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Contas externas vulneráveis, de novo?

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Fernando Sampaio, Jornal do Brasil

RIO - É notório que a redução da vulnerabilidade das contas externas foi um dos elementos centrais a permitir que, de meados de 2003 a setembro de 2008, a economia brasileira se afastasse da dinâmica de voos de galinha (breves períodos de crescimento abortados por dificuldades cambiais) e atravessasse o mais prolongado período de crescimento desde a década de 70. Também já se tornou claro que o fortalecimento anterior do Balanço de Pagamentos foi um fator decisivo para que, na conjuntura crítica criada pelo agravamento da crise global, a política econômica tenha tido margem de manobra para adotar medidas antirrecessivas. E é evidente que tais medidas contribuíram para que a reativação da atividade econômica, no Brasil, fosse mais precoce e mais pronunciada do que na maioria das demais economias.

É compreensível, por isso, que alguns números recentes relativos às contas externas, que podem ser entendidos como indicativos de uma deterioração do seu desempenho, venham chamando a atenção.

No fechamento de 2009 a economia brasileira apresentou saldo negativo em transações correntes da ordem de US$ 24,3 bilhões, valor que corresponde a 1,6% do PIB (valendo lembrar que essa conta reúne as entradas e saídas de divisas relacionadas a exportação e importação de bens, a serviços como viagens internacionais, fretes e juros e a remessas de lucros e dividendos, bem como remessas de trabalhadores residentes no exterior). Para 2010 espera-se, em grande medida como reflexo do maior dinamismo da demanda interna brasileira em comparação com a demanda global (e em alguma medida como reflexo do movimento, marcante em 2009, de apreciação do real ante a maioria das demais moedas), um déficit em transações correntes mais pronunciado, da ordem de US$ 50 bilhões (perto de 2,5% do PIB).

Como se sabe, para que déficits em transações correntes não se traduzam em perda de reservas e, eventualmente, turbulências cambiais, é preciso que ocorram ingressos de capitais suficientes para financiá-los.

Em 2009, as entradas de capitais (descontados os fluxos de investimento brasileiro no exterior e a concessão de crédito a tomadores externos) superaram o déficit em conta corrente, permitindo até novo aumento relevante (superior a US$ 30 bilhões) do estoque de reservas de divisas do Banco Central.

Para 2010 predomina a expectativa de que novamente não falte financiamento (até porque o país se diferencia positivamente, numa conjuntura em que várias das principais economias do globo ainda se ressentem muito dos efeitos da crise financeira). Embora a fragilidade do quadro global evidenciada, nos últimos dias, por nova rodada de aumento da aversão ao risco, que levou a um repique da cotação do dólar no Brasil possa levar a uma frustração dessa expectativa, a grande disponibilidade de reservas sugere que, nessa eventualidade, haveria condições de amortecer a turbulência.

A preocupação principal com relação às contas externas não diz respeito, assim, às perspectivas de curto prazo, mas a um horizonte de análise mais longo. A convivência prolongada com déficits elevados em conta corrente tende a tornar a economia mais vulnerável ante mudanças no ambiente financeiro global ainda mais quando tais déficits são acompanhados por uma taxa de câmbio pouco estimuladora de investimentos em setores que exportam ou competem com importações. Evitar recair nesses riscos é um dos grandes desafios que se colocam para a política econômica.

Fernando Sampaio, além de economista, é sócio-diretor da LCA Consultores.