Agora vai?

O aumento da cobrança de resultados, 40 dias depois de decretada a intervenção no Rio, produziu ontem algumas respostas das autoridades.  O presidente Temer assinou, finalmente,  a MP que vai liberar R$ 1,2 bilhão para as ações de segurança no estado. No plano operacional, aconteceu a mais forte inflexão no formato das ações que vinham sendo executadas. Houve operação contra roubo de cargas, deslocamento de patrulhas para pontos estratégicos da cidade, no Centro e nas zonas Norte e Sul,  inspeções no presídio de Bangu e em quarteis da PM. A intervenção, que começou improvisada, pode estar começando agora a pegar embocadura. 

A liberação dos recursos demorou e a mudança na tática operacional foi ditada pelos insucessos. Veio depois de um final de semana violento, com oito mortes na Rocinha e a execução de cinco jovens em Maricá, afora a falta de resultados nas investigações sobre a autoria do assassinato de Marielle Franco.   Pesquisa do Instituto Datafolha, feita na semana passada, apurou redução, de 80% para 76%, no índice de apoio à medida; 71% disseram não ter percebido melhora na situação. 

 Se para a população ainda não houve melhora,  para o governador Pezão a intervenção foi a salvação da lavoura. Sem ela, o assassinato de Marielle e todo o saldo de violência dos últimos 40 dias estariam recaindo sobre suas costas.  O vice-governador Francisco Dornelles reconhece os benefícios: “Sem a intervenção, o governador estaria sendo crucificado”.

Com a nova dinâmica das operações, Dornelles acredita que a sensação de segurança da população vai aumentar e que haverá,  na sequência, uma redução das ocorrências.  Mas para resolver o problema,  ele insiste, o governo federal terá que adotar medidas complementares, de cunho social,  voltadas para as populações das comunidades controladas pelo tráfico, e de mudar a abordagem sobre a questão das drogas. 

- O saldo da intervenção é positivo e o quadro geral vai melhorar.  Mas o problema estará resolvido? Não será,  enquanto não enfrentarmos sua raiz, que é o consumo de drogas. E isso não se resolve com tiros.   Ninguém pode revogar a lei da oferta e da procura. Uma primeira medida poderia ser uma campanha publicitária massiva, que chegue a todos os segmentos sociais, inclusive às escolas, mostrando as consequências do consumo e da dependência. O governo federal deveria pensar nisso.

VIOLÊNCIA POLÍTICA 

A outra face da violência, a política, também vai se impondo. Ontem dois ônibus da caravana de Lula foram atingidos por tiros no Paraná.  A leniência das autoridades diante dos primeiros ataques funcionou como sinal verde para a turba. Não houve vítimas mas é muito grave. Enquanto isso o ministro do STF Luiz Fachin informava que está recebendo ameaças, extensivas a seus parentes. 

É grande o risco de um confronto hoje em Curitiba. Pela manhã, o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro será recebido por seus apoiadores no aeroporto. Ele segue para Ponta Grossa. À tarde, em praças separadas por um quilômetro de distância, haverá o ato de  encerramento da caravana de Lula e uma manifestação contra ele liderada pelo MBL. 

A passagem de Lula pelo Sul serviu explicitou o avanço da radicalização política.  Antes dos tiros, a comitiva levou ovos e pedras no rio Grande do Sul. Um repórter fotográfico foi agredido por um segurança da caravana.  No Senado, o bloco de oposição preparava, para hoje, uma ação contra a  senadora Ana Amélia, por incitação à violência: pode ser uma representação no Conselho de Ética, no Ministério Público ou diretamente na Justiça. Em convenção do PP, no domingo, ela saudou as cidades gaúchas onde ocorreram atos violentos contra a passagem da caravana , estimulando os manifestantes a “tacar ovos e descer o relho”.  E a campanha eleitoral ainda nem começou. Neste ritmo...nem vou falar.