Dom Orani João Tempesta *, Jornal do Brasil
RIO - No último fim de semana, celebramos o assim chamado Domingo do Bom Pastor, pois a cada ano, na riqueza da liturgia pascal, ouvimos uma parte do texto do capítulo décimo do Evangelho de São João, em que ele nos fala que Jesus é o Pastor que cuida de todas as suas ovelhas com o mesmo cuidado, sem se descuidar de nenhuma. É então uma oportunidade para que toda a Igreja Católica se una em suas preces em pedir ao Senhor da messe que envie mais operários, ou seja, é a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações.
Desde que foi intitulado este domingo em prol das orações pelas vocações, o santo padre envia sua mensagem a toda a Igreja. Neste recente domingo do Bom Pastor e também do 47º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, o papa Bento XVI fez uma reflexão muito preciosa, a qual teve como tema O testemunho suscita vocações.
Tivemos aqui, no Rio de Janeiro, a oportunidade de refletir sobre esse tema, com o auditório do Colégio de São Bento completamente lotado durante três dias, no Simpósio sobre o Ano Sacerdotal, promovido pela Faculdade São Bento. Também o Centro Dom Vital, em parceria com a PUC do Rio de Janeiro, promoveu uma mesa-redonda sobre a Igreja ante os desafios do presente. São ocasiões em que, além das celebrações e orações pelas vocações, também a reflexão vem em auxílio para aprofundamento do tema sugerido para este ano pelo papa Bento XVI.
Com o seu texto, o nosso querido papa quis mais uma vez reavivar a chama daqueles jovens que se sentem chamados por Deus e também quis suscitar para que todo o orbe católico continue a rezar pelas vocações, pois, apesar de existirem os que não foram fiéis à sua missão, olhamos com gratidão para aqueles sacerdotes que são exemplos de entrega e que, com o seu testemunho e a sua maneira de conduzir o seu rebanho, são um alter Christus . Nesse sentido, o papa nos diz: Desejo convidar todos aqueles que o Senhor chamou para trabalharem na sua vinha a renovarem a sua fidelidade de resposta, sobretudo neste Ano Sacerdotal que proclamei por ocasião dos 150 anos de falecimento de São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, modelo sempre atual de presbítero e pároco (mensagem de Bento XVI pelo 47º Dia de Oração pelas Vocações).
Na vocação, é importante destacar a livre e gratuita iniciativa de Deus e também a responsabilidade da resposta daquele que se sente chamado, como a própria etimologia da palavra sugere. Se Deus chama, o que escuta o chamado, mesmo com anseios e aparentes incertezas, descobre que é bom fazer parte e ser um cooperador do ministério de Cristo. Esse chamado, que supõe participação concreta em uma comunidade, é também abertura do coração ao chamado de Deus que pouco a pouco irá amadurecendo e esclarecendo. Temos exemplos do testemunho de tantos sacerdotes fiéis à sua missão, cujas vidas serviram para suscitar novas vocações sacerdotais e religiosas para o serviço do seu povo. Quantas pessoas hoje, na sua infância, não tiveram exemplos belíssimos de consagrados que suscitaram passos importantes em sua vida cristã? Isto porque aquele padre era ou é para eles um sinal de seguidor do Senhor e também um bom pastor. Basta recordar os padres recentemente beatificados.
Para ser um verdadeiro pastor de almas , o papa Bento XVI nos apresenta três aspectos necessários e importantes para os sacerdotes e para aqueles que se sentem chamados à vocação sacerdotal e à vida consagrada: 1) amizade a Cristo; 2) dom total de si mesmo; 3) viver em comunhão.
Quanto ao primeiro ponto, que é a amizade com Cristo, o sacerdote deve se espelhar em Cristo como grande Homem-Orante, que constantemente estava em intimidade com o Pai. O padre é aquele que, como São João, deposita a sua vida no lugar maior de intimidade, que é o Coração de Jesus. Dessa maneira, o sacerdote é chamado a ser um homem de Deus, que na sua intimidade com o Senhor e como bom pastor, leve também suas ovelhas a terem esta mesma experiência de oração e encontro com o Senhor. A oração, assim, é o primeiro testemunho que suscita as vocações. Oração esta tanto do sacerdote quanto da comunidade.
O segundo aspecto é o dom total de si mesmo, pois, a maior oferta a Deus é a própria vida, Nisto conhecemos o amor: Jesus deu a vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos (1Jo 3,16). Com este convite somos chamados a fazer o que Cristo fez: servir e ser obediente ao Pai. Vemos esta atitude do servir e que Nosso Senhor nos deixou como exemplo na Última Ceia, quando instituiu a Eucaristia e também fez o belo gesto do lava-pés, deixando assim para todos os seus seguidores que o bem maior é servir a Deus e ao próximo .
O terceiro aspecto é o de viver a comunhão profunda no amor: É nisto que todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros (Jo 13,35). O padre é chamado a ser o homem da comunhão aberto a todos, capaz de fazer caminhar unido todo o rebanho que a bondade do Senhor lhe confiou, ajudando a superar divisões, sanar lacerações, aplanar contrastes e incompreensões, perdoar as ofensas (mensagem de Bento XVI pelo 47º Dia de Oração pelas Vocações).
Portanto, escutemos o apelo do papa em rezar pelas vocações e para que tenhamos inúmeros e santos sacerdotes, pois sabemos quão importante é a vocação sacerdotal e religiosa. O sacerdote não vive para si mas para os outros. E vivendo desta maneira, ele santifica os seus fiéis e se santifica por meio do serviço. Contudo, pedimos ao Senhor que envie bons pastores para a sua divina messe.
Tenho encontrado muitos belos exemplos e homens heroicos em sua doação de vida pelo próximo. Quantos exemplos e quantos corações generosos! Por isso, continuemos a rezar pelas vocações em nossa arquidiocese, bem como em todas as paróquias e comunidades. A Obra das Vocações Sacerdotais e os outros grupos que se propõem a essa tarefa realizam uma bela e importante missão: Pedi ao dono da messe que envie operários para a colheita .
* Arcebispo do Rio de Janeiro