Sheila Machado, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Cientistas descobrem mecanismo que provoca a embriaguez: os neurônios 'vazam' potássio
Muita gente conhece, por experiência própria, os efeitos inebriantes do álcool. Mas os detalhes moleculares de como ele age no cérebro ainda eram um mistério, que começa a ser desvendado por cientistas do Salk Institute, nos Estados Unidos: o ponto de gatilho do álcool no cérebro está fisicamente localizado dentro de um canal iônico de proteína.
As primeiras e já importantes conclusões do estudo, publicado na revista Nature Neuroscience, abrem caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos para alcoolismo, vício em drogas e até para a epilepsia, doença caracterizada por atividades elétricas anormais e episódicas nos neurônios.
O objetivo destes novos medicamentos seria regular a excitação dos neurônios explica Paul Slesinger, professor do Laboratório de Biologia Peptídica do Salk Institute, em San Diego, e líder da pesquisa.
Até agora, o que se sabia com certeza era que o etanol, o álcool presente nas bebidas intoxicantes, é o responsável por alterar a comunicação entre as células do cérebro. Acreditava-se que a substância interagisse diretamente com os canais iônicos de proteína estruturas que ajudam a controlar o fluxo elétrico entre todas as células vivas mas não havia um estudo que visualizasse e comprovasse essa teoria , diz Slesinger. A equipe localizou não só o canal iônico como o exato ponto da estrutura que interage com a molécula de etanol.
As pesquisas se concentraram nas funções neurais do canal iônico GIRK abreviação para canais de correção interna de potássio . Estas estruturas podem permanecer abertas durante a comunicação química entre neurônios, criando o equivalente cerebral de um curto-circuito.
O canal GIRK só deixa o potássio passar, ele pode entrar ou sair dos neurônios. Quando estas células nervosas estão em repouso, o fluxo do potássio é para fora. O etanol, que age como um regulador do GIRK, faz com que o potássio fique vazando, o que leva a uma inibição da atividade neural explica Prafulla Aryal, um dos autores do estudo.
Engana-se quem pensa que são necessárias várias latinhas de cerveja para fazer os neurônios vazarem potássio. O etanol age já em concentrações modestas: uma dose de cachaça, exemplifica Aryal, leva cerca de 20 milimols de etanol para o cérebro, o suficiente para abrir os canais GIRK.
O GIRK não perde a sensibilidade, fica aberto até que as moléculas de álcool no organismo sejam quebradas pela enzima desidrogenase, no fígado afirma o cientista. Mas seu funcionamento volta completamente ao normal depois que o efeito passa.
Isso significa até que a pessoa deixe de se sentir embriagada ou até que a ressaca passe?
Não sabemos ainda admite Aryal. Não estudamos os subprodutos metabólicos do etanol para testar seus efeitos no GIRK.