Editorial, Jornal do Brasil
RIO - Se, em outras crises na economia internacional, o máximo que o Brasil conseguia era, tal qual o avestruz, colocar a cabeça no buraco e sobreviver ao furacão, agora que a poeira da crise 2008-2009 está começando a baixar, o que se vê são empresas brasileiras fortes e aproveitando o momento para absorver concorrentes e estabelecer-se fora das fronteiras nacionais.
Na época do milagre , o lema exportar é o que importa provocava arrepios na esquerda, que reclamava do fato de enviarmos produtos agrícolas ao exterior enquanto parte de nossa população não tinha o que comer. No poder, essa esquerda aprendeu que é possível manter o povo alimentado, a economia aquecida e ainda conseguir recursos e riquezas ampliando nossas fronteiras econômicas. Aprendeu e difundiu a lição entre o empresariado.
Dados divulgados no início do mês pelo Banco Central mostram que as empresas brasileiras inverteram o fluxo vigente até o início da década: de engolidas pelas estrangeiras, passaram a compradoras de ativos em outros países.
Nos primeiros cinco meses de 2010 foram investidos pela iniciativa privada nada menos que R$ 16 bilhões fora do Brasil. Ainda está longe do recorde de 2006, quando cerca de R$ 55 bilhões foram utilizados em aquisições de empresas no estrangeiro. Parece uma diferença grande, mas economistas com acesso a esses dados estão seguros de que a marca pode ser batida neste ano, por um motivo simples: há quatro anos, o grosso dos investimentos concentrava-se nos competentes tentáculos da Vale hoje, o movimento é mais pulverizado e mais consistente, há mais gente com força para crescer.
Apesar do elogiável esforço da iniciativa privada nesse movimento de internacionalização da economia verde e amarela, não há como isolar a participação do governo, por meio do BNDES. Em 2005, no fim do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o banco adotou como política o apoio à expansão de empresas para o exterior. De lá para cá, já foram utilizados em torno de R$ 9 bilhões em empréstimos e também na compra de participação acionária dos grupos que não mais cabiam apenas no mercado nacional.
Assim como o caminho do Brasil como líder influente nas questões políticas do planeta parece não ter volta, também a participação pesada de nossas empresas no complexo mercado internacional precisa ser irreversível. E certamente será, na medida em que, quanto mais as empresas se fincam num novo país, mais conhecem as especificidades desse mercado, mais entendem o que aquele consumidor quer.
Para que esse caminho de sucesso se amplie é preciso que o próximo governante mantenha a política do real forte. Será a sinalização de que os empresários competentes precisarão para, em vez de ficar resmungando que não conseguem exportar, abram o cofre e vão conquistar o mundo.