Onda de frio extremo em parte dos EUA seria efeito da mudança climática?

Uma onda de frio extremo congela o Meio-Oeste dos Estados Unidos com temperaturas mais frias que na Antártica e dezenas de graus abaixo de zero. Mas estaria ela relacionada à mudança climática?

Os especialistas dizem que é possível que sim, mas a questão de se o aquecimento global desempenha ou não um papel determinante neste fenômeno continua sendo objeto de debate.

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Pedestres enfrentam o frio intenso em Minneapolis, Minnesota. (Foto: Stephen Maturen/AFP)

Esses são os motivos:

"É uma massa de ar muito frio que se encontra normalmente à direita do Polo Norte e tende a permanecer restrita a essa área por efeito da corrente de jato" - um fator termodinâmico que regula a circulação do ar na atmosfera -, explica Ben Kirtman, professor de ciências atmosféricas da escola Rosenstiel de Ciências Marinhas e Atmosféricas da Universidade de Miami.

Normalmente, a corrente de jato mantém seu ar frio no Ártico, mas quando essa corrente se agita ou se debilita, o frio pode se expandir.

Às vezes uma massa de ar ártico se desprende do vórtice polar que habitualmente rodeia o Polo Norte, provocando uma onda polar, "e isso é o que está acontecendo neste momento. E se for uma muito grande, pode-se originar uma grande massa amorfa de ar frio que penetrará muito em direção ao sul", indicou Kirtman à AFP.

Segundo o canal meteorológico Weather Channel, o frio destes dias "poderia ser o mais extremo dos últimos 20 anos em zonas do meio-oeste e chegar a baixas temperaturas recorde em algumas áreas".

Segundo o Serviço Meteorológico Nacional (NWS, sigla em inglês), um vento gelado a -28°C poderia causar congelamento em apenas 30 minutos.

 

 

"Não está fora dos limites do registro histórico. Acontece. Há tempestades que são maiores que outras tempestades. Uma grande parte disto faz parte da variabilidade natural do clima", disse Kirtman.

A faixa protetora da atmosfera que mantém o ar polar no norte pode oscilar. Isso também não é estranho.

"Sempre há ondulações na corrente de jato", disse Kirtman.

 

 

A força da corrente rápida está relacionada com o contraste de temperatura entre os trópicos e os polos.

Quanto maior essa diferença, mais forte é a corrente de jato e, em teoria, é mais provável que o ar polar permaneça no Ártico.

No entanto, esta corrente às vezes é tão forte que pode se tornar instável, e isto "causa uma certa quantidade de oscilação no jato que pode dar origem a estes meandros", disse Kirtman.

Alguns testes também sugerem que quando os polos se aquecem há menos contraste com os trópicos, e isso também pode fazer com que a corrente de jato seja mais oscilante, permitindo que o ar frio desça a partir do norte.

Sabe-se que o Ártico está aquecendo em um ritmo duas vezes mais rápido que o resto do planeta.

 

 

"O que as pessoas estão começando a se perguntar é se, caso a corrente de jato se enfraqueça, vamos ter cada vez mais saídas fortes do vórtice polar. E se isso resulta ser verdadeiro, podemos vincular os frios mais extremos à mudança climática", acrescentou Kirtman.

Os pesquisadores estão examinando dados. "Há alguns indícios que o vinculam com a mudança climática, mas gostaria de enfatizar que o júri ainda está deliberando", disse.

Os cientistas estão melhorando em decifrar o papel da mudança climática em certos eventos climáticos extremos. Até agora, os sinais são mais claros em fenômenos como as chuvas, as secas, as ondas de calor e os incêndios florestais.

Mas quando se trata de ondas de frio, as respostas não são tão claras: "Eu diria que a ciência ainda está incompleta. Não temos provas neste momento", concluiu Kirtman.

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