Dom Eugenio Sales *, Jornal do Brasil
RIO - O tóxico em nosso meio, por uma série de acontecimentos, tornou-se alvo de redobradas atenções. Foi levantado um pouco o véu que encobre esta triste realidade.
O problema está inserido em um contexto mais amplo. Tentar combatê-lo isoladamente é julgar possível conter a enxurrada sem atingir as origens, a matriz de onde procede. Fala-se em um tripé: viciado, traficante, produtor. Em outras palavras, é o relacionamento que se estabelece entre consumidor, comércio e produção. E pouco se insiste no papel do ambiente que provoca ou facilita o aumento do número de vítimas. Diminuindo os compradores, os dois últimos elos tendem a enfraquecer. Esta constatação não exclui a prioridade da repressão aos que oferecem a mercadoria.
Assistimos ao jogo pouco edificante em torno desse grave flagelo social. A emaranhada rede de traficantes, a corrupção, as armadilhas para ampliar os dependentes, enfim o avanço do vício e da lama é um fato incontestável.
O combate a essa chaga terrível, que infecta milhões de criaturas, não terá sucesso sem um comprometimento global da sociedade. Um clima coletivo onde a justiça, a austeridade, os valores religiosos são substituídos pela ânsia do prazer desvinculado da moral gera, necessariamente, o surgimento dessas distorções de conduta.
Entre as causas, profundas e diversificadas, está o enfraquecimento da moralidade. O desprezo de seus preceitos, a independência frente às prescrições que coíbem os desvios, debilitam a vontade, a resistência aos atrativos contidos nos estupefacientes.
Tomemos alguns indicativos dessa desagregação que abre caminho aos entorpecentes.
Ambientes famosos, onde a frequência é sinal de status social, surgem como suspeitos de também serem antros com presença de drogas. Os nomes que aparecem são meros indicadores de outros que conseguem, por pressões, as mais diversas, permanecer na penumbra.
A negativa ao conceito que identifica liberdade de expressão com libertinagem recebe o título de retrógrada. A ideia de que o mal, se existe, pode ser divulgado, é aprovada. Assim afirmam que difundir o erro não é incentivá-lo, mas esquecem a força que ele exerce ao conseguir, sob o falso rótulo de cultura, insinuar-se na opinião pública.
Há, também, a questão de que a liberação de certos tipos de droga, considerados mais brandos, não pode ser considerada uma ajuda nesta situação, pois, longe de contribuir para a cura dos enfermos e para uma sadia mentalidade social, corrompe ainda mais os valores sobre os quais tanto o tratamento dos doentes como a sociedade podem-se firmar para que tenham êxito.
A apresentação ostensiva da lascívia, sob os mais variados pretextos, prepara o campo onde medram os tóxicos. Nesse clima dificilmente tem lugar uma austeridade que se opõe aos atrativos dos narcóticos. De uma transgressão passa-se a outra com facilidade. O terreno é escorregadio. Por isso, parece um pouco farisaico o escândalo em torno de toxicômanos, quando se cala sobre outros fatores que causam tamanha decomposição.
A vítima principal é a família. Destruindo-a, prepara-se o avanço desse e de outros males. Além disso, um falso conceito de educação mais limita ainda sua missão vital à pátria e à Igreja. Os pais que suprimem a correção incidem em grave omissão, destroem uma autoridade, essencial à reta orientação da prole. Aqueles que se preocupam com a satisfação pessoal e descuram seus encargos com os filhos não devem se sentir surpresos com o advento desse problema. A deficiência do aconchego afetivo é suprida em outras fontes contaminadas e falsas.
Assim se expressou o saudoso papa João Paulo II a esse respeito: Sendo a família a célula básica e vital da sociedade, quando a família adoece toda a sociedade também adoece. Porque os cidadãos que assimilam as virtudes e os vícios numa família são cidadãos que se santificam ou se corrompem (discurso aos bispos do Brasil, Regional Sul II, a 17 de fevereiro de 1995).
Muito diversa a situação dos que cumpriram com fidelidade seus deveres e veem com profunda dor a corrupção dominar o fruto de suas entranhas. Esses souberam lutar e não são responsáveis diante de Deus pelo fracasso.
Considerando o sofrimento que se abate sobre tantas pessoas, expresso nas notícias que vêm a público, avulta a importância da religião nessa luta. Essa formidável força quase nunca é sequer citada. No entanto, a ação divina no íntimo das consciências, o fortalecimento da vontade, a iluminação da mente exercem um papel ímpar no combate aos entorpecentes. Ela dá o verdadeiro sentido à vida aos que se sentem desiludidos, evitando, assim, que partam à busca de falsas soluções. A experiência religiosa impede a procura de falsos experimentos.
O problema das drogas deve preocupar intensamente os cristãos. A outros cabe castigar os criminosos e colaborar na recuperação dos enfermos. A nós, uma atitude evangélica pede a denúncia da assim denominada revolução e exige o atendimento à juventude. Ela, às vezes, nesses desvarios, revela a ânsia de um íntimo e vital contato com Cristo. Essa carência, à falta do alimento verdadeiro, leva ao consumo desses venenos.
A complexidade da tarefa e os riscos que envolvem a repressão ao tóxico são desafios. A grande parcela da sociedade que se mantém íntegra, os discípulos do Senhor, o bom fermento na massa, não podem se intimidar. Trata-se de um esforço em favor do bem comum, ao qual não faltará a proteção de Deus.
* arcebispo emérito do Rio