A casa caiu

 A prisão de amigos de longa data, todos próximos e relacionados a suspeitas de corrupção na área portuária, deve liquidar com as pretensões do presidente Michel Temer de concorrer à reeleição, ou mesmo de tornar-se figura de peso na disputa.  Ele volta às cordas, depois da ofensiva com a agenda de segurança.  Tornou-se agora realmente provável a apresentação, pela Procuradoria Geral da República, de uma terceira denúncia contra ele, que tramitaria na Câmara em ambiente político bem diferente daquele que permitiu a rejeição de outras duas.   A principal diferença tem um nome: Rodrigo Maia. Ele, que comandaria a tramitação da denúncia, e seria o sucessor legal de Temer caso fosse aprovada,  agora é candidato a presidente e distanciou-se muito do governo.   Ele e o DEM perderiam a chance de uma disputa presidencial no cargo? O Centrão ajudaria? 

Há outras diferenças.  A base dividiu-se entre as diferentes candidaturas presidenciais do campo conservador,  como as de Geraldo Alckmin (PSDB), Flavio Rocha (PRB) e Rodrigo Maia (DEM),  fora o ensaio do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Ele que deixará o cargo para filiar-se ao MDB  mas já sabendo que lá adiante poderia perder para Temer a candidatura pela sigla.  Depois, os deputados agora já estão com a cabeça e os pés na campanha,  muitos buscando desesperadamente o foro privilegiado para escapar de eventuais condenações. Já não se arriscariam tanto para defender um presidente tão impopular, do qual já tiraram o que podiam, em matéria de emendas e favores fisiológicos.

Mas que sentido haveria no afastamento de Temer agora, faltando apenas sete meses para a eleição?  Tal movimento só trataria mais um solavanco ao país, comprometendo a tímida recuperação que a economia vem experimentando. Isso é o que diziam os políticos governistas quando examinavam a hipótese da terceira denúncia, antes das prisões desta quinta-feira, que têm um significado: se a procuradora-geral Raquel Dodge as pediu, e o ministro do STF Roberto Barroso (relator do inquérito sobre o decreto dos portos) as autorizou, é porque as investigações que vêm sendo feitas pela Polícia Federal avançaram. Há um mês foi autorizada a quebra do sigilo bancário de Temer, do coronel Lima, do ex-assessor Rocha Loures e de dois executivos da empresa portuária Rodrimar. 

De fato, talvez o Brasil mais perdesse que ganhasse com uma nova troca de presidentes.   No ambiente político envenenado que tomou conta do país,  o mais importante é evitar a escalada da radicalização e garantir a realização das eleições. Elas são o único farol. Temer já não tem um programa a executar.  Depois que a reforma previdenciária foi para o arquivo, suas prioridades são a intervenção no Rio, a ênfase na segurança e a venda de ativos, como a Eletrobrás (cuja privatização o Congressos resiste em aprovar) e o leilão de novas áreas de exploração de petróleo.   Mas o Democratas pode não resistir à tentação, e Rodrigo teria o apoio do mercado e do empresariado.  Manteria a política econômica e disputaria a reeleição no cargo, vantagem que ninguém despreza.  Nem Temer, que vinha pensando seriamente nisso. Convém, portanto, prestar atenção ao fator DEM/Rodrigo Maia.

 A investigação principal diz respeito à edição, em maio passado, do decreto dos portos, que aumentou de 25 para 35 anos a duração das concessões.   Nas gravações do caso JBS, Rocha Loures trata dele com Rodrigo Mesquita, da Rodrimar. Eles citam o coronel Lima, apontado pelo delator Ricardo Saud como operador de Temer.  O amigão José Yunes foi citado por outro delator, Lucio Funaro, como operador de propinas para Temer.   Ambos foram presos. Mas estão sendo investigados também fatos anteriores ao exercício do mandato, que Temer deve tentar derrubar no plenário do STF.  E com isso, a temperatura política subiu mais.