Carta ao apóstolo

Carlos Eduardo Novaes, Jornal do Brasil

RIO - Caríssimo São Pedro,

Escrevo sentado no capô do meu carro aguardando a água baixar para lhe pedir encarecidamente que feche as torneiras celestiais apontadas para o Rio de Janeiro. Ou daqui a pouco estaremos todos com água no pescoço e muitos de nós, cariocas, não sabemos boiar nem nadar.

Desta vez o senhor pegou pesado. Se sua intenção era parar a cidade, posso dizer que conseguiu! Parou tudo, num momento em que temos tanta coisa para fazer. Depois não se queixe se as autoridades responsabilizarem o senhor pelo atraso nas obras para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Como se já não bastassem nossos sobressaltos com a emenda Ibsen, o senhor ainda nos atira na cabeça um princípio de dilúvio. Por que, São Pedro? Por que esta porrada que fez a cidade beijar a lona?

O senhor já sabe, há tempos, que o Rio de Janeiro nunca esteve preparado para enfrentar temporais. Será preciso repetir que o Rio é uma cidade solar, luminosa, que nasceu e cresceu para ser maravilhosa?

Deveria ser promulgada uma lei divina proibindo chover no Rio. Sei que existem cidades aí pelo planeta onde não chove nunca. Por que o senhor não abre suas torneiras em cima delas?

O Rio não precisa de mais do que uma chuvinha de vez em quando para molhar as plantas, diminuir a temperatura e permitir que os camelôs vendam seus guarda-chuvas.

Não sei se o senhor viu os estragos, aí de cima. Sendo um santo muito ocupado, provavelmente abriu as torneiras, virou as costas e foi cuidar da portaria. Ainda é tempo, porém, de dar uma olhada para observar o estado em que o senhor deixou a cidade. Nem me refiro à Praça da Bandeira, que o senhor adora alagar desde priscas épocas. Mas veja a Lagoa, que o senhor transbordou sem a menor consideração para com os pescadores, seus colegas de profissão.

Ainda não entendi as razões desse castigo divino. Desconfio, porém, que alguns santos São Paulo à frente encheram seus ouvidos com fofocas, dizendo que o Rio está muito convencido e presunçoso, se achando... e o senhor quis nos dar uma lição de humildade, mostrando que somos uma cidade igual a qualquer outra, que não somos melhores do que São Paulo.

O que posso lhe dizer observando aqui, do alto do capô é que o Rio está irreconhecível. Nenhuma cidade do mundo se transforma tanto quando sai do sol e entra na chuva grossa. Estamos com a cara de Oslo, séria, cinza, sorumbática e macambúzia. Fica assim meu pedido em nome da população para que o senhor faça o Rio voltar a ser o que sempre foi, alegre, sensual, de bem com a vida.

Se os reservatórios do céu estiverem cheios, por favor, leve a chuva para outra cidade. Quem sabe o senhor convence o apóstolo Paulo a ficar com ela? São Paulo não tem montanhas, nem risco de deslizamentos e já é uma cidade séria pela própria natureza. Sabe lidar muito melhor do que nós com esses elevados índices pluviométricos.

Desde já agradeço sua compreensão,

CEN