HTLV: estudo alerta para a necessidade de teste obrigatório no pré-natal 

Vírus 'primo' do HIV está relacionado a doenças como leucemia e linfomas

O HIV é um vírus já bastante estudado, mas um outro retrovírus da mesma família é ainda pouco familiar para a população e até para os médicos. O HTLV é um retrovírus da mesma família do vírus que provoca a Aids, só que relacionado a complicações mais específicas como linfomas, leucemia e doenças neurológicas. Estudo desenvolvido por uma equipe de pesquisadores e médicos brasileiros em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sobre infecção pelo vírus HTLV 1 e 2 em mulheres fluminenses, foi divulgado pela revista Plos Medicine na semana passada. A Plos é uma das revistas de divulgação científica mais conceituadas do mundo. 

O estudo analisou 1.200 mulheres que deram entrada no Hospital Estadual da Mãe (HEM), em Mesquita. Entre elas, foram verificados oito casos da doença, o que é considerado um número bastante alto. “Só para termos ideia, no HEM são quase 600 partos por mês. Separamos 1.200 pacientes em trabalho de parto e fizemos o teste. Se essa proporção encontrada se confirmar, teríamos quatro novos casos por mês de uma doença que não é nem testada”, diz um dos participantes da pesquisa e diretor do HEM, o médico Sérgio Teixeira, que considera a obrigatoriedade do teste durante o pré-natal um assunto essencial. 

Entre os casos verificados, sete são do vírus tipo 1 e um do vírus tipo 2. Os médicos envolvidos na pesquisa ressaltaram que esse número é bastante significativo e o teste para HTLV deve se tornar obrigatório durante o pré-natal, para evitar a contaminação dos bebês. Hoje em dia somente o teste para sífilis e o próprio HIV são obrigatórios durante a gravidez.

Teixeira diz que diferentemente do HIV, contra o qual há coquetéis para combate direto, o HTLV é pouco estudado e não há nenhum tipo de droga voltada para seu tratamento. Assim, só é possível tratar as doenças relacionadas ao vírus. “Como não há tratamento, a melhor forma atual de combatermos a doença é evitar que as pessoas se contaminem. No caso das grávidas, é importante identificá-lo porque a contaminação acontece mais comumente através da amamentação, não durante a gravidez. Os exames só são feitos quando a paciente tem alguma das doenças relacionadas, como o linfoma e a leucemia. No sistema público, o teste não é obrigatório".

Teixeira diz que o relatório deixa claro a sugestão dos médicos para que o Ministério da Saúde implemente esse teste como obrigatório. Além disso, uma medida importante é implementar a notificação compulsória, como acontece com o HIV. Ou seja, todo médico ou instituição que identificar um paciente com HIV deve comunicar ao Ministério da Saúde. “Como não é compulsório, muitas vezes não se tem essa iniciativa de comunicar, o que impede que saibamos uma estimativa real de quantos brasileiros estão infectados”, diz Teixeira.

O especialista também ressalta que outras doenças fatais e transmissíveis da mãe para o bebê e sexualmente não têm testes obrigatórios durante a gravidez. É o caso das Hepatite B e C, doenças que atacam o fígado. O Ministério da Saúde informou que, apesar dos exames para Hepatites e HTLV não serem obrigatórios, eles estão disponíveis na rede pública de saúde. 

 Sobre o Vírus HTLV, 'primo' próximo do HIV

Teixeira diz que nem o HIV nem o HTLV matam por si só. Eles enfraquecem o sistema imunológico, facilitam e permitem a contração de outras doenças. Além disso, entre as semelhanças está  o modo de agir no organismo (por isso são chamados de retrovírus) e a transmissão. “Na realidade, ele foi o primeiro retrovírus descoberto . No começo dos anos 80, quando esse vírus e o próprio HIV foram descobertos, o HIV era chamado de HTLV3. Depois, viram as características diferentes e separaram”.   

 O HTLV é um facilitador de doenças mais específicas como a leucemia, linfomas e doenças neurológicas. Apesar da incidência de doenças letais no HIV ser maior, diz ele, o HTLV é um vírus muito perigoso. “A diferença é a forma como ele agride o organismo. O HPLV afeta mais uma célula chamada linfócito T. Isso quer dizer que  ele está relacionado a doenças graves como leucemia e linfoma”. 

“Nem todos com o vírus desenvolvem essas doenças, o percentual é baixo, mas os que desenvolvem podem ter consequências muito graves. Tudo depende de quando a doença foi diagnosticada, e quanto mais cedo melhor. Mas o linfoma e a leucemia são muito graves e doenças neurológicas como Paraparesia Espástica Tropical podem deixar a pessoa sem andar”.   

 As formas de transmissão e são as mesmas que o HIV: através do contato sexual, amamentação, transfusão de sangue e compartilhamento de seringa. As formas de proteção são as mesmas que das outras DSTs: fazer sexo seguro e não compartilhar seringas ou objetos cortantes. Sem o teste,  a doença costuma ser descoberta ao se investigar os sintomas das doenças correlatas. 

* Do programa de Estágio do JB