'WSJ': Barragens de detritos elevam risco de acidentes como o de Mariana

Matéria publicada nesta terça-feira (5) no The Wall Street Journal, analisa que na teoria, as barragens de rejeitos deveriam durar para sempre. Na prática, elas falham com tanta frequência que os engenheiros do próprio setor estão soando o alarme. Um ano e três meses antes do acidente de Mariana, uma barragem de rejeitos de uma mina do Canadá, totalmente em conformidade com a regulação local, desabou e causou o maior acidente do tipo na história do país. 

A reportagem diz que os especialistas estimam que entre um e quatro rompimentos ocorram todo ano em barragens de rejeitos no mundo inteiro, uma frequência quase dez vezes maior que em barragens de água. As barragens mais altas, nos Andes peruanos, já têm o tamanho da gigantesca represa de Hoover, nos Estados Unidos, e têm autorizações para crescer ainda mais.

“Nossas barragens e depósitos estão entre as estruturas de maior risco da Terra”, diz Andrew Robertson, um consultor de Vancouver que já projetou várias barragens enormes para mineradoras. Ele observa que a produção de rejeitos das maiores minas se multiplica por dez a cada trinta e poucos anos.

Segundo o jornal americano, acidentes em países governados por regimes autocráticos geralmente não são divulgados, particularmente na China, dizem especialistas. A regulação e a fiscalização variam bastante conforme a jurisdição e frequentemente as mineradoras têm que fiscalizar a si mesmas.

A barragem do Fundão, em Minas, pertencia à Samarco Mineração SA, uma joint venture entre as duas maiores mineradoras do mundo: a anglo-australiana BHP Billiton Ltd. e a ValeSA.

A Samarco, que está sob investigação criminal no Brasil por causa do desastre, diz que a barragem do Fundão cumpria todas as exigências legais e regulatórias e sua estrutura não mostrava sinais de estar comprometida antes do rompimento, uma versão com a qual consultores da empresa não concordam. A Vale e a BHP Billiton afirmaram que a barragem era responsabilidade da Samarco, não delas. Todas as três companhias vêm colaborando com as iniciativas de socorro às vítimas e prometeram reconstruir as casas destruídas.

No início de março, as empresas envolvidas concordaram em gastar um mínimo de R$ 9,46 bilhões na limpeza da área, sendo a maior parte destinada à criação de uma fundação independente para gerenciar os esforços de recuperação.

O desastre da Samarco reverberou na indústria da mineração. Na assembleia anual dos acionistas da BHP Billiton, em novembro, o diretor-presidente da empresa, Andrew Mackenzie, pareceu conter as lágrimas ao descrever a cena “desoladora” que ele havia testemunhado no Brasil.

O Conselho Internacional de Mineração e Metais — ou ICMM, na sigla em inglês —, que inclui a maioria das grandes mineradoras do mundo, afirmou em dezembro que “convocaria uma revisão global dos padrões de barragens de rejeitos e controles críticos”.