José Luiz Niemeyer dos Santos, Jornal do Brasil
RIO - José Serra é um estadista.
Sua trajetória é retilínea e uniforme.
Sua vocação para a política é incontestavelmente de vertente weberiana: a ética da responsabilidade como farol de conduta.
O pré-candidato do PSDB é também o exemplo vivo de uma geração de políticos que sobreviveram com galhardia às guilhotinas do regime de 64.
Excelente administrador, intelectualmente poderoso, político moderno.
Mas Serra pode perder a eleição de outubro de forma contundente.
Por quê?
Porque o PT e o PSDB não estão distantes no espectro da política brasileira.
São partidos oriundos de causas comuns. Seus quadros e seus verdadeiros intelectuais acreditam no debate liberdade versus igualdade e buscam, ambos os grupos, boa harmonia entre tais fatores.
Diretrizes estratégicas dos dois programas têm a mesma matriz ideológica, ficando, muitas vezes, difícil de caracterizar um tucano de liberal e um petista de esquerdista.
Como queria Mario Covas e como já se manifestou positivamente o presidente Lula, são partidos políticos que devem se encontrar num ponto à frente.
O distanciamento residual permanece muito mais por influência de grupos radicais, que ainda 'puxam' o PT para a extrema esquerda, e por setores conservadores da elite nacional que buscam manter parte importante do PSDB atrelada a interesses econômicos regionais.
Mas os dois são partidos que existem em função da administração do conflito institucional perene e da busca de um consenso mínimo sempre possível nas democracias; ações políticas em benefício de avanços estruturais.
Ambos foram fundados para impedir que o país se transformasse numa Nicarágua no pós-1985.
Ambos são centros de reflexão de temas sensíveis sobre, por exemplo, o papel do Estado na economia; democracia e participação; a sociedade civil no processo de desenvolvimento; o papel do Brasil no concerto das nações; etc.
Ambos os grupos políticos, formados por suas lideranças regionais, conversam muito bem entre si nos bastidores. Este não é um caso trivial de disfarçamento.
Mas sim um bom procedimento de 'disfarçamento político-institucional' que faz a 'fila andar' na República brasileira.
José Serra tem grande chance de perder a eleição presidencial por este motivo discutido acima: o eleitor não politizado o vê como um candidato muito bom, mas este mesmo eleitor não compreende a existência de um processo de disputa política.
Como se tal disputa entre Serra e Dilma não fizesse sentido prático.
E o eleitor médio é o 'rei dos práticos'.
José Luiz Niemeyer é coordenador da graduação em relações internacionais do Ibmec/RJ e do Ibmec/BH.