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Infectologista reafirma necessidade de investimento internacional com ebola

Apesar de doações da Europa e EUA para países africanos, muito ainda precisa ser feito

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Na última sexta-feira (5), a Comissão Europeia anunciou a liberação de 140 milhões de euros em apoio à luta contra a epidemia de ebola. Quatro dos cinco países infectados pelo vírus irão se beneficiar diretamente da verba: Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria. Um dia antes, os Estados Unidos já haviam destinado US$ 75 milhões para a mesma causa, através da Agência Internacional para o Desenvolvimento, ligada ao governo norte-americano. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçou na última semana que a epidemia estaria crescendo e que toda ajuda internacional continuará sendo necessária para combater a epidemia.

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De acordo com as mais recentes informações divulgadas pela diretora-geral da OMS, Margaret Chan, a quantidade de mortos desde o princípio deste ano na África em função da atual epidemia de ebola já ultrapassa 1,9 mil. O total de casos confirmados já estaria em cerca de 3,5 mil, segundo com o apontado por Chan no último dia 3 deste mês em Washington, Estados Unidos.

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Dos 140 milhões de euros fornecidos pela Comissão Europeia, 38 milhões serão direcionados em auxiliar os governos dos países infectados a melhorarem os serviços de saúde durante o período de surto e durante a recuperação dos países. Cinco milhões irão arcar com as despesas de laboratórios móveis voltado para a detecção de novos casos de ebola, além da formação de profissionais de saúde. A questão de segurança alimentar, além do fornecimento de água e saneamento também será trabalhada com a verba disponibilizada.

Desse dinheiro ainda, 97,5 milhões iram ser usados em operações de apoio orçamental à Libéria e à Serra Leoa, para que os países possam ter um reforço na prestação de serviços públicos ligados aos cuidados com a saúde e na manutenção da estabilidade econômica.

A infectologista Anna Caryna Cabral, que atua no Hospital Universitário Pedro Ernesto, além dos hospitais Barra Day, Santa Maria e Daniel Lipp, explica que os gastos com epidemias como a do ebola são realmente muito diversificados e urgentes. “Normalmente, os gastos envolvem os recursos necessários para garantir a assistência médica aos pacientes, a garantia da qualidade dessa assistência vendo qual a estrutura necessária, os equipamentos para proteção individual dos profissionais de saúde e a proteção dos demais que fazem contato com o doente”, enumera.

Dos US$ 75 milhões destinados pelos norte-americanos, os recursos serão empregados na construção de centros de tratamento e na ampliação de leitos disponíveis para atendimentos nos quatro países auxiliados pela Comissão Europeia e Senegal. Além dessa verba, os Estados Unidos teriam se comprometido a fornecer US$ 21,3 milhões em equipamentos médicos de proteção individual, alimentos e outros suprimentos – com isso, as doações norte-americanas alcançariam quase o total de US$ 100 milhões.

Quanto aos custos de uma epidemia para um determinado país, a infectologista explica que algumas doenças já são comuns em determinadas regiões e que a epidemia acontece quando o número de casos ultrapassa o esperado – e seria essa a situação atual da África.  No Brasil, um exemplo de doença vinculada a uma região, temos por exemplo a malária na Amazônia. “Para essas doenças que já existem na localidade, há um teto financeiro para gastos do município e do estado. Esse teto é financiado para ser aplicado em ações de vigilância epidemiológica e os valores geralmente variam de acordo com o tamanho da população e de município”, explica.

Apesar da verba que os países estão destinando para os países afetados, os impactos econômicos negativos ainda deverão ser mais amplos. O jornal norte-americano The Economist publicou uma matéria na última semana apontando para que os maiores reflexos da epidemia ainda estão para ser sentido pelos governos locais. Crises na agricultura e nas exportações serão uma realidade próxima por conta de como áreas de quarentena e diminuição da força de trabalho vêm afetando a produção dos países.

No caso da África, Caryna explica que já são países com déficit financeiro muito grave e que, portanto, a ajuda financeira do exterior acaba se tornando fundamental para poder superar crises epidemiológicas como a que os países infectados estão atravessando. “Atualmente, na África tem algumas regiões em que os profissionais da saúde entraram em uma espécie de greve, reivindicando melhores condições de trabalho. São lugares onde os recursos que chegam são escassos, os pacientes estão morrendo e os médicos não se sentem devidamente protegidos”, avalia.

Quanto à situação do Brasil nesse panorama, a infectologista reafirma as declarações de órgãos como o Ministério da Saúde, de que a probabilidade de o vírus estrar no país é remota e que a possibilidade de termos situação de epidemia no país é realmente muito improvável. “Eu fico muito tranquila em dizer que o Brasil não passaria por isso. Aqueles países são de uma região muito pobre, onde a renda per capita é muito baixa. O ebola é um vírus que até hipoclorito inativa, mas as pessoas tem dificuldade até de acesso à higiene lá. Em relação ao Brasil, são regiões muito diferentes, mesmo com todas as nossas limitações nós temos serviços muito melhores”, explica.