O outro lado do muro

Hudson Braga, Jornal do Brasil

RIO - Quando lançado pelo governo do Estado para tentar conter a expansão de construções nas encostas cariocas, o projeto Ecolimites causou polêmica e ganhou repercussão internacional. Opiniões apressadas chegaram a compará-lo aos muros de Berlim e Palestina e tachá-lo de segregador. Também foi disseminada a absurda ideia de que as favelas seriam totalmente muradas, para separar pobres e ricos. Não obstante, o projeto foi levado adiante, com início pelo Morro Dona Marta, hoje concluído.

Ao falarmos de ecolimites, temos de abordar um tema que antecede essa questão, a ocupação desordenada das encostas, que, há muitos anos, vem afetando o meio ambiente. A derrubada de árvores e a erosão do solo causada por cortes nos morros para implantação de casas, aliadas a chuvas, provocam desmoronamentos.

Para tentar conter o crescimento desordenado, a prefeitura do Rio implantou, em 2001, um projeto urbanístico que delimitava a zona onde era permitida a construção com estacas de ferro unidas por cabos. O poder público não se fez presente e o projeto não foi adiante. Na Rocinha, por exemplo, onde estamos construindo ecolimites, encontramos mais de 400 casas fora da cerca que demarca aquela zona. Projeto semelhante implantado, nos anos 90, em Angra dos Reis, também foi abandonado.

Há um mês, as fortes chuvas que caíram na região metropolitana arrastaram casas construídas em locais de risco, provocando a morte de mais de 200 pessoas. Felizmente, a tragédia não atingiu o Dona Marta, onde o Estado está reordenando a ocupação, por meio de ecolimite e obras, além de programas sociais e de segurança. Isso significa inclusão, e não segregação, e o fim da omissão do poder público. Nas comunidades atingidas pelas chuvas, o Estado agiu rápido, pagando aluguel social e comprando casas para os desabrigados e terrenos para erguer moradias.

O caso do Dona Marta deve servir de norteador das políticas de Estado. Ainda temos muito trabalho pela frente, mas jamais recorreremos a ações como o repugnável Mauer, como os alemães chamavam o muro de Berlim.

Hudson Braga

Secretário estadual de obras