Ar condicionado: um "refresco" que acaba gerando ainda mais calor

Pesquisa da Universidade do Arizona mostra que temperatura externa aumenta com uso da refrigeração

Nestes dias de calor batendo recorde, o ar condicionado se transforma num verdadeiro oásis para quem quer fugir das altas temperaturas. Mas o que nem todo mundo sabe é que o uso excessivo de refrigeradores de ar na verdade acaba fazendo com que a temperatura aumente ainda mais no meio ambiente, podendo subir até um grau. É o que mostra pesquisa da Universidade do Arizona. 

De acordo com o estudo, o uso do ar condicionado gera uma verdadeira “bola de neve”: Por conta do aumento das temperaturas, mais pessoas compram o aparelho para se refrescar. No entanto, a emissão dos gases associada com a troca de calor gerada a partir do resfriamento do ambiente interno aumenta a temperatura do lado de fora. A consequência é a compra de novos aparelhos para o resfriamento, e consequentemente mais calor externo.

O biólogo coordenador de mudanças climáticas e energia do WWF-Brasil, André Nahur, explicou que o aparelho, durante os processos de resfriamento, emite gases que aceleram o efeito estufa. “O ar condicionado possui duas formas de resfriamento e, em uma delas, o ar entra em contato com diversos gases, como o HFCS, que podem reter o calor e aumentar o efeito estufa” disse.

O biólogo André Nahur explicou que a emissão dos gases que retém o calor aumentou desde a Revolução Industrial. “De acordo com um levantamento feito pela ONU, as temperaturas aumentaram 0,8 graus entre 1850 e 2012”, disse. “Os cientistas das Nações Unidas acreditam que até o final deste século a temperatura pode aumentar em até 3,3%. Em alguns locais do Brasil, como a Região Sudeste, a temperatura já aumentou cerce de 2 graus” informou. 

O coordenador de mudanças climáticas e energia do WWF-Brasil explicou que a temperatura é alta nas chamadas “ilhas de calor” por conta principalmente da emissão dos gases do efeito estufa, a falta de zonas verdes e problemas cotidianos como o trânsito. “As temperaturas são acentuadas [nas Ilhas de calor] por possuir mais poluição. É mais calor sendo retido nos centros urbanos”, explicou. Ele informou que a soma dessas situações aumenta a demanda pela refrigeração do ar. “Quanto maior o calor externo, mais nós ligamos o ar condicionado. E seu uso excessivo pode aumentar em até um grau a temperatura externa, conforme foi comprovado pela pesquisa da Universidade do Arizona. Para resfriar um ambiente interno ele precisa fazer trocas de calor com o ambiente externo.”

O quinto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, apontou que há realmente uma grande parcela da atuação humana na situação climática mundial. “O aquecimento do sistema climático é inequívoco e, desde os anos 1950, muitas das mudanças observadas são sem precedentes de décadas a milênios. A atmosfera e os oceanos esquentaram, as quantidades de neve e gelo diminuíram, o nível dos mares subiu e as concentrações de gases de efeito estufa aumentaram. A influência humana no sistema climático está clara."

Ainda de acordo o relatório, as temperaturas médias das décadas desde 1951 têm aumentado em 0,12º. Apesar do ritmo ter se desacelerado nos últimos 15 anos, para 0,5ª, o tempo ainda é muito curto para especulações. As alterações do clima geram problemas sem precedentes para a vida na Terra. "Com o passar das duas últimas décadas, a cobertura de gelo da Groenlândia e da Antártica tem perdido massa, as geleiras encolhido continuamente em quase todo o mundo e o gelo do mar do Ártico e a cobertura de gelo na primavera do hemisfério norte continuou a diminuir em extensão." Com o derretimento das geleiras, o nível dos oceanos poderá  aumentar podendo levar à perda de territórios. O estudo da ONU informou que no período entre 1901 e 2010 o nível médio do mar em todo o mundo subiu em 19 cm, uma média de 1,7 milímetros ao ano. A elevação média subiu para 3,2 mm entre 1993-2012.

A doutora em paleoceanografia da Universidade Federal Fluminense, Ana Luiza Albuquerque, afirmou que de acordo com o último relatório da ONU é possível esperar um aquecimento do planeta. “Nessas condições, climas extremos, como altíssimas e baixíssimas temperaturas, inundações e secas, são esperados com maior frequência.” Para a professora, existe uma grande pressão por energia e alimento contraposta com a necessidade da diminuição da emissão de gases e redução do uso de recursos naturais. “Cria-se, assim, um dos impasses socioeconômicos de mais difícil solução - e provavelmente pode ser representada pelo binômio antagonista ar-condicionado-aquecimento global.”

De acordo com Ana Luiza, as mudanças climáticas no mundo decorrem de forma natural, no entanto, com a ação do homem. Alguns processos de aquecimento ou resfriamento são acelerados. “Assim, é preciso entender que as mudanças climáticas acontecem de forma natural na Terra, em resposta aos equilíbrios do balanço de energia. No entanto, as atividades humanas, especialmente aquelas que produzem a emissão de gases do efeito estufa, também causam mudanças no clima”, afirmou a doutora. Segundo Ana Luiza, não há um consenso sobre o clima no planeta, no entanto existe uma concordância cada vez maior com os modelos climáticos a respeito das mudanças. “Dessa forma, vivemos hoje uma condição de sobreposição de processos naturais e de ação humana conduzindo às mudanças no estádio médio do clima.”

*Do Programa de Estágio do JB