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Interesses privados na arena internacional

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Márcio M. Canedo, Jornal do Brasil

RIO - Nos últimos dias, os jornais têm estampado notícias que provocaram uma controvérsia que pode nos ensinar grandes lições em um setor nem sempre discutido com a clareza exigida, o das relações econômicas internacionais. E tal controvérsia provavelmente nem mereceria as manchetes se não fosse por um elemento que ainda habita os pesadelos dos leitores neste país: a inflação. Mas vamos a alguns fatos antes de iniciar a discussão. A maior empresa de prospecção de minérios do mundo, a brasileira Vale, mudou sua política de preços para o minério de ferro, o principal componente para a fabricação do aço. Esta medida vem de encontro a fatos econômicos internacionais importantes, especialmente o crescimento industrial chinês, que implica em quantidades cada vez maiores do metal. A Vale, até o começo deste ano, aplicava o modelo benchmark na sua precificação, grosso modo, congelava os preços dos minérios de acordo com entendimentos pré-estabelecidos. A conjuntura econômica internacional em 2010, mais tranquila que o tsunami de 2008, fez com que atores internacionais periféricos, particularmente os do grupo Bric dos quais os principais representantes são o Brasil e a China assumissem papéis mais contundentes globalmente. Para acompanhar a onda e compensar as perdas sofridas ao longo de 2009, grandes empresas de mineração, das quais a Vale se destaca, optaram por uma abordagem mais inteligente e flexível com relação aos preços. Essa mudança provocou um aumento de 100% nos preços do minério de ferro, fato que se por um lado não abalou a indústria siderúrgica da China, a maior do mundo, por outro deixou setores mais afetados pela crise, como o europeu, representado pelas ArcelorMittal e ThyssenKrupp, preocupados com suas possíveis perdas. E a polêmica surge quando da divulgação do IGP-10 (fundamental para o cálculo da inflação) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no início desta semana, afirmando que o aumento do preço do minério de ferro foi o grande causador do aumento do índice de 1,11% em maio para 1,30% em junho, em um momento em que fantasmas inflacionários começam a ameaçar a economia nacional. E como sempre acontece nas análises conjunturais brasileiras, deve-se encontrar um vilão, e o da vez é a Vale.

Esses fatos nos ajudam a formar um cenário bem característico da contradição brasileira na defesa dos interesses privados na arena internacional. Este é um problema com vários prismas, não apenas econômicos, mas também sociológicos. O primeiro grupo é que nos interessa para essa rápida colocação de ideias. E o episódio da Vale é esclarecedor para ilustrar a questão. No diapasão puramente econômico, devemos levar em conta que, apesar deste artigo não ter por objetivo discutir os índices aplicados no cálculo da inflação, o argumento apresentado pelo instituto que mede tais índices não deixa de ser um tanto falacioso. A Vale é uma empresa que lança no mercado commodities de importância vital para o desenvolvimento industrial de um país. O aumento de suas vendas só traz benefícios para a balança comercial brasileira, concentrada em matérias-primas. Não devemos esquecer que os minérios estão no topo da lista de produtos exportados pelo país, e por uma lógica básica e ligeira, se a maior mineradora do país se beneficia de um aumento de preços, vendendo seus produtos de acordo com a demanda, há um aumento positivo na balança, e lucros maiores aos brasileiros. Ainda, se for feita uma projeção das variações do IPCA ao longo dos próximos 12 meses, o aumento de preços do minério de ferro traz um impacto insignificante para a inflação. E contradições evidentes das análises até agora apresentadas surgem, tais como culpar o aumento de preço do minério de ferro pela inflação depois de ter havido durante meses a fio uma redução da carga de IPI para determinados bens, cuja matéria-prima é o aço (automóveis e linha branca) e não ter sido aventada a possibilidade de que o impacto do aumento do consumo destes trouxe aumento inflacionário. Qual a razão que leva os analistas a minimizar um fato que é realmente relevante e maximizar outro que, devidamente analisado, não representa impacto? E assim chegamos ao ponto nevrálgico do assunto: se o Brasil procura tanto ser protagonista nas relações econômicas internacionais, como é tão propagando nos últimos anos, temos que ter uma posição de apoio aos nossos maiores exportadores, pois eles são os representantes fiéis de uma política efetiva de participação internacional do país. A defesa da Vale e de tantas outras grandes exportadoras é nosso principal papel como entusiastas do crescimento da força de nosso país internacionalmente. Não será com bravatas, apoios oportunistas e colocações que não levam em conta a importância dos aspectos econômicos internacionais. O Brasil será protagonista por meio de sua economia e do fortalecimento de sua presença nos mercados internacionais, e para isso precisamos defender nossos interesses privados com a mesma gana que alguns defendem os públicos.

Márcio M. Canedo é internacionalista, graduado pela UnB e pós-graduado pela Columbia University, especialista em política econômica internacional e política latino-americana.