Uma lição de história

Com o perfil do que vai se tornando oficial como “uma nova classe média”, embora com as mesmas características universais da parcela social que se valorizou politicamente nas sociedades de consumo, sua vez no Brasil já tem até saldo. Não se trata de nova classe, mas do recibo oficial do amadurecimento daquela parcela social que se expandiu com a urbanização acelerada, a industrialização e a devoção ao consumo.

Não há  exagero em atribuir à classe média, que de nova só tem o reconhecimento oficial, contribuição decisiva à última transição da ditadura para um regime constitucional. A tentação das soluções suspeitas não faz mais — como ocorreu decisivamente em 1960/64 — a cabeça da classe média, quando ainda não ocupava espaço social suficiente e se deixou levar. Mas passou o recibo de quitação quando deu lastro à volta da democracia pela via dA negociação política e recusou as aventuras que confinaram o radicalismo de esquerda ao PT.

A contundente entrada da classe média em cena é fenômeno identificado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (da Presidência da República) e, em boa hora, a presidente Dilma Rousseff se deu conta da importância da oportunidade dessa parcela numerosa para a democracia no ano que não se esboça mais suave do que as trepidações domésticas do começo do seu mandato.

É com ela, a classe média, orçada em 95 milhões com mais de 25 anos de idade, tendo como base os dados do Censo de 2010, que os políticos terão de trabalhar e o governo reconsiderar palavras e conceitos. Não há nova nem velha classe média, mas a mesma parcela social que, no século 19, mereceu a atenção do pensador de esquerda Eduardo Bernstein, que nela identificou o lastro da social-democracia,  considerada de um ponto de vista democrático, para encaminhar soluções políticas que foram desqualificadas e recusadas pelo marxismo.

Com o tempo, os social-democratas perderam a identidade histórica europeia e as possibilidades de realização. E só vieram a se reapresentar, praticamente, sem vínculos com o marxismo, depois da Segunda Guerra Mundial, em países nos quais foi a solução condizente com o grau de desenvolvimento econômico e social, mas apenas na Europa.

No Brasil, a social-democracia foi uma chama que o sopro da normalidade deixou ao deus-dará e, a cada dia que passa, tem menos a ver com a ideia básica de evoluir socialmente dentro dos padrões democráticos, com espírito da urgência para apressar resultados e encurtar distâncias sociais. Quando a social-democracia chegou ao Brasil, já era tarde para dar conta de empreitadas. O PSDB passa a impressão de exaustão depois da primeira etapa da democracia que voltou para ficar, mas continua longe do que pode. Deixou para trás a proposta reformista e nada tem a oferecer para mudar realmente um país que perdeu muito tempo com a falsa opção entre ditaduras e democracias de curta duração. 

O episódio da semana que se apresentou na Bahia pedia do governo mais do que a lentidão e a argumentação oficial retirada da gaveta. Não era problema federal, mas acabou no colo da presidente Dilma Rousseff. A democracia pede do governo mais do que argumentos que consolidam divergências e não encaminham soluções. A presidente Dilma foi enfática, como cabia, e se declarou “estarrecida “ com os meios que considera “incompatíveis com a democracia” mas, ainda assim, podem e devem ser avaliados em perspectiva e tratados preventivamente.

Faltou por perto alguém para lembrar o precedente de JK: passado um mês de governo, foi surpreendido, também na véspera do Carnaval, por um ato de rebeldia de pilotos da Força Aérea Brasileira. Um levante para incendiar o país, a partir de Jacareacanga. As circunstâncias eram muito mais graves, pois a posse de Juscelino Kubitschek foi precedida de intensa fermentação golpista e seguida da tentativa de travá-la. Daí adveio o contragolpe desferido pelo Congresso Nacional e reforçado pelo estado de sítio. 

O motim foi debelado em poucos dias mas, ainda sob seus efeitos,  JK mandou ao Congresso mensagem em que propunha a concessão de anistia aos rebeldes sujeitos aos rigores da lei e da responsabilidade militar. Quando, mais uma vez, um ano antes do fim do seu mandato, se repetiu a tentativa de desencadear outro levante a partir de Aragarças,  como detonador de um golpe de Estado, o presidente foi pessoalmente recomendar eficiência aos pilotos da esquadrilha, com a ressalva de que não queria cadáveres como saldo. Sem comentário: JK selou seu espírito de tolerância democrática com outra  mensagem em que pedia ao Congresso anistia para os revoltosos. O efeito multiplicador está na História.