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A campanha parece preliminar de clássico

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Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

RIO - Nos velhos tempos, lá se vai mais de meio século, em que rapaz tijucano fascinado pelo futebol não perdia um clássico aos domingos em qualquer campo, mesmo nos distantes subúrbios em que o trem da Central era o mais comum meio de transporte, antes da partida principal, a preliminar ajudava a passar o tempo de espera com animadas peladas dos reservas, quase sempre valorizados com o enxerto de craques que esperavam a vaga para a promoção.

Era raro, mas acontecia que a preliminar dos reservas fosse mais emocionante do que a partida principal com os primeiros times. E algumas surpresas animavam o vivo debate nas arquibancadas, quando raramente um sururu, com tapas e pernadas, logo apaziguado com a intervenção do policiamento, não chegava a assustar os fanáticos que sustentam a popularidade mundial do futebol.

Em 1950, quando da inauguração do Maracanã para a Copa de 50, de renegada memória com o gol de Ghiggia o ponta-direita do Uruguai, que esteve recentemente no Brasil para gravar no estádio da sua consagração o pé na calçada da fama perdemos a decisão na véspera, quando o técnico Flávio Costa, candidato a deputado federal, transferiu a Seleção do sossego bucólico da Chácara das Pedras, na qual estive a serviço, para o campo do Vasco, em São Januário, onde o coro infernal do buzinaço a noite inteira não permitiu que ninguém dormisse um minuto. O mais é sabido. Juvenal tomou um porre num botequim de São Januário e foi esbofeteado por Flávio Costa, que não ousou substituí-lo pelo reserva, insone mas sóbrio.

No Maracanã aprendi muitas lições da cordialidade do povo brasileiro. Na decisão do campeonato entre o Flamengo e o Botafogo, quando Garrincha destroçou a defesa rubro-negra, cheguei ao estádio com os dois filhos, então menores. Demos voltas pelo estádio superlotado e não encontramos uma brecha para entrar. Já desanimados, tivemos a atenção despertada para um fila que se preparava para varar a multidão e invadir as arquibancadas nos mais altos degraus. Negociei com os líderes da invasão uma vaga para mim e os dois filhos. E a generosidade do povão colocou-nos no meio do bolo. Quando demos acordo, estávamos nos últimos degraus da arquibancada, exatamente no meio de campo. E foi ainda graças aos empurrões e chega-pra-lá dos amigos de 15 minutos que assistimos ao baile de Garrincha e vimos o esforço do Zizinho para equilibrar um jogo que as pernas-tortas já tinham decidido.

Pois a campanha eleitoral antecipada pelo presidente Lula com o lançamento da candidatura da ministra Dilma Rousseff está parecendo preliminar dos antigos clássicos do tempo em que ainda não éramos campeões do mundo.

Tantos anos passados, quando só assisto a futebol pela televisão depois da última tentativa de voltar ao Maracanã e à Tribuna de Imprensa, com a saudade purgando as vagas do João Saldanha, do Sandro Moreira, do Jorge Curi, do Armando Nogueira, do Sérgio Porto, Carlos Niemayer do Canal Cem. O bate-papo na Tribuna da Imprensa valia a ida ao Maracanã.

Esta fase preliminar da campanha sucessória, antecipada pelo presidente Lula ao lançar a candidatura da ministra Dilma Rousseff para sua sucessora e partir para a campanha sob o disfarce de visita às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Minha Casa, Minha Vida, cutucou nas saudades do tempo em que frequentava o Maracanã e outros estádios e chegava cedo para não perder a preliminar. A preliminar que na campanha não vai além da pelada que a entrada em campo pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso promete esquentar. Desde que o presidente Lula mantenha os reservas no banco e entre em campo para o jogo principal de decisão do campeonato.

Villas-Bôas Corrêa é repórter político do JB.