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O braço da lei e o júri da história

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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - A decisão do Superior Tribunal de Justiça de acolher o pedido da Procuradoria da República no sentido de decretar a prisão do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e de outras cinco pessoas, é um marco na história do país. Não só por decretar a prisão como livrar a capital federal de um mandatário sobre o qual pesam gravíssimas acusações de corrupção. A corte gerou o entendimento de que Arruda não pode continuar à frente dos destinos da população brasiliense. É uma tese correta sob todos os aspectos, principalmente pelo fato de as atitudes representarem um ato de desprezo ao valor do voto depositado nas urnas por quem elegeu o governador e seu partido para quatro anos no poder. Arruda chamou a decisão de agressão : quem o viu contando dinheiro tem mais direito a empregar essa palavra.

O imbróglio torna-se pior ainda quando se observa o rito sucessório, mesmo traumático, previsto em casos assim pela lei. Aqueles que deveriam substituir eventualmente o governador também foram flagrados pela investigação dos desmandos contidos na Caixa de Pandora. Por sinal, nunca o nome de uma operação da Polícia Federal esteve tão de acordo com os desígnios daqueles a quem os agentes estariam observando. Quanto mais se remexe no caso, mais lodo aparece, mais provas emergem, mais gente é flagrada e mais gente tenta montar esquemas espúrios para escapar dos holofotes. Infelizmente, a política na capital federal é marcada por personagens e episódios que caberiam muito melhor na crônica provinciana dos rincões mais atrasados do país. Não há uma assembleia distrital, com deputados, mas uma câmara de vereadores de luxo, locais onde cidadãos com voto, mas sem preparo ou escrúpulo, zombam diariamente do esforço de quem os sustenta.

Ainda que nenhum dos acusados permaneça muito tempo no cárcere da PF, a lição representada pela decisão do STJ está clara para toda essa turma. Dinheiro na meia, a oração dos corruptos, tentativa de suborno de testemunha, nada disso passou em branco em um diligente trabalho de construção de provas. Há um preço a pagar. No caso de Arruda, trata-se do segundo escândalo no qual está envolvido, uma vez que foi um dos parlamentares flagrados no caso da adulteração do painel do Senado, no início dos anos 2000. Na época, a solução para escapar foi usar o beneplácito de uma casa acostumada a assimilar escândalos na proporção das xícaras de café ali servidas: um discurso emocionado em plenário e a renúncia ao mandato. A volta por cima veio pelo caminho certo os votos porém agora ficam dúvidas sobre se os meios para obtê-los foram corretos. Arruda se elegeu com uma grande votação e efetivamente emprestou a imagem de um homem público disposto a imprimir à capital uma gestão à luz do zelo.

Quem conheceu o complexo administrativo de Buritinga, na cidade satélite de Taguatinga, teve a impressão de um regime de austeridade, dada a simplicidade das instalações onde se concentram todas as secretarias. Na sala principal, onde se entra por uma porta com código, a estrela é a enorme mesa de reuniões onde ocorrem os despachos coletivos. Os auxiliares diretos do governador trabalham ali, lado a lado. Como a decisão do STJ demonstra, aparência não é tudo, principalmente em política. Tomara que o vulto do escândalo sirva pelo menos para tornar o eleitor brasiliense menos letárgico diante dos fatos.