União por Marielle

Tudo tem sido dito sobre a vereadora Marielle Franco, inclusive mentiras, com o propósito de macular sua memória e sua reputação. Pouco se diz que, além de ativista pelos direitos humanos, mulher, negra e filha da favela, Marielle era uma militante de esquerda. O ex-chanceler Celso Amorim diz que sua morte precisa  inspirar um esforço de união das forças progressistas do Rio de Janeiro, em uma frente única em defesa da democracia e de tudo o que ela representou, colocando estes valores “acima de  visões e interesses particularistas e da busca por ganhos eleitorais e partidários.” 

No texto que divulgará com este chamado à unidade ele busca, no final,  neutralizar as desconfianças que naturalmente decorreriam do fato de ser cogitado como candidato do PT a governador:  “Nesse contexto, mais importante que o lançamento de candidaturas é a abertura de um amplo debate entre as forças verdadeiramente democráticas e progressistas; um debate que permita definir um programa comum e a formação de uma frente única em defesa da democracia e da justiça social em nosso estado e no país. A figura que encarnará essa luta é secundária diante da tarefa principal, a busca da unidade”.  Ou seja, não está se colocando como candidato desta eventual convergência. Se há um ponto que une a esquerda, em relação à tragédia da semana passada, é o diagnóstico de que a intervenção criou as condições que levaram ao assassinato. Ele vai na mesma linha: 

“A execução da vereadora Marielle está diretamente ligada à intervenção militar na segurança do Rio.  Pouco importa se os mandantes e os executores do bárbaro crime são membros da polícia militar ou das milícias ou uma combinação de ambas. As denúncias recentes da vereadora apontam, sem sombra de dúvida, para os integrantes do 41º Batalhão da PM, que podem ter agido por conta própria ou em combinação com outras facções.  Em qualquer caso, a filosofi a que inspirou a intervenção foi o que induziu ao assassinato de Marielle, seja por priorizar a repressão violenta nas comunidades pobres, seja por levar setores policiais ou das milícias ou do tráfico a colocar a autoridade interventora frente a um desafi o aberto.”As forças progressistas”, diz ele,  “não podem se deixar dominar por interesses eleitorais sectários. Este é um momento de união. União contra o golpe, união pela democracia, união por tudo que a Marielle representou. E essa união só será possível se os vários setores da esquerda fluminense, sob a inspiração das lideranças nacionais, souberem colocar os valores democráticos e de justiça acima de visões e interesses particularistas. Não é esta a hora de procurar ganhos eleitorais ou partidários.” 

Mas, no plano estadual, a unidade é tão difícil quanto na disputa presidencial, em que a esquerda se divide entre as candidaturas de Lula (PT),  Manuela Dávila (PC do B), Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT).   Mas também é certo que, para governador do Rio, nenhum partido tem nome  competitivo. O PSOL, partido de Marielle,  lançará o professor Tarcísio;  o PT cogita Amorim mas pensa nele como plano B de Lula; e o PDT, deprovido,  andou até flertando com Eduardo Paes.  Se a proposta de unidade de Amorim esbarra na rivalidade, vai ao encontro deste vazio de candidaturas viáveis.  Agora, veremos o que dirão os outros.

LULA NO SUL 

O ex-presidente Lula começa hoje sua caravana pelo Sul em Bagé (RS),  visitando os memoriais de Getúlio e Jango. Ele não vai ao túmulo de Brizola, no cemitério mas em seu discurso homenageará os três ícones do trabalhismo. Depois encontrará o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, na fronteira. Enquanto isso, forças de segurança fazem ensaios para sua eventual prisão, a partir do dia 26, quando o TRF-4 pode concluir a análise de seus recursos.