias de autoindulgência, aceitam receber benefícios, informação privilegiada ou dinheiro. Não há mais dúvida: quanto mais transparentes forem as contas públicas, mais escândalos seriados elas produzirão.

Mas o bug verdadeiro está lá, escondido, no sistema de valores. Auxiliados pela permissividade e a certeza de invulnerabilidade, o clima produz um torpor conhecido como “estado coletivo de inocência presumida”. É ai que começamos a ouvir os argumentos conhecidos: mas do que reclamam tanto? Bombando, e com 77% de aprovação! No torpor público-privado os políticos dizem que o que importa é que teremos mais obras, mais estádios, mais infraestrutura, mais desenvolvimento econômico. Aqueles que praticam violência dizem apenas que se descontrolaram, como foi o caso da doceira envenenadora.

Os atuais acontecimentos do país contêm uma mensagem. Há certo enlouquecimento silencioso e ele não é uma conspiração da máfia, dos políticos, da Big Pharma ou de ninguém. É um complô sem organizador que numa orquestração involuntária afunilou nossas vidas em necessidades criadas. Lacunas materiais que precisam ser preenchidas, caso contrário enfrentamos risco de  frustração, ansiedade e depressão.

Há nítido impasse para pensar criativamente o Brasil! As mentes disponíveis estão entregues ao mercado, resignadas ao silêncio intelectual ou alinhadas ao poder. Sem contabilizar os cérebros que fugiram a pé. As obras do artista Alberto Giacometti — em exposição na Pinacoteca de São Paulo — apresentam particular preocupação com a representação pictórica das cabeças. Cabeças pequenas e afiladas convivem com corpos graúdos e esparramados, desproporcionais, que parecem não sustentá-las devidamente. Símbolo das cabeças que nos fazem muita falta nesse momento de nau à deriva.

Cabeças que deixaram saudades, e, como a lista é curta, melhor só suspirar.