Editorial, Jornal do Brasil
RIO - Datas como o Natal e a Páscoa desarmam um pouco os espíritos e são propícias à reflexão por parte da maior parte das pessoas, em especial as que creem no significado cristão das mesmas. Neste Sábado de Aleluia vale, pois, a pena refletir sobre alguns fatos chocantes e lamentáveis que poderiam e deveriam ser evitados, e que são inaceitáveis em qualquer sociedade que se diga civilizada.
Acompanhamos na última semana aquele que foi considerado o julgamento do século, no qual a promotoria apresentou provas de que uma madrasta esganou a enteada, de 5 anos, e em seguida o pai da menina atirou o corpo da filha pela janela. Não haveria mesmo como qualquer defesa conseguir justificar tais atos.
Esta semana também ficamos chocados com a morte do pai do cantor MC Buchecha, assassinado a tiros num bar. O assassino foi preso, confessou o crime e explicou-o : a vítima pediu-lhe um cigarro, ele recusou-se a dar e, quando o pai de Buchecha voltou ao local, parou perto do assassino e começou a fumar, o que foi entendido como provocação suficiente para merecer vários tiros.
Se olharmos um pouco para trás surgirão os casos do menindo João Hélio, as chacinhas da Candelária e de Vigário Geral, entre outros crimes que, no tempo de nossos avós eram raros, mas que hoje não têm muitas vezes nem muito destaque na mídia, de tão banais que acabaram se tornando.
Sugerir que se busque uma vida com mais valores religiosos é um terreno muito delicado de se entrar na medida da pluralidade de crenças e devoções que marcam a sociedade brasileira. Para que o sonho de paz e um mundo melhor e mais justo dos que mantêm vivos diariamente os preceitos cristãos e não somente em datas comemorativas seja concretizado, o caminho comum a todas as religiões é: investimento maciço em educação.
Não se deve confundir essa orientação com transferência indevida para as escolas da tarefa educativa que cabe a pais e mães o que seria uma sobrecarga que a maior parte dos professores, já assoberbados por baixos salários e péssimas condições de trabalho, não teria como assumir, ainda que isso fosse possível. Trata-se de atingir o nível em que não haja mais uma criança sequer fora da sala de aula, e que esses jovens ganhem condições plenas, educacionais, morais e de cidadania, para que criem herdeiros menos suscetíveis à insensibilidade que permeia os atos criminosos.
O caminho paralelo à educação, que precisa ser trilhado enquanto não se atinge o nível de excelência desejado para a ensino, é o investimento na segurança pública e no aprimoramento da legislação penal, para que os responsáveis pela tristeza que a sociedade sente ao se deparar com crimes bárbaros tenham, pelo menos, medo das autoridades e da Justiça.
Atos e ações de Estado como o rigor no julgamento do casal Nardoni ou a criação e execução do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) são alentadores. Nem no maior dos sonhos alguém poderia esperar uma sociedade 100% justa e sem sofrimento até porque ela é composta dos falíveis seres humanos. Mas dá, sim, para sonhar com um cotidiano com a alegria que as famílias compartilham no almoço de Páscoa.