ASSINE
search button

Crise na Europa: dependência ou morte

Compartilhar

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Nenhuma política econômica pode ficar à mercê dos bombeiros

de plantão

Já ensinava Adam Smith, pensador inglês cujas principais ideias modelaram algumas das economias modernas: a importância dos mercados não os torna antítese do Estado. Ambos podem e devem interagir e complementar-se. O mundo capitalista viveu uma aguda crise no biênio 2008-2009 porque os Estados Unidos se esqueceram dessa lição básica. E a Europa ameaça reacender o rastrilho de pólvora pelo mesmo erro elementar.

A crise em Wall Street deixou claro o suicídio cometido pelo governo Bush ao deixar o mercado ao deus-dará, inteiramente desregulado. Deu no que deu. Agora, em trilhas distintas, mas paralelas, a União Europeia (UE) se vê em meio à pior crise nos 11 anos de existência da moeda única. A sinuca de bico deu-se porque a UE deixou integrantes de uma mesma comunidade conduzirem suas próprias economias como bem entendessem e alguns deixaram os gastos públicos explodir, ignorando as regras da moeda única, o euro, que previam, quando de sua criação, um teto para o déficit público em 3% do Produto Interno Bruto (PIB) de cada sócio, além de bancos centrais independentes e, digamos, ortodoxos.

A série A da economia europeia, capitaneada pela França e pela Alemanha, cumpriu as regras. As economias médias, como Itália e Espanha, também pareciam cumpri-las, embora há muito não tivessem como esconder o tamanho de suas dívidas. Já Grécia e Portugal vinham mal das pernas há um bom tempo, mas iam se escorando nos juros baixos, liquidez farta, até porque nem bancos nem investidores davam sinais de preocupação. E o mais importante: os Piigs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) sempre tiveram a certeza de que, se algo desse errado, os vizinhos apagariam o incêndio.

Vão tentar, sim, apagá-lo. A reunião da União Europeia, quinta-feira, na Bélgica, teve manifestações unânimes de disposição em ajudar especialmente a Grécia. Não por questões humanitárias ou de solidariedade, mas para que a crise fiscal daquele país não contamine o euro. Não será fácil, como a subida das bolsas pode sugerir. No próprio comunicado oficial está claro que não haverá uma ajuda financeira aos gregos os bancos europeus não aceitam correr mais riscos. O encurtamento do crédito é um fato, e a situação não vai mudar tão cedo por lá. E não é demais lembrar que os Piigs acumulam uma dívida soberana de US$ 2 trilhões, nada menos do que o triplo do tamanho do rombo que levou à quebra o banco Lehman Brothers.

A globalização chegou a um nível que não permite mais recuos. Ninguém vai questionar ou desrespeitar a soberania de cada diferente nação. Mas está claro que a interdependência entre elas precisa de um controle que afaste o risco do famoso efeito cascata se uma ponta quebrar. Qualquer política econômica deve ser mais preventiva e menos dependente dos bombeiros de plantão.

O famoso dilema dito por dom Pedro I, ao proclamar a independência do Brasil, é exatamente o oposto de como deve funcionar hoje o sistema econômico mundial: dependência ou morte. É bom que os candidatos à sucessão de Lula que conseguiu atravessar quase incólume pelas duas bolhas estejam muito atentos a essa regra.