A presença de Lula

O preso devia ser um ausente, um esquecido, um excluído da memória e das conversas. Mas nestes primeiros 15 dias de sua prisão, falou-se do ex-presidente Lula o tempo todo: nas tribunas do no Congresso, nos jornais, no rádio e na televisão, em debates na sociedade civil, reunissem eles apoiadores ou críticos, empresários ou ativistas políticos. O PT vem sendo aconselhado a reduzir a luz  sobre Lula, buscando um esquecimento que seria benéfico ao esforço junto aos tribunais por sua libertação.  Enquanto ele for esta presença na ausência, dizem, será difícil  tirá-lo de Curitiba. Mas a disposição, do PT e dele própria, é no sentido contrário. É mantê-lo em cena, como candidato a presidente,  deixando para Justiça Eleitoral o ônus de barrar sua candidatura em agosto. Até lá, a incerteza vai pairar. 

O isolamento determinado pelo juiz Sérgio Moro não o tirou de cena nestes primeiros dias. A repercussão internacional continua forte, havendo até rumores sobre uma visita de Barack Obama. Os acampamentos da campanha “Lula livre” geram imagens e ruídos, principalmente o de Curitiba, com seu “bom dia” diário ao preso e a romaria de visitantes.   Dois anciães notáveis, o  prêmio Nobel da Paz de 1980, Pérez Esquivel, e o teólogo Leonardo Boff , barrados na porta da Polícia Federal tentando visitar Lula, renderam fotografias muito fortes. Ciro Gomes quer ir, e o preso manifestou desejo de recebê-lo. A vencedora do programa Big Brother Brasil, da TV Globo,  Gleici Damasceno, deixou o confinamento gritando “Lula livre”. Ao vivo.  A visita do senadores da Comissão de Direitos Humanos trouxe notícias sobre como vive e o que está pensando o preso. Ele não reclama da cela nem da comida, ouve a saudação do acampamento, corre pela sala, faz exercícios usando livros como pesos.  Já leu “A Elite do Atraso”, de Jessé de Sousa, e agora está lendo  Homo Deus”, de Yuval Harari, que especula sobre o futuro de nossa espécie. No encontro, concordou com a estratégia de mantê-lo candidato até agosto.

E só então, barrada a candidatura, o PT decidirá pelo apoio a candidato de outro partido, hipótese remota, ou pelo lançamento de  nome próprio, por quem Lula pediria votos. Antes, dizem os dirigentes, o PT pode no máximo escolher o vice. O registro será pedido no dia 15 e o TSE levará alguns dias para recusá-lo. No dia 16, começa o horário eleitoral e Lula poderá aparecer, já pedindo votos por quem ficará em seu lugar.

Pode dar errado. Até lá, outro nome pode surpreender, crescer e firmar-se como antípoda de Bolsonaro. Marina, Ciro, Joaquim Barbosa ou o imponderável. Fora isso, Lula seguirá no quadro e nas pesquisas, apesar da inevitabilidade de sua inabilitação. Até agosto, portanto, a campanha seguirá no trote da imprevisibilidade. Com Lula ausente, mas presente.

MARCADO PARA MAIO 

A ministra Cármen Lúcia vai substituir Michel Temer entre os dias 6 e 16 de maio, durante viagem dele a países asiáticos.  Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, substitutos imediatos, viajarão para não se incompatibilizarem. São candidatos a cargos eletivos. Na presidência do STF, Cármen será substituída pelo ministro Dias Tóffoli, que deve sofrer pressões enormes para colocar em pauta as ADCs (ações diretas de constitucionalidade) que podem rever as prisões após condenação em segunda instância. Fará isso, usando a prerrogativa do cargo, ou respeitará a vontade da titular, que se recusa a pautar a matéria?

O ENIGMA BARBOSA 

O PSB tomou uma ducha fria com a declaração de Joaquim Barbosa, de que ainda não se convenceu a ser candidato. Os que mais o conhecem duvidam que ele se aventure numa selva habitada por animais que detesta, como jornalistas e políticos. Ele preza muito a privacidade, a vida amena, o tempo para atividades que mais lhe importam na vida. O PSB hesita. Se pressioná-lo a se decidir logo, pode entornar o caldo. Se esperar muito, e ouvir um não, não terá outro nome e entrará mais fraco na negociação de acordos com outros candidatos.