Os custos da omelete

Quem pensou que Lula iria para a forca como um cordeirinho se enganou. Tendo sido condenado na ausência de provas incontestes, conforme juízo de notáveis juristas nativos e estrangeiros, tendo tido a sentença confirmada em tempo anormalmente célere pela segunda instância, e sido preso antes do trânsito da sentença em julgado, como prevê a Constituição, Lula decidiu não morrer de véspera. Ao se manter candidato, deu um nó no sistema, obrigando-o a lidar com as feitiçarias que fez para se livrar dele. Ontem chegaram duas contas altas: o pânico no mercado e a determinação do Comitê de Direitos Humanos da ONU para que o país garanta a candidatura de Lula. Outras virão.

O Comitê da ONU determinou ao Estado brasileiro que garanta a Lula, na prisão, o acesso a todos os recursos de campanha, como participação em debates, à imprensa e a interlocutores políticos.  O Itamaraty avançou o sinal, declarando que a recomendação do comitê não tem efeito vinculante interno. Logo, deve ser ignorada.

A vice-presidente do Comitê, Sarah Cleveland, declarou que o Brasil é obrigado a obedecer à recomendação. Se desacatar um comitê com cujas decisões se comprometeu, diz o ex-chanceler Celso Amorim, o Brasil vai se tornar um “pária internacional”. Levará um carimbo feio na testa. A notícia que a mídia nacional minimizou foi dada pelos maiores jornais do mundo: The New York Times, Le Monde, The Guardian, BBC, El País e outros tantos. 

O TSE deve seguir em frente e barrar a candidatura de Lula. Ousadias bem maiores já foram cometidas com o mesmo fim. Se der uma banana para a ONU, não haverá guerra nem retaliação, mas vamos nos assumir como um “ananá”, um grande país que se comporta como uma republiqueta.

A impugnação a jato, como pediu a procuradora-geral Raquel Dodge, talvez não venha. Ninguém tem dúvidas sobre o que fará o relator, ministro Barroso, mas é possível que ele agora “observe o rito”, como diz o ministro Marco Aurélio. Indo mais devagar com o andor, entretanto, o PT pode conseguir o intenso de levar Lula ao horário eleitoral. E isso lhe dará mais chances de levar Haddad ao segundo turno.

Ontem, antes do fru-fru com a ONU, o fator Lula já havia estressado o mercado financeiro. A Bolsa despencou e o dólar disparou. A indigestão foi causada, primeiro, pela nova pesquisa Ipespe-XP,  mantendo Lula em primeiro lugar e mostrando que, quando identificado como seu candidato,  Fernando Haddad chega a 15%. Aproxima-se de Bolsonaro e deixa bem atrás Ciro, Alckmin e Marina.  Isso aponta para um segundo turno entre o petista e o capitão de extrema-direita. Depois, a turma do mercado começa a achar que a adesão do Centrão não dará a Alckmin o impulso esperado.

O nervosismo do mercado não acabará com o desfecho do caso Lula.  De agora até a contagem dos votos, será assim, e isso terá custo para o país. Ao final, ovos demais serão quebrados para se fazer a omelete “eleição sem Lula”.

A quem interessa?

Recentemente o governo Temer fez circular a notícia de que proporá ao futuro presidente a extinção da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, da qual fui a primeira presidente. Geraldo Alckmin declarou a mesma intenção. Ontem a revista Época circulou com matéria que, explorando os custos da empresa desde sua criação, em 2007, dos quais discordo. O editorial sugere aos candidatos que se posicionem sobre o futuro do sistema público de radiodifusão. 

Fui ouvida pela reportagem, que reproduziu algumas falas minhas. Mas não o essencial: a comunicação pública é da essência das democracias. Existe para garantir a oferta complementar de conteúdos e a diversidade de opiniões. Na Europa, as emissoras públicas, antes monopolistas, foram depois expostas à concorrência privada. Nenhum governo, entretanto, tentou acabar com os sistemas públicos. Por que devemos fazer isso? No interesse de quem? Com a palavra os candidatos.